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CONTOS DAS RUAS DE PORTO ALEGRE - O LOUCO DO LARGO DOS AÇORIANOS

  • Carlos A. Buckmann
  • 7 de ago.
  • 3 min de leitura

O LOUCO DO LARGO DOS AÇORIANOS

            O Largo dos Açorianos, na Av. Borges de Medeiros, era um ponto de encontro. O comércio pulsava, os prédios residenciais vigiavam o movimento. Na avenida, um homem, a quem chamavam de Louco, era parte da paisagem.

            Ninguém sabia sua origem. Sua presença era uma constante, como os paralelepípedos ou os postes de luz.

            Ele não mendigava. Cantava. Canções sem melodia definida, com letras que confundiam o sentido. Cumprimentava a todos com um aceno e um sorriso, um resquício de educação que contrastava com sua aparência desalinhada.

            A jovem moradora de um dos prédios, vamos chama-la de Clara, via nele uma exceção. Enquanto outros desviavam o olhar, ela lhe estendia um pão ou algumas moedas. Para ela, o Louco era um marco. Sua existência dava ao Largo uma cor peculiar. Ela não o temia, mas o via como um elemento, uma constante em meio ao fluxo diário de pessoas que iam e vinham.

            Um dia, o serviço social da prefeitura apareceu. Uma viatura estacionou. Dois agentes, com pastas e expressões neutras, abordaram o Louco. A conversa foi curta. Ele não resistiu. Subiu no veículo sem olhar para trás, como se aquela fosse apenas mais uma de suas andanças.

            Clara viu da janela de seu apartamento. O Largo, de repente, pareceu mais vazio. O silêncio era agora ocupado apenas pelo ruído dos carros e pelas conversas triviais dos passantes.

            Os moradores e comerciantes notaram a ausência. Não como uma falta, mas como um vazio funcional. A rotina havia perdido um de seus componentes. Alguns especulavam sobre seu destino: um abrigo, um hospital, talvez a volta para uma família que nunca fora mencionada. Os diálogos eram breves.

            “Levou ele?” — perguntou o dono da banca de revistas a um cliente.

            “Pois é. A prefeitura resolveu agir”, respondeu o outro, sem convicção.

            As lendas do Largo, que falavam de antigos mercados e de figuras históricas, pareciam agora mais distantes. A história do Louco se juntava a elas, mas como um capítulo em branco.

            Clara, em particular, sentia uma estranheza. O gesto de dar, a pequena rotina de caridade, havia sido interrompido. Era como se um dever tácito tivesse sido anulado.

            Na manhã seguinte, Clara desceu para o Largo. O ar estava frio. Ao passar pelo local onde o Louco costumava ficar, notou um objeto: um caderno velho, com capa de papelão, abandonado sobre um banco. Ela o pegou.

            As páginas estavam amareladas, cheias de uma caligrafia firme e organizada. Não eram devaneios. Eram relatos, datas, eventos. Descrevia a chegada de uma família de açorianos, a construção dos primeiros prédios, o comércio inicial. Havia anotações precisas sobre a história local, fatos que nem os mais velhos recordavam com exatidão.

            Não era um demente. Ele era um arquivista. Seu canto e sua loucura eram uma farsa, um disfarce para observar e registrar. Ele não pedia esmola, ele coletava dados.

            No final do caderno, uma anotação recente, com a data do dia de sua remoção:

            “A memória do Largo agora está com Clara.”

            Um vento forte varreu a Avenida. Clara olhou para o caderno em suas mãos.

            Aquele que todos julgavam um nó na paisagem era, na verdade, o fio que a mantinha tecida.

            O Largo dos Açorianos não era um lugar para uma lenda; era um lugar que precisava de um cronista, e ele havia cumprido seu papel.

 

 
 
 

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