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CONTOS DAS RUAS DE PORTO ALEGRE - O LIXO

  • Carlos A. Buckmann
  • 13 de ago.
  • 1 min de leitura

O LIXO

            Naquela manhã, numa rua tranquila de Porto Alegre, Antônio revirava os sacos de lixo diante de uma casa elegante.

            “Tire isso daqui! gritou o proprietário. Você está sujando minha calçada!”

            Antônio ergueu os olhos.

            “Não estou sujando, senhor. Estou procurando o que ainda pode servir.”

            “Eu pago impostos para que esse lixo seja recolhido. Não preciso de gente remexendo na minha porta.”

            Antônio olhou para a fachada impecável, para o carro importado na garagem e depois para as próprias mãos.

            “O senhor tem razão. O lixo é seu. Mas a necessidade é minha.”

            “Necessidade? ironizou o homem. Eu também tenho necessidades. Só que posso comprar.”

            Antônio sorriu.

            “Então somos diferentes.”

            “Muito.”

            Antônio amarrou o saco de recicláveis e respondeu:

            “O senhor compra coisas para esquecer que precisa de pouco.”

            E foi embora.

            O homem ficou parado diante da casa.

            Pela primeira vez, percebeu que talvez o lixo não estivesse na calçada.

            Estava dentro dele.

 

 
 
 

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