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CONTOS DAS RUAS DE PORTO ALEGRE - UM CAFÉ NA RUA DA PRAIA

  • Carlos A. Buckmann
  • 5 de ago.
  • 4 min de leitura

UM CAFÉ NA RUA DA PRAIA

            O café chama-se "PRAIANO", mas não há mar nem rio à vista. A Rua da Praia, em Porto Alegre, é um nome de memória. O aterro do século XIX empurrou o rio para longe. Agora, só o movimento dos carros e o vai-e-vem dos pedestres preenchem a paisagem.

            Em uma das mesas, Elias, angolano, que vive do comércio de relógios e eletrônicos, trazidos do Paraguai, e que expõe sobre um pano preto no chão da Esquina Democrática.

            Clarissa, chilena, ocupava a mesa ao lado. Uma xícara de chá gelado. Um jornal aberto na página de classificados. Caneta na mão. Rabiscava endereços, riscava números. O dinheiro contado na carteira cabia numa nota de vinte.

            Ayrton, porto-alegrense, lê na mesa do fundo. O livro de capa gasta: "Ética", de Spinoza. Sua xícara de café permanece intacta. Ayrton não bebia. Apenas sublinhava.

            O diálogo começou sem cumprimentos.

            “Se Deus é tudo, então não é nada”, disse Clarissa, sem tirar os olhos do jornal.

            Ayrton ergueu a cabeça.

            “Quem disse que é tudo?”

            “O livro que o senhor lê.”

            Elias riu, baixo.

            “O senhor é ateu?”

            “ Sou leitor, respondeu Ayrton, fechando o livro. Spinoza não prova Deus. Ele descreve a substância.”

            “E o que é a substância?”, perguntou Clarissa.

            “É o que existe por si mesma. Não precisa de causa externa.”

            Elias pegou um relógio da sua sacola de mercadorias.

            “Este relógio existe por si mesmo?”

            “Não. Funciona por corda ou pilha.”

            “Então Deus é uma pilha?”

            Clarissa riu. Ayrton franziu a testa.

            “Deus é a totalidade dos fatos. As leis da física, a matéria, o pensamento.”

 

            “E a minha fome?“. Clarissa fechou o jornal. “A minha fome entra nessa totalidade?”

            “Entra. É um modo.”!

            “E o dinheiro que eu não tenho? Também é Deus?”

            Ayrton hesitou.

            “O dinheiro é uma relação social. Uma abstração.”

            “Então Deus é uma abstração”, disse ela.

            Um homem de terno ao lado pediu a conta. Uma mulher de chapéu trocou de mesa.

            Elias balançou o relógio.

            “Em Luanda, eu sabia o que era Deus. Era o que impedia a bala de acertar o meu irmão. A bala errou. Deus era a mão que desviou.”

            “Ou o vento”, disse Ayrton.

            “Ou o acaso” completou Clarissa.

            “O acaso não existe em Spinoza, disse Ayrton, abrindo o livro numa página marcada  Tudo tem causa. A bala que errou seu irmão teve uma trajetória determinada.”

            Elias colocou o relógio sobre a mesa.

            “O senhor acredita nisso?”

            “Não preciso acreditar. Está escrito.”

            “ Escrito por um homem.”

            “Um homem que pensou.” Clarissa interrompeu:

            “E se o pensamento for uma ilusão? Se não houver causa, nem substância, nem Deus?”

            “Então há apenas o vazio”, respondeu Ayrton.

            “O vazio existe, disse Elias. Eu atravessei o vazio. No navio, entre Luanda e Lisboa, não havia Deus. Havia só o mar.

            O balcão do café rangia com o peso dos clientes. Uma garçonete passou com uma bandeja de xícaras. No fundo, um rádio tocava samba antigo.

            Ayrton olhou para o livro por um instante.

 

 

            Clarissa guardou a caneta.

            “Meu pai era carpinteiro. Ele dizia: 'Deus é o entalhe que falta na madeira.' A forma que não está ali.”

Ayrton ergueu o livro.

            “Seu pai era mais sábio que Spinoza.”

            “Ele morreu de câncer. A madeira faltou e Deus não entalhou nada.”

            O silêncio se instalou entre os três. O café continuava seu movimento. Um homem entrou, comprou um pão, saiu. Uma criança derrubou um copo de suco.

            Elias então pegou um relógio grande, de parede, que trazia na caixa.

            “Este relógio veio do Paraguai. Não tem ponteiros.”

            “Como marca a hora?”, perguntou Clarissa.

            “Não marca. Só mostra os números. Os números estão lá. Mas o movimento não.”

            “Um relógio parado está certo duas vezes ao dia” disse Ayrton.

            Elias colocou o relógio sobre a mesa

            “Este aqui nunca marca a hora certa. Só marca as horas possíveis.”

            Clarissa inclinou-se.

            “Isso é Deus?”

            “Talvez. A possibilidade.”

            Ayrton pegou o livro e abriu na primeira página. Leu em voz alta:

            "Por Deus entendo a substância infinitamente infinita."

            Elias olhou para o relógio sem ponteiros.

            “E por relógio entendo a caixa que nunca marca nada.”

            Clarissa riu pela primeira vez.

            “É um Deus sem atributos.”

            “E sem movimento” completou Elias.

            Ayrton sentou-se. Bebeu o café frio. Fez uma careta.

            “Então chegamos ao nada.”

            “Chegamos à caixa”, disse Elias.

            “Mas se Deus é a substância, e a substância é o que sobra, então Deus é o que sobra de um relógio quebrado”, disse Ayrton.

            Ayrton reabriu o livro.

            Elias guardou a caixa de relógios e saiu em seguida, deixando o pano preto estendido sobre a mesa.

            “Rapazes, saio em busca de Deus”, disse Clarissa pagando a conta com seus últimos vinte reais. Saiu, misturando-se à multidão da Rua da Praia.

            A garçonete recolheu a xícara vazia de Ayrton. Passou o pano na mesa. O café ainda tinha movimento. Um estudante entrava. Um homem lia o jornal.

            Na mesa onde Elias expusera seus relógios, restava apenas um. Um digital, com a bateria fraca, piscando os números. 00:00.

            Ayrton olhou para o relógio.

            “00:00. A substância pisca.”

            E ele soube que a discussão não terminara. Ela apenas parara. Como um relógio sem ponteiros. Porque Deus, se existe, não é o movimento.

            É a pausa.

 
 
 

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