CONTOS DAS RUAS DE PORTO ALEGRE - Por que, Tristeza?
- Carlos A. Buckmann
- 29 de jul.
- 5 min de leitura

POR QUE, TRISTEZA?
A madeira range sob meus pés, um lamento familiar que ecoa pelo assoalho da sala. Lá fora, o crepúsculo tinge as copas das árvores que ainda restam, um último suspiro de verde em meio ao avanço dos sobrados de vidro e concreto. O bairro chama-se Tristeza, mas a ironia do nome sempre me pareceu mais um elogio à melancolia fundadora do que uma queixa.
Ele chegou pontualmente, como um carroceiro da modernidade. Terno cinza, pasta de couro, um sorriso que media precisamente o ângulo da cortesia e o da ganância. Seu nome é irrelevante; chame-o de Corretor.
“É uma oportunidade única, seu”, ele hesitou, seus olhos percorrendo as rachaduras no reboco, o telhado que se curva como um lombo cansado. “O senhor está sentado sobre um potente veículo de transformação urbana. Este terreno vale uma pequena fortuna.”
Sentei-me na velha poltrona de palhinha, o mesmo assento onde meu avô contava histórias que eu julgava ser lendas. O Corretor desdobrou plantas, desenhos, projetos. Falou em “vetor de crescimento”, “espelho d’água”, “área gourmet”. Suas palavras eram iscas, cada uma com um anzol de cláusula contratual escondido na isca.
“A documentação apresenta uma pequena… peculiaridade”, disse ele, deslizando um papel sobre a mesa de pinho. “Uma averbação antiga, do começo do século XX. Nada que uma boa equipe jurídica não possa contornar. O senhor assina aqui, e eu garanto que a imobiliária resolve tudo. O senhor fica com o dinheiro, nós com o terreno. Limpo, rápido.”
Ouvi o zumbido do seu discurso como se ouvisse o murmúrio de um rio distante. Ele falava em “valor de mercado”, “justiça especulativa”, “direito de construir”. Em cada pausa, eu enxergava a sombra do meu bisavô, José da Silva Guimarães, montado em seu cavalo baio, demarcando aquelas mesmas léguas com varas de madeira e sonhos de um povoado que ainda não tinha nome.
“O senhor não entende, seu”, insistiu, inclinando-se, o perfume de seu loção invadindo o ar úmido da tarde. “A cidade não para. A Tristeza não é mais o que era. É uma região nobre! O senhor vive aqui como um eremita, num casebre, enquanto seus vizinhos pagam fortunas por metros quadrados de ar-condicionado.”
Levantei-me. Fui até a janela que rangeu em protesto. Lá fora, os postes de luz começavam a acender, pequenas estrelas elétricas sobre o asfalto novo. Apontei para o morro ao fundo, onde a vegetação ainda teimava.
“O senhor vê aquela figueira?”, perguntei.
Ele franziu a testa, impaciente. “Vejo. O que isso tem a ver?”
“Ela foi plantada por meu bisavô, no dia em que o primeiro carro de boi passou por aqui. Ele disse: ‘Aqui, onde a sombra toca, nunca haverá pedra.’”
O Corretor riu, um som seco. “Poesia de posseiro. Com todo respeito, seu, essas memórias não pagam IPTU. O senhor está sendo irracional. O terreno tem uma escritura pública, registrada. Nós temos recursos para contestar até mesmo uma maldição de índio.”
Senti um calor subir pelo peito. Não era raiva. Era a certeza de um segredo que há muito esperava seu momento de florir. Caminhei até o velho armário de cedro, abri a gaveta de fundo falso e retirei um maço de papéis amarelados, com selos imperiais e letras itálicas.
“Sabe por que este bairro se chama Tristeza?” perguntei, colocando os documentos sobre a mesa.
Ele olhou, desconfiado. “Uma lenda qualquer. Um tropeiro triste, uma índia abandonada…”
“Errado. Chama-se assim por causa do apelido do meu bisavô. José da Silva Guimarães. Os amigos o chamavam de Juca. E Juca tinha uma característica: um bigode que lhe caía para os lados, dando-lhe um ar perpétuo de luto. Um poeta local, em uma noite de vinho, o apelidou de ‘Juca Tristeza’. E o nome pegou. Quando ele doou as terras para a formação do loteamento, a condição foi que o bairro carregasse para sempre seu apelido.”
O Corretor empalideceu. Seus olhos percorreram os papéis, as assinaturas, os carimbos de cartórios que já não existiam mais. O que ele via ali não era uma peculiaridade. Era um muro jurídico de dois séculos de espessura.
“Isso… Isso é uma doação com cláusula de inalienabilidade perpétua?”, gaguejou, o suor brilhando em sua testa.
“Não exatamente”, respondi, com uma calma que surpreendeu até a mim. “É uma doação com cláusula de usufruto vitalício familiar, renovável a cada geração, desde que o herdeiro resida na construção original, como estou agora. O terreno não me pertence. Ele me foi confiado. E não há imobiliária, nem tribunal, nem artimanha legal que possa quebrar a escritura de 1888.”
Ele abriu a boca, fechou, pegou a pasta e a largou. Sua pose de negociador desabou como um castelo de areia. Por um instante, vi nele não um predador, mas um homem simples, perdido em seu próprio jogo.
“Mas… então o senhor não vende?”
“Nunca”, eu disse, com a doçura de quem revela um truque de mágica. “E o senhor, meu caro corretor, acaba de gastar uma hora tentando comprar o que nunca esteve à venda.”
Ele se levantou, murmurou algo sobre “estudar o caso”, e caminhou para a porta. No batente, virou-se, os olhos turvos de derrota e curiosidade.
“Por que o senhor não disse isso desde o início?”
Senti o peso do silêncio do quintal, o cheiro da terra molhada, a sombra da figueira que já se estendia para dentro de minha casa. Olhei para as mãos calejadas, as mesmas que haviam plantado e colhido, que haviam herdado não apenas um terreno, mas um nome.
“Porque o senhor veio aqui para me ouvir, não para me entender. A diferença, meu amigo, é a mesma que existe entre o preço de um metro quadrado e o valor de uma história.”
Então, fiz o inesperado. Peguei um fósforo, risquei-o na sola da bota e, com um movimento lento, incendiei a ponta do maço de papéis. As chamas dançaram, devorando selos e assinaturas, transformando em cinzas a prova material do que eu havia dito.
O Corretor soltou um grito abafado. “O senhor enlouqueceu! Era a única prova!”
“A prova está na terra”, respondi, enquanto as cinzas pairavam no ar como pequenas mariposas negras. “Na memória das árvores e no nome das ruas. O senhor pode levar a cidade, o dinheiro, os arranha-céus. Mas a Tristeza, meu caro, pertence a quem a sente.”
Ele saiu sem olhar para trás. Fiquei ali, vendo a noite descer sobre meu quintal. A casa rangeu, a figueira suspirou, e o vento trouxe, de algum lugar distante, o eco de um riso antigo, o riso de Juca Tristeza, meu bisavô, que sabia que a única coisa que não se vende é o chão onde se aprendeu a cair.




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