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CONTOS DAS RUAS DE PORTO ALEGRE - SEXTA-FEIRA NO SUPER MERCADO

  • Carlos A. Buckmann
  • 8 de ago.
  • 2 min de leitura

SEXTA-FEIRA NO SUPER MERCADO 

            Arlete ajustou o passo. O assoalho de granito refletia a luz fria do teto. Sexta-feira. A rotina.

            Na calçada, antes do acesso à rampa, um homem de calça desbotada e jaqueta de brim interrompeu a trajetória de Arlete. Não a tocou. Apenas se colocou à frente, a uma distância que não invadia, mas impedia.

            "Senhora, poderia me comprar um pote de paçoquinha? O pequeno. Vendo unidade. É o meu ganho do dia."

            Arlete desacelerou. O olhar fixou-se na mão do homem, suja, com unhas curtas. Antes que pudesse formular resposta, sentiu o puxão no antebraço. O marido, à sua esquerda.

            "Vamos. A lista é grande."

            O puxão foi firme. Arlete obedeceu ao vetor, mas virou o rosto para trás. O homem já não a olhava. Mirava o próximo casal que saía do estacionamento.

            As compras foram mecânicas. Farinha, óleo, café. Nenhum comentário sobre o ocorrido. O carrinho enchia. Na seção de frios, ela pegou dois pacotes de pão de forma. O terceiro, colocou de lado, separado.

            Na fila do caixa, Arlete observou o marido pagar a conta. Ele era preciso. Não gostava de moedas. Enquanto o operador registrava os códigos de barras, Arlete pegou uma sacola plástica e, com movimento discreto, depositou os três pães. Não o pote de paçoquinhas.

            Arlete desviou-se. Foi até a porta do supermercado, onde o homem ainda estava, encostado no poste de ferro.

            Estendeu a sacola.

            "Tome. Pão. Faz uma refeição."

            O homem ergueu a cabeça. Não olhou para a sacola. Olhou para Arlete. Os olhos não pediam. Acusavam.

            "Eu pedi paçoquinha. Paço-qui-nha. É um pote. Para vender. Pão eu não peço. Pão eu não quero."

            A voz subiu.

            "Vocês são todos iguais. Eu falo uma coisa, vocês ouvem outra. Dão o que querem dar. Não quero esmola. Não quero o seu pão."

            O grito foi seco, sem trêmulo. Arlete sentiu o choque térmico na nuca.

            Baixou o braço.

            A sacola pesava.

            Voltou-se.

            Caminhou em direção ao marido, que já terminava de colocar as compras no carrinho do supermercado para levar até o carro. O som do grito ainda ecoava em sua mente.

            Ela não contou o que houve. O marido não perguntou. Apenas disse:

            "Demorou. Vamos."

 

 
 
 

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