CONTOS DAS RUAS DE PORTO ALEGRE - O ÚLTIMO DIÁLOGO.
- Carlos A. Buckmann
- há 6 dias
- 3 min de leitura

O ÚLTIMO DIÁLOGO
O diretor de jornalismo inclinou-se sobre a mesa de madeira escura do Chalé da Praça XV.
"Você leu o que publiquei sobre a Ucrânia?" O repórter político tomou um gole do seu café, como uma pergunta não formulada.
"Li. E reli."
"Então?"
O diretor tocou a borda do copo de uísque.
"É sobre o outro, não é? Sempre sobre o outro. O outro está em todo lugar. Nas trincheiras. Nos campos de refugiados. Na mesa ao lado."
"E em lugar nenhum", completou o repórter.
O silêncio entre eles era um personagem. O terceiro na conversa.
"Lembro das tribos", disse o diretor, olhando para a janela. "Das sociedades ancestrais. O inimigo era reconhecível. Humano."
"Hoje o inimigo é um conceito", respondeu o repórter. "Uma abstração. Uma sigla. Um número."
"Freire dizia que ninguém é humano sozinho."
"E Sartre completaria que o inferno são os outros."
O diretor riu. Um riso sem alegria.
"Que paradoxo. A liberdade exige o outro. E o outro é o nosso limite."
O garçom aproximou-se. Pediram café. O repórter esvaziou seu chopp com gesto lento.
"A guerra na Ucrânia", começou, "não é sobre território. É sobre narrativa."
"E Israel? Palestina? Irã?”
"Mesmo jogo. Quem conta a história, vence. Quem desumaniza o adversário, justifica tudo."
O diretor passou a mão pelo rosto. A fadiga era visível.
"Trump entendeu isso. O blefe como método. O inimigo inventado."
"E a China na jogada. Os títulos. O ouro de Fort Knox."
"Economia como fantasia", murmurou o diretor.
"Tudo é fantasia", disse o repórter. "Até a humanidade."
O café chegou.
"Já percebeu", perguntou o repórter, "que falamos de tudo, menos de nós?"
O diretor ergueu os olhos.
"Talvez seja mais fácil. Os outros... são sempre os outros."
"Até que você seja o outro para alguém."
O repórter bebeu o café amargo. O diretor observou a praça. Gente, saindo do mercado com suas sacolas de compras. Pessoas apressadas saindo e entrando no terminal de ônibus. Ninguém presta atenção em ninguém.
"A desumanização começa assim. Um não olhar. Um não toque. Uma história contada para justificar a indiferença."
"O que nos resta, então?"
O diretor inclinou-se para frente. Seus olhos encontraram os do repórter.
"O reconhecimento. Que o outro é também nós. Que a guerra é nossa. O ódio é nosso."
"Mesmo quando não atiramos?"
"Principalmente quando não atiramos. O silêncio também é uma arma."
O repórter terminou seu café.
"E se for tarde demais?"
O diretor largou a xícara.
"Nunca é tarde. Mas sempre é urgente."
A tarde caía sobre Porto Alegre.
"Publicarei seu texto", disse o diretor. "Mas com uma condição."
"Qual?"
"Que você escreva sobre o que viu aqui. Sobre nós."
O repórter sorriu. Um sorriso cansado.
"Não há nós. Só há eu e você. E o abismo entre."
"Esse é o erro", disse o diretor. "O abismo é uma mentira. A distância é uma construção."
Levantou-se, para pagar a conta a conta.
"O que resta", disse, de pé, "é a escolha. A cada instante. Reconhecer ou negar. Amar ou destruir."
O repórter levantou-se também.
"E a verdade?"
"A verdade", disse o diretor, enquanto se afastava, "é que não há humanidade sem o outro. Não há sentido sem encontro. Não há futuro sem agora."
O repórter ficou só. A xícara vazia.
E o tempo, esse velho tirano, seguiu seu curso.




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