CONTOS DAS RUAS DE PORTO ALEGRE - PALAVRAS AO LIXO.
- Carlos A. Buckmann
- 25 de jul.
- 3 min de leitura

PALAVRAS AO LIXO.
No coração de Porto Alegre, onde o Largo Glênio Peres se estende como uma pausa entre o fervilhar do Mercado Público e a geometria severa da Borges de Medeiros, um homem de barba hirsuta e olhar de fogueira sustentava uma Bíblia diante do peito como um escudo.
Sua voz, rouca e ritmada, tal qual um salmo degradado pela repetição, arranhava o ar vespertino. As pessoas, feixes de pressa e indiferença, desviavam-se dele como correntes de um rochedo, umas mergulhando no fluxo dos ônibus, outras enveredando pela calçada que conduz ao Centro Histórico, com seus frontões neoclássicos a testemunhar a vacuidade dos séculos.
O pregador, contudo, não via a multidão. Via almas. E, para ele, cada alma era uma página em branco a ser escrita com o fogo do Juízo Final. Seu discurso era uma ladainha de advertências e promessas, um tecido de citações justapostas que, na sua mente, formavam a tapeçaria irrefutável da Verdade.
Então, uma figura pequena e ágil rompeu o círculo de desinteresse. Uma menina de vestido claro, com os cabelos presos em duas tranças imperfeitas. Seus olhos, não obstante a tenra idade, possuíam a profundidade de quem já viu o fundo do poço. Era sua filha. E, naquela tarde, ela viera não para ouvir, mas para interromper.
“Pai, basta!”, disse ela, com uma voz que não era um pedido, mas uma sentença.
O pregador hesitou por um instante, mas logo retomou o fôlego, como um ator que esquece a fala do texto.
“A palavra não se cala, filha. É fogo que consome a palha.”
“A palavra é tua prisão, replicou ela, estendendo a mão para tocar o livro. E eu quero te libertar.”
Ele recuou o volume, protegendo-o como se a menina portasse um veneno. A cena, até então ignorada, começou a atrair olhares. Um burburinho de estranhamento cresceu entre os passantes, como a onda que antecede a tempestade.
A figura impávida do guarda municipal surgiu. Sua farda azul-cobalto parecia uma armadura contra o caos. Ele se postou entre o pregador e a menina, com as mãos postas à frente, num gesto que media autoridade e contenção.
“Aqui não é lugar para isso!”, disse o guarda, sem especificar a que "isso" se referia. Sua voz era uma linha reta, sem emoção.
“É lugar para a verdade!”, retrucou o pregador, com os olhos cintilando.
A menina, porém, não desviou o olhar do pai. Seus dedos, pequenos e insistentes, ainda pairaram no ar, como se quisessem arrancar não o livro, mas a própria convicção que o sustentava.
“Ele não prega o que crê, disse ela, para o guarda. Ele prega o que teme.”
O guarda franziu o cenho. O pregador empalideceu. Um silêncio tenso e metálico instalou-se no largo, quebrando apenas pelo ruído distante dos ônibus e o grasnar das gaivotas sobre o Guaíba.
Então que o inesperado aconteceu.
O pregador, num gesto que parecia desafiar sua própria teologia, fechou a Bíblia com um estampido seco. Seus olhos, que antes ardiam com o fogo do dogma, agora se humedeciam com a água turva da dúvida. Ele olhou para a filha, e pela primeira vez, pareceu vê-la não como uma alma a salvar, mas como uma pessoa.
“Tu tens razão, murmurou ele, com uma voz que já não pregava, mas confessava. Eu temo o silêncio. Temo que, sem essas palavras, eu seja apenas um eco.”
E, para espanto de todos, ele estendeu o livro para a menina. Mas ela não o tomou. Em vez disso, sorriu, um sorriso que era ao mesmo tempo um adeus e um recomeço.
O guarda, imóvel, assistiu à cena sem intervir. Seu dever, naquele instante, era não o de manter a ordem, mas o de testemunhar a desordem sublime que se instalava.
A menina, então, sem dizer uma palavra, virou-se e caminhou em direção à Borges de Medeiros. O pai, como um sonâmbulo que desperta, deixou a Bíblia cair no chão de paralelepípedos. O vento, que vinha do rio, abriu as páginas como asas de um pássaro morto.
Num gesto que nenhum dos presentes poderia explicar, o guarda municipal inclinou-se, recolheu o livro, e, com a dignidade de quem executa um rito, arremessou-o em direção certeira a uma grande lata de lixo.
O largo, por um instante, ficou em silêncio. Não um silêncio vazio, mas pleno de possibilidades. O pregador, agora sem o peso do livro, olhou para as mãos vazias e, pela primeira vez em anos, sentiu-se leve.
A menina, já longe, não olhou para trás. Sabia que o pai, agora, teria que aprender a pregar com a própria vida.
O guarda, de volta à sua rotina, ajustou o quepe e foi-se, deixando no ar a pergunta que nenhum livro poderia responder: o que resta de um homem quando suas palavras vão para o lixo?




Comentários