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CONTOS DAS RUAS DE PORTO ALEGRE - O PINTOR E O ESPELHO D'ÁGUA

  • Carlos A. Buckmann
  • 26 de jul.
  • 4 min de leitura

O PINTOR E O ESPELHO D’ÁGUA

            Entardecer de outono no Bairro Bom Fim, quando o sol, já cansado, derrama uma luz oblíqua e dourada sobre o Parque da Redenção.

            As folhas das árvores centenárias sussurravam segredos em uma língua que apenas o vento compreendia.

            Junto ao espelho d’água, cuja superfície refletia o céu como uma alma duplicada, um jovem de calças rotas e camiseta negra, onde se estampava o símbolo da banda Kiss, parecia uma estátua pensante. Sua cartolina, apoiada sobre os joelhos, era o altar de um ofício antigo: a pintura de retratos.

            Ele não olhava para as pessoas; aguardava que elas, movidas por uma curiosidade ou vaidade inconfessável, se sentassem diante dele. Não pedia muito. Uma pequena quantia, e ele prometia capturar não a semelhança exterior, mas a verdade interior, aquela que os olhos comuns não veem. E assim, passavam por ele senhoras de chapéu, homens de pastas, crianças com sorrisos de dente de leite. Todos, ao receberem o papel, guardavam-no com um misto de espanto e temor, como se vissem um estranho familiar no espelho.

            A menina surgiu. Trazia nos cabelos um laço vermelho, desbotado pelo tempo, e nos olhos, uma hesitação profunda, como a de quem se detém à beira de um abismo. Parou a alguns passos, observando o pintor com uma intensidade que transpunha a mera curiosidade. Ele, por fim, levantou os olhos, de um cinza que parecia conter todas as tempestades do mundo, que  encontraram os dela.

            “Sentai-vos”, disse ele, com uma voz que era quase um sussurro de pedra.

            A menina engoliu em seco, estranhando o jeito de falar do jovem artista. Seu corpo diminuto tremia, mas, como se obedecesse a um chamado mais forte que sua vontade, avançou e sentou-se na grama, defronte ao artista.

            “Não sei se devo, murmurou ela, com as mãos postas sobre o colo. O senhor pinta o que os olhos não veem. E tenho medo do que possam ver os meus.”

            “O temor é o princípio da sabedoria, pequena. Mas a verdade, uma vez revelada, não fere; liberta. Que vos traz aqui, se tanto hesitais?”

            Ela baixou os olhos, fitando as próprias sandálias.

            “Perdi alguém. Esta tarde, ao sol, vi seu rosto refletido na água. Mas, ao inclinar-me para tocá-lo, a imagem desfez-se em ondas. Busco-o em todo lugar. Nos cantos da casa, nos sonhos, nas nuvens... Mas ele sempre foge. O senhor pode pintá-lo? Pode trazê-lo de volta?”

            O jovem inclinou a cabeça, e um sorriso enigmático, quase imperceptível, pairou em seus lábios.

            “Não pinto o que se foi, pinto o que é. Mas, se o teu desejo é sincero, a pintura trará o eco do que procuras. Permanece imóvel.”

            Ele começou a desenhar. Seus dedos, rápidos e seguros, não se detinham nos olhos dela, mas no espaço vazio ao redor de sua cabeça, como se ele visse um contorno invisível. A menina, imóvel, sentia o peso daquela atenção absoluta. O silêncio entre eles era preenchido pelo rumor da água e pelo canto distante de um passarinho.

            “Dizei-me, falou o pintor, sem desviar o olhar da cartolina, o que é mais real: a imagem que vedes no espelho d’água ou a saudade que trazeis no peito? Porque o que se perde nos olhos, ganha-se na alma.”

            A menina refletiu. Sua voz saiu baixa, mas firme.

            “A saudade é mais real. A água apenas me mostrou um engano. Mas a saudade... ela dói. E a dor é verdadeira.”

            O artista parou por um instante. Olhou-a com uma nova luz, como se reconhecesse nela uma discípula rara.

            “Pois então a vossa pintura será a dor. E nela, aquele que buscais reaparecerá, não como era, mas como sempre foi para vós: uma sombra que se faz luz.”

            Com um último traço, ele ergueu a cartolina e a entregou à menina. Ela, com as mãos trêmulas, recebeu o papel. Ao olhar, seu coração parou. Não era um rosto humano. Era um redemoinho de cores escuras e douradas, um turbilhão que parecia movimentar-se, e no centro, uma forma tênue, um perfil de homem. E então, a pintura começou a brilhar. Uma luz suave, quente, emanou do papel, e a menina sentiu, por um instante, a mão de seu pai morto tocar-lhe o ombro.

            Lágrimas correram-lhe pelo rosto. Ela ergueu os olhos para agradecer, mas o pintor já não estava ali. Apenas sua cartolina, vazia, e o pincel esquecido no chão. E, na superfície do espelho d’água, viu novamente o rosto do pai, mas, desta vez, ele sorria.

            . Levantou-se, ainda com a pintura luminosa nas mãos, e caminhou em direção à água. Com um movimento calmo, como quem oferece uma prece, ela colocou o retrato sobre a superfície do lago. A pintura flutuou, e a luz que emanava dela espalhou-se por toda a água, transformando o espelho d’água em um céu estrelado. As imagens dos rostos de todos os que haviam sido pintados pelo jovem surgiram por um instante, como constelações fugazes, e depois se fundiram em uma única claridade.

            Então, a menina riu. Um riso puro, infantil, que ecoou pelas arcadas do parque. E, no fundo do lago, agora transparente como vidro, viu-se a si mesma, não como era, mas como seria: uma mulher de cabelos brancos, sentada à beira d'água, pintando retratos para os que buscam suas sombras. O pintor misterioso havia encontrado sua sucessora, não pela habilidade da mão, mas pela coragem de enfrentar o que a água revela.

            Os funcionários do parque, ao amanhecer, encontrariam apenas uma cartolina molhada e um pincel preso entre as pedras. Mas a menina, ninguém a viu sair. Dizem que, desde então, nas tardes de outono, quem se senta perto do espelho d’água e olha fixamente sua própria imagem, vê, por um segundo, o rosto de um artista de olhos cinzentos que lhe sussurra:

            “Que pintura desejais: a vossa face ou a vossa alma?”

 
 
 

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