CONTOS DAS RUAS DE PORTO ALEGRE - UM ENCONTRO IMPROVÁVEL
- Carlos A. Buckmann
- 1 de ago.
- 4 min de leitura

UM ENCONTRO IMPROVÁVEL
O ar noturno da Rua Padre Chagas tinha a densidade de um paradoxo. Ali, o riso parecia mercadoria; a tristeza, peça de museu.
As mesas de metal forjado, alinhadas como altares profanos, celebravam a liturgia do prazer: taças de vinho capturavam a luz âmbar dos postes, garçons deslizavam com a precisão de um ritual antigo e o aroma da carne grelhada se misturava ao perfume caro, compondo uma sinfonia reservada à burguesia urbana.
Era o templo do instante. O futuro cabia no limite do cartão de crédito; o passado sobrevivia apenas depois de cuidadosamente editado pela memória.
Roberto permanecia de pé, sentindo-se estrangeiro nesse bairro. Seus olhos, acostumados ao horizonte aberto das coxilhas, esbarravam agora na arquitetura elegante dos edifícios envidraçados e no vai e vem inquieto dos jovens bem-vestidos.
As mãos que costumavam escrever versos sobre terra molhada seguravam uma taça de espumante com a delicadeza de quem teme quebrar não o cristal, mas o próprio momento. As conversas ao redor chegavam como um idioma desconhecido, no qual cada palavra parecia valer mais como moeda social do que como pensamento.
Melissa o avistou do outro lado da calçada.
O vestido acompanhava a brisa com naturalidade, como se tivesse sido feito para aquela rua. Caminhava com a segurança de quem jamais precisou perguntar se pertencia a um lugar. Quando sorriu, havia naquele gesto uma confiança quase possessiva.
“Roberto... você veio. Achei que um poeta de verdade detestasse lugares assim.”
Ele sorriu discretamente.
“A realidade é uma convenção que a arte insiste em desafiar. E eu preciso da realidade para alimentar minhas dúvidas.”
Ela riu.
O som era leve, cristalino, capaz de atravessar o ruído dos carros.
“As dúvidas são um luxo. Eu prefiro as certezas. Talvez seja deformação profissional. Futura jurista.”
“Existe alguma certeza maior do que a incerteza?”
Ela apenas arqueou as sobrancelhas.
Roberto puxou a cadeira para que ela sentasse. Era um gesto aprendido com o avô, homem simples do interior, para quem cortesia nunca saiu de moda. O ferro da cadeira arrastado sobre o piso de mármore carrara, produzindo um som áspero que destoou da música ambiente.
“Então fale das suas certezas.”
Melissa pediu um drinque rubi cujo nome ele nunca ouvira.
A conversa encontrou um ritmo curioso. O Direito organizava argumentos; a Literatura desorganizava certezas. Eram dois rios correndo lado a lado, sem jamais se confundirem.
Então algo começou a escapar da lógica.
O garçom da mesa vizinha deixou um copo cair.
Mas o vidro não se partiu.
Permaneceu suspenso por um instante impossível, como uma gota d'água esquecida pela gravidade. Depois deslizou lentamente até a mão do cliente, intacto.
Roberto piscou.
Tudo parecia normal.
Logo depois, a música executada nas caixas de som retrocedeu por alguns segundos. As notas tocaram ao contrário, formando uma melodia inquietante que ninguém, além dele, pareceu perceber.
Uma estrela cruzou o céu.
Não caiu.
Subiu.
Roberto sentiu um arrepio.
A realidade parecia perder a costura diante de seus olhos.
Melissa, entretanto, seguia imperturbável.
“O Direito existe para organizar o caos. Temos o direito de possuir aquilo que é nosso.”
“Não existe propriedade capaz de resistir ao tempo, respondeu em voz baixa. Somos apenas guardiões temporários de uma poeira que um dia foi montanha.”
A conversa desviou naturalmente para a família.
Melissa falou do avô, desembargador influente, da casa de veraneio em Gramado e das histórias que cercavam a tradição da família.
Roberto respondeu lembrando a avó, mulher simples, criadora de galinhas, narradora incansável de histórias contadas ao redor do fogão a lenha.
Foi então que algo despertou sua memória.
“Minha avó falava de um velho casarão em Gramado. Dizia que um juiz poderoso havia tomado aquelas terras de sua família.
Fez uma pausa.
“Ela dizia que a terra tem memória. E que memória é o único fantasma impossível de exorcizar.”
Melissa empalideceu.
O copo em suas mãos começou a tremer.
O líquido rubi desenhava círculos perfeitos, embora a mesa permanecesse imóvel.
No céu, a mesma estrela tornou a surgir.
Desta vez cruzou horizontalmente a noite, como um traço de giz sobre uma lousa escura.
“Roberto...”
Sua voz mal saiu.
Ela abriu a bolsa e retirou uma fotografia antiga.
“Encontrei isto hoje entre os documentos do meu avô.”
Era uma fotografia amarelada. Uma família sorria diante de uma casa de madeira.
No centro da imagem estava uma mulher de vestido de chita e avental florido.
Roberto parou de respirar por um instante.
Era sua avó.
Exatamente como aparecia nas fotografias guardadas na estante da casa onde crescera.
Melissa apontou para um homem ao lado dela.
A mão tremia.
“Este é o seu bisavô.”
Silêncio.
“O sobrenome dele... era o mesmo da minha família, antes de ser alterado.”
Respirou fundo.
“Meu bisavô nunca roubou aquela propriedade. Ele se apaixonou pela filha dos lavradores. Os dois fugiram juntos. A casa foi abandonada. As famílias se separaram... mas eram a mesma família.”
O mundo pareceu recolher todos os sons.
As risadas desapareceram.
Os copos deixaram de tilintar.
Até a música parecia distante.
Os fenômenos inexplicáveis cessaram.
Já não eram necessários.
A verdadeira ruptura da realidade acontecia diante deles.
O destino havia unido duas pessoas que carregavam, sem saber, a continuação de uma história interrompida muitas décadas antes.
Roberto ergueu os olhos.
Encontrou os de Melissa.
Ali não havia apenas surpresa.
Havia uma dor antiga, herdada, sem nome.
Lá em cima, as estrelas lentamente se organizaram em um desenho improvável.
Durante um breve instante, pareciam formar a silhueta de uma casa.
“Então... disse ele, quase sem voz. Nunca fomos dois estranhos.
Melissa sorriu. Seus olhos umedeceram.
“Não. Somos dois capítulos separados da mesma história.”
O garçom aproximou-se discretamente.
“Mais alguma coisa, senhorita?”
Sem desviar os olhos de Roberto, ela respondeu:
“Apenas a conta.”
Fez uma pausa.
“Temos uma herança para compreender antes de decidir se vale a pena enterrá-la.”




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