CONTOS DAS RUAS DE PORTO ALEGRE - O INVISÍVEL
- Carlos A. Buckmann
- 14 de ago.
- 3 min de leitura

O INVISÍVEL (*)
Esse não é um conto ficcional. Tudo o que você vai ler a seguir vivi em realidade.
Dez horas da manhã no Casarão do Cirandar quando a campainha da porta rompeu o silêncio da nossa conversa. Letícia, minha Mestra e amiga, ergueu-se com a leveza de quem sabe que cada visita é um texto a ser decifrado. Eu a observava, pensando nos encontros como fenômenos: nunca casuais, sempre necessários.
Ouvi o arrastar de uma cadeira de rodas pelo corredor. Depois, uma voz grave anunciou-se. Letícia o conduziu até a sala da biblioteca onde eu estava, e diante de mim surgiu David. Ou Deivid, como ele prefere ser chamado, com a ênfase de quem reivindica a própria grafia como um ato de existência.
Ele viera devolver um livro. E levar outro. O simples ato de um leitor.
Começamos a conversar e, em poucos minutos, o chão sob meus pés tornou-se instável. Deivid, o cadeirante, era também um homem sem teto. Sua história, ele esboçou com parcimônia, mas eu a senti em cada pausa, em cada desvio de olhar. Doeu em mim. Contudo, algo mais forte que a piedade me conteve: o respeito à sua individualidade. Não me pertencia a sua dor narrada. Pertencia-lhe, apenas, o direito de silenciá-la.
Então, para espanto meu e delícia da alma, Deivid citou Dostoiévski. E Proust. E Sartre. E, quando me disse que havia lido “A Náusea”, senti meus olhos brilharem, reconhecendo os de um velho camarada de trincheiras. Ele conhecia Sartre, sim, e Lacan e a maioria dos grandes filósofos e escritores. Ali, naquela sala da biblioteca do Casarão, um homem a quem o mundo negava um endereço dialogava comigo sobre o abismo da liberdade e o espelho do desejo.
Então ele disse a frase que me atravessou como uma lança. Fitou-me e confessou, com a serenidade de quem já se habituou à dor: "Para quem passa por mim na calçada, senhor, eu sou INVISÍVEL."
A palavra me esbofeteou. Invisível. Não aquele que não se vê, mas aquele que se escolhe não ver. O outro que o olhar apressado apaga, transformando-o em paisagem, em obstáculo, em nada.
Senti o peso daquilo. E confessei-lhe, com a humildade possível, que há anos adotei um pequeno ritual: cumprimento todos, os visíveis e os invisíveis que cruzam meu caminho. Um aceno, um "bom dia". Não por caridade, mas por filosofia. Pois reconhecer o outro é o ato primeiro da consciência. Sem ele, somos nós mesmos que nos tornamos fantasmas.
O silêncio que se seguiu não era vazio. Era um espaço sagrado. Olhei para Letícia, vi em seus olhos a mesma pergunta que ecoava em mim:
E agora?
E agora, convidei Deivid a ficar. Não por um café ou um prato de comida, isso seria reduzir sua grandeza a uma esmola. Convidei-o a ocupar o dia inteiro no Casarão. A sentar-se conosco, na roda de leitura da tarde, como um par, como um igual. Ele hesitou, por um instante. Depois, um sorriso raro rasgou seu rosto.
Era o sim de quem, por algumas horas, deixaria de ser transparente.
Quando a tarde chegou e as vozes da roda de leitura preencheram o salão, eu o via ali, entre nós. Deivid lia em voz alta um trecho de Neruda, e sua voz era um fio de luz num quarto escuro. Letícia ouvia com os olhos fechados, e eu compreendi que aquele momento não era sobre literatura. Era sobre testemunho.
Ao final do dia, quando a noite reivindicou seu lugar, despedimo-nos. Ele partiu com seu livro novo sob o braço, rolando pela calçada em direção ao frio da rua.
Mas algo havia mudado.
Saímos maiores, nós três. Letícia, porque viu nossa casa cumprir sua vocação primeira: ser abrigo de almas, não apenas de corpos. Deivid, porque por um dia foi visto, não como um caso, mas como uma consciência que pensa e sente. E eu, porque aprendi que a invisibilidade é uma escolha, e que desfazê-la exige menos de heróis e mais de homens que se permitam parar, olhar e reconhecer:
“Tu também existes.”
Naquela noite, ao deitar-me, ainda ouvia sua voz. E entendi que, por um instante, o invisível se fez carne. E habitou entre nós.
(*) Dedicado com todo carinho, ao meu novo amigo, o Rei David.




Comentários