CONTOS DAS RUAS DE PORTO ALEGRE - O PERTENCENTE
- Carlos A. Buckmann
- há 4 dias
- 6 min de leitura

O PERTENCENTE
Há um lugar em Porto Alegre onde o asfalto se desfaz em paralelepípedos gastos, e os paralelepípedos se desfazem em memória.
Chama-se Maria Degolada, nome que a geografia oficial insiste em chamar de Vila Santo Antônio, mas que a boca do povo consagrou com a violência poética de uma degola que ninguém lembra mais quem sofreu. Talvez tenha sido uma mulher, talvez uma santa, talvez o próprio bairro, decepado do mapa afetivo da cidade.
Ali, na rua principal, aquela que ainda guarda um resto de dignidade comercial, há um mercado pequeno, desses que cheiram a sabão em pó e cebola madura.
O dono se chama Ezequiel, e tem as mãos grossas de quem pesa feijão há quarenta anos. Ele não é um homem de muitas palavras, mas suas pausas entre uma tarefa e outra são mais eloquentes que qualquer discurso.
Quando não está atendendo, Ezequiel olha para a rua como quem espera um sinal, não divino, mas humano: o movimento que justifique a permanência.
Na calçada, debaixo do toldo que não protege mais do sol nem da chuva, está o representante comercial. Não tem nome na história que lhe seja próprio, porque os vendedores autônomos são como os anjos caídos: existem para servir, mas ninguém os convida para jantar. Carrega uma pasta preta, gasta nos cantos, onde repousam catálogos de produtos que ninguém pediu, mas que todo mercado precisa.
Ele espera. Espera desde as oito da manhã, e já são quase doze.
Ezequiel o viu, claro, mas há sempre um cliente na frente, um saco de arroz para carregar, uma nota fiscal para conferir. O representante não se move. Aprendeu, nos anos de estrada, que a espera é uma forma de oração leiga.
O mercado respira. Entra uma senhora com uma lista escrita à mão em papel de pão. Sai um menino com um litro de leite e um pacote de bolachas. Entra um homem de boné que pede cigarros com a voz rouca. Sai uma moça que paga com moedas contadas uma a uma, como se cada centavo fosse uma despedida.
E o representante observa tudo. Não com os olhos de quem vende, mas com os olhos de quem, há muito, desistiu de ser visto.
Ele nasceu nu de carne, como todos. Mas também nu de sentido. Quando seus pulmões, pela primeira vez, ousaram beber o ar do mundo, não foi só oxigênio que buscavam, era pertencimento. A mãe, porém, tinha o colo distraído, e o pai era uma ausência que se tornou permanente. O berço foi um lugar de espera, não de acolhimento. Aprendeu cedo que o calor não é um direito, mas uma gentileza que o mundo às vezes concede, às vezes não.
Assim foi crescendo: um homem feito de lacunas, que ocupava espaços sem nunca preenchê-los.
Ezequiel, do balcão, finalmente olha para ele. Não é um olhar de reconhecimento, mas de cálculo: quanto tempo aquele homem vai ocupar a sombra da minha porta sem comprar nada? O representante se levanta. Sabe que o momento chegou. Caminha em direção ao balcão com a pasta aberta, como um sacerdote que oferece a hóstia. Mas antes que fale, um cliente entra, um senhor alto, de barba branca, que Ezequiel cumprimenta pelo nome. A prioridade se restabelece.
O representante recua meio passo. Não é humilhação, é geometria: seu lugar no mundo é sempre um pouco atrás.
O senhor de barba branca compra vinho barato e pão. Enquanto Ezequiel embrulha, eles conversam sobre o tempo, sobre a enchente do ano passado, sobre um fulano que morreu. O representante ouve. Ouve a respiração de Ezequiel, o chiado da impressora que cospe notas fiscais, o zumbido do refrigerador. E, de repente, tem uma epifania: ele não está ali para vender. Está ali para testemunhar.
Todos os dias, ele entra em mercados, padarias, bodegas. Mostra catálogos, anota pedidos, aperta mãos. Mas nunca é visto. É como se sua presença fosse um ruído de fundo, um detalhe técnico na paisagem do comércio.
No entanto, ele sabe os nomes dos filhos de Ezequiel (sabe que um morreu), sabe que a senhora da lista chora à noite por causa do marido que bebe, sabe que o menino do leite tem medo do escuro. Ele sabe porque escuta. Porque sua nudez original, aquela falta de pertencimento, o tornou um receptáculo vazio, pronto para encher-se com as dores alheias.
Ezequiel termina o atendimento. Olha para o representante. Há um cansaço em seus olhos que não vem do trabalho, vem da vida.
“O senhor tem catálogo novo?” pergunta, já com a mão estendida para pegar a pasta.
O representante entrega. Ezequiel folheia, distraído. Aponta um ou dois produtos, faz uma objeção sobre preço, concorda com outro. O pedido é pequeno, sempre é. O representante anota no bloquinho, agradece, guarda a pasta. O ritual está completo. Mais uma porta que se abre e se fecha.
Mas então, algo acontece.
O representante está indo para a porta, rumo à saída, quando sente uma mão no ombro. Não é o toque seco de um cliente apressado, nem o gesto mecânico de quem vai pedir passagem. É uma mão que pousa. Que fica. O representante se vira.
Ezequiel está ali, com o rosto mais próximo do que a distância comercial permite. Seus olhos, pela primeira vez, não calculam, não pesam, não medem. Eles apenas veem.
O senhor já almoçou?”, pergunta Ezequiel.
O representante abre a boca, mas não sai som. Ele nunca almoça. Não porque não tenha dinheiro, mas porque não há mesa que o espere. Almoçar sozinho é um lembrete da nudez original. Ele sempre diz que já comeu, mesmo quando não comeu.
Ezequiel não espera a resposta.
“Tem arroz com feijão ali no fundo. E uma carne de panela que minha mulher fez. Senta.”
Não é um convite. É uma sentença. O representante senta. Não na cadeira do balcão, mas na cadeira dos fundos, onde Ezequiel almoça entre um cliente e outro. Há um prato, um copo, um guardanapo. Há uma colher. Há o cheiro de louro e cebola.
O representante come. Não devagar, não rápido. Come como quem aprende um gesto esquecido. Cada garfada é uma pergunta: “isso é real?”
E cada resposta é o sabor. Ezequiel não come com ele; fica no balcão, atendendo, mas de olho na porta dos fundos. Há ali uma vigilância que não é desconfiança, é custódia.
Quando o prato está vazio, o representante não sabe o que fazer. Não sabe se lava a louça, se agradece, se vai embora. Nunca ninguém o alimentou por nada. Sempre houve um preço, uma troca, uma dívida. Mas Ezequiel não pede nada. Apenas diz, de longe:
“Volta na semana que vem”
O representante sai. A rua na Maria Degolada parece diferente agora, não mais um lugar de espera, mas um lugar de chegada. O asfalto gasto, os paralelepípedos soltos, o toldo que não protege: tudo isso é, de repente, sagrado.
Ele anda sem rumo, mas não sem sentido. Pela primeira vez, seus pulmões não buscam pertencimento, eles têm pertencimento. O colo que não julgou, o olhar que não questionou, o calor que não cobrou: tudo isso estava ali, na mão de um dono de mercado que pesa feijão há quarenta anos.
Na semana seguinte, o representante volta. Mas Ezequiel não está. Quem o atende é a mulher de Ezequiel, uma senhora de cabelos brancos e avental florido. Ela diz que Ezequiel morreu na semana passada. Dormiu e não acordou. O representante sente o chão sumir. Mas antes que a vertigem o tome, a mulher lhe entrega um envelope.
“Ele pediu para lhe dar isso. Disse que o senhor ia voltar.”
O representante abre. Dentro, não há dinheiro, nem catálogo, nem pedido. Há uma fotografia antiga, amarelada, de um menino de colo, com a legenda escrita à mão: "Ezequiel, 1952, o dia em que minha mãe me segurou pela primeira vez."
E no verso, mais uma frase:
"Um homem que sabe esperar sabe também pertencer.”
O mercado continua. Os clientes entram e saem. A mulher de Ezequiel pesa feijão com as mãos grossas. E o representante, agora, não está mais atrás de ninguém. Está ao lado. Ele não vende mais para aquele mercado; ele pertence a ele. Assim como o menino Ezequiel pertenceu, ao colo que a fotografia imortalizou.
Porque o pertencimento, descobriu ele, não é um lugar, é um gesto. E todo gesto de acolhimento é uma imortalidade.




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