CONTOS DAS RUAS DE PORTO ALEGRE - UM CHOPP NO MERCADO
- Carlos A. Buckmann
- 2 de ago.
- 4 min de leitura

UM CHOPP NO MERCADO
O salão do segundo andar do Mercado Público fervilhava como um organismo vivo.
O chopp do velho estava terminando e a porção de torresmo pururuca, com sua crosta dourada e sal grosso, era um monumento à efemeridade do prazer. Ele não o comia. Contemplava-o. O garçom, um homem de rosto liso e olhar cansado, equilibrava a bandeja na palma da mão como se fosse uma extensão de seu próprio corpo.
“O senhor vai querer mais um?”, perguntou o garçom, ao passar, com a voz seca como o pergaminho de um velho livro.
O velho ergueu os olhos. Havia no seu olhar a distância de quem navega por mares interiores.
“O chopp é o mesmo de sempre. Mas a pergunta, essa sim, é nova todas as vezes”, respondeu, com um sorriso que não tocava os lábios.
O garçom parou. Não por educação, mas por cansaço. Aquele velho era uma constante no seu dia, um ponto fixo no caos do almoço. Ele o servia há anos, e nunca trocaram mais de dez palavras seguidas. Hoje, algo na cadência do cliente o fez hesitar.
“A pergunta é a mesma, senhor. A resposta é que muda”, retrucou o garçom, enquanto anotava um pedido numa mesa ao lado, sem desviar o olhar.
O velho pegou um torresmo, mas não o levou à boca. Girou-o entre os dedos, como quem examina uma relíquia.
“O tempo não passa, garçom. Nós é que passamos pelo tempo, como uma agulha que atravessa o tecido sem nunca alterar a linha. Você acredita que o mundo é real?”
O garçom voltou, deixando a conta de outra mesa.
“O mundo é o que eu carrego nesta bandeja, senhor. O resto é conversa de quem pode pagar pelo silêncio.”
O velho riu, um som baixo e áspero, como o rangido de uma porta antiga.
“E o que você carrega nesta bandeja? Refeições? Ou a esperança de que alguém, ao comer, lembre-se de que é vivo?”
O garçom serviu o chopp de um cliente próximo, com a precisão de um relojoeiro.
“Eu carrego a obrigação, senhor. A esperança é um luxo que não cabe no bolso do uniforme.”
O diálogo era um duelo de espelhos. Cada réplica do garçom era uma faceta da realidade; cada tréplica do velho, uma fenda por onde a dúvida escorria. O torresmo, intocado, começava a esfriar. O velho, por fim, quebrou a crosta com os dentes. O estalo foi como um tiro no salão.
“Já escrevi sobre isso, garçom, disse, após mastigar devagar. Escrevi sobre o instante em que o prazer se torna memória. Sobre o peso de um gesto que ninguém vê. Meus livros estão todos na estante das livrarias. Empilhados. Empoeirados. Ninguém os lê. Ninguém os compra.
O garçom limpou a mesa ao lado, com um pano úmido.
“O senhor escreve sobre o que sente ou sobre o que gostaria de sentir?”
“Escrevo sobre o que vejo. E vejo um mundo que não quer ser visto.” O velho inclinou-se, baixando a voz. “Passei quarenta anos descrevendo o silêncio das pessoas, a ferrugem das coisas. E o que recebi? O silêncio.”
O garçom parou. Olhou para o velho com uma estranha serenidade.
“E o senhor acha que o reconhecimento é a prova da existência? Eu sirvo duzentos pratos por dia. Nenhum deles pergunta se sou real. Apenas são consumidos. Talvez o senhor precise aprender com o torresmo: ele não precisa ser amado para ser crocante.”
O velho fitou a porção. Havia filosofia naquela frase, e isso o incomodou.
“Você é um filósofo disfarçado, garçom?”
“Não, senhor. Sou apenas alguém que aprendeu que o mundo não é uma história para ser lida, mas um chopp para ser bebido antes que a espuma acabe.”
O velho ergueu o copo. Bebeu. O líquido gelado desceu-lhe a garganta como uma verdade incômoda. Colocou o copo na mesa e, pela primeira vez, pareceu ver o garçom: não como um móvel, mas como um homem.
“Eu poderia ter sido você,” murmurou.
O garçom sorriu pela primeira vez. Um sorriso enigmático, de quem guarda um segredo.
“O senhor é mais parecido comigo do que imagina.”
Virou-se e foi atender outra mesa. O velho ficou ali, imóvel, sentindo o peso dos anos. Pegou um guardanapo de papel e, com uma caneta que tirou do bolso, rabiscou algo. Uma frase. Uma despedida. Ao terminar, chamou o garçom para pagar a conta.
“Fique com isso”, disse, entregando o guardanapo. “É o único exemplar da minha última obra.”
O garçom pegou o papel, leu e guardou no bolso sem expressão.
“Obrigado, senhor.”
O velho pagou, levantou-se e desceu as escadas, perdendo-se no movimento do mercado. O garçom, então, voltou ao balcão, tirou o guardanapo e, com um gesto prático, usou-o para limpar o tampo sujo de uma mesa. Ao terminar, atirou-o no lixo.
Antes que o papel sumisse entre as cascas e os copos, uma cliente nova, uma moça de cabelos cor de fogo, sentou-se na mesa recém-limpa.
“Garçom! chamou ela, apontando para o lixo. Aquele guardanapo… ele tinha uma frase. O senhor pode me dar?”
O garçom parou. Franziu o cenho.
“É só um papel sujo, senhora.”
“Eu sei, disse ela, com os olhos brilhando. Mas é a frase mais bonita que poderemos ler hoje.”
O garçom, sem entender, retirou o guardanapo do lixo e o entregou. A moça leu em voz alta:
"Nenhum livro é inútil. Apenas espera o leitor certo, assim como o torresmo espera a fome certa."
Ela guardou o papel na bolsa.
O garçom a observou, atônito. Naquele instante, compreendeu: o velho não era um escritor frustrado. Ele era o escritor da realidade que não queremos ler.




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