CONTOS DAS RUAS DE PORTO ALEGRE - UM ENCONTRO DOMINICAL.
- Carlos A. Buckmann
- há 3 dias
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UM ENCONTRO DOMINICAL.
Ernesto, filósofo e ateu convicto, mantém uma antiga amizade com o padre Alexandre, que vem desde os bancos escolares do Colégio Julio de Castilhos.
Na nave da pequena Igreja da Restinga, a penumbra acolhia mais um de seus encontros dominicais. Conversam sobre os “Pensées de Pascal”, invocando o cálculo da aposta divina como suprema prudência.
“Se aposto na eternidade, ponderou o clérigo, nada perco na finitude e posso ganhar o infinito.”
Ernesto sorriu com um toque de Nietzsche e Schopenhauer na mímica do rosto.
“A própria existência é uma aposta, Alexandre. Entre o medo da perda e o impulso do devir, viver já é arriscar-se ao vazio.”
Padre Alexandre fechou o livro e tirou do bolso uma moeda antiga, propondo um teste definitivo ao mistério.
“Lancemos ao ar. Se der coroa, Deus existe; se der cara, o acaso rege o cosmo.”
A moeda subiu, girou sob a luz dos castiçais e caiu ruidosa no mármore frio. Ambos debruçaram-se para examinar o veredito.
A moeda parou perfeitamente em pé, sustentada na fenda estreita entre duas pedras do piso. Nenhum lado prevaleceu.
Entreolharem-se, o absoluto não aceita cálculos humanos. O segredo da aposta não é prever o resultado, mas aprender a blefar com o invisível.




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