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CONTOS DAS RUAS DE PORTO ALEGRE - O DONO DE RAFA

  • Carlos A. Buckmann
  • 23 de jul.
  • 4 min de leitura

O DONO DE RAFA

            Meu nome é Pretinho. E, ao contrário do que muitos pensam, não sou um cachorro de rua. Sou dono de um humano. Uma responsabilidade enorme, confesso, mas alguém precisa cuidar desses bichos desajeitados que insistem em andar sobre duas patas e esquecer como se aquecem.

            Foi numa noite de julho que encontrei meu Rafa. O vento sul cortava as ruas de Porto Alegre como uma faca de açougueiro, e eu, que já conhecia todos os cantos quentes da cidade, estava fazendo minha ronda noturna quando o vi. Ele estava encolhido entre dois postes, na calçada da Rua da República, coberto por papelões úmidos que mais pareciam guardanapos de tão finos. Tremia. Não daquele tremor de quem sente frio, mas daquele que vem de dentro, que sacode os ossos e faz os dentes baterem como castanholas.

            Rafa tinha barba por fazer, olheiras profundas e uma garrafa vazia de cachaça apertada contra o peito, como se fosse um urso de pelúcia. Ali, naquele monte de trapos e jornais velhos, ele parecia menor do que era. Mais frágil. Mais humano.

            Foi quando decidi. Eu o adotaria.

            Deitei-me ao lado dele, enroscando meu corpo preto e curto contra o seu, a ponta amarelada das minhas orelhas roçando seu queixo. Ele murmurou algo no sono, um nome talvez, e instintivamente seus braços se fecharam ao meu redor. Seu cheiro era de suor, cachaça e solidão. Mas embaixo de tudo isso, havia algo mais. Algo que eu reconhecia. O cheiro de quem já foi amado e esqueceu como se amar.

            Passamos a noite assim. Eu, aquecendo seu peito. Ele, me aquecendo com seu abraço desajeitado. Quando a manhã chegou, cinzenta e fria, Rafa abriu os olhos e me viu. Seus olhos eram castanhos, com um brilho meio bêbado, meio cansado. Ele sorriu, e acho que foi a primeira vez que alguém sorriu para mim desde que minha antiga humana partiu para nunca mais voltar.

            “Você é meu agora?”, ele perguntou, com a voz rouca.         

            Eu lambi seu nariz. Isso significava sim.

            Os dias seguintes foram de adaptação. Rafa era um humano difícil. Teimoso. Passava horas sentado em frente ao Mercado Público, estendendo a mão para as pessoas que passavam, e quando não recebia nada, encolhia-se como um caramujo. Eu, como seu guardião, não podia permitir que ele definhasse.

            Foi assim que encontrei Dona Eva.

            Ela morava num sobrado amarelo na Rua da Praia, e todas as manhãs descia com um avental florido para varrer a calçada. Tinha cabelos brancos presos num coque e um jeito de falar com os cachorros como se fossem gente. No terceiro dia de minha observação, aproximei-me com meu melhor andar de cachorro humilde: rabo entre as pernas, orelhas caídas, olhar de "sou só um pobre vira-latas que não come há semanas".

            “Oh, coitadinho! - ela exclamou, deixando a vassoura cair.  Você está tão magro!”

            Eu não estava magro. Eu estava perfeitamente alimentado com restos de padaria. Mas Dona Eva não precisava saber disso. O que ela precisava era sentir-se necessária. Todos os humanos precisam. Pelo menos aqueles que tem um halo de bondade sobre a cabeça.

            No dia seguinte, quando retornei, ela estava com um pires de leite e alguns pedaços de bolo. Eu lambi o leite, mastiguei o bolo, e então, com todo o cuidado dramático que minha raça viralatiana permite, peguei um pedaço do bolo na boca e saí correndo.

            Dona Eva ficou olhando, confusa.

            No dia seguinte, mesma cena. Leite, bolo, e eu correndo com um pedaço. No terceiro dia, ela finalmente me seguiu. E encontrou Rafa.

            Vi a cena de trás de um carro estacionado. Rafa estava sentado no chão, lambendo os dedos sujos do recheio do bolo e Dona Eva parou a alguns passos. Por um momento, ela apenas observou. Depois, sem dizer uma palavra, colocou um último pedaço de bolo na frente dele e voltou para casa.

            No dia seguinte, trouxe leite e pão. E no outro, uma sopa numa marmita.

            Rafa começou a sorrir mais. Não daquele sorriso bêbado e cansado, mas de um sorriso novo, meio desconfiado, como quem não acredita que algo bom está acontecendo. Todas as manhãs, Dona Eva aparecia. Algumas vezes com comida. Outras com cobertores velhos. Uma vez, com um par de meias e um de tênis quase novos.

            “Isso é para você não passar mais frio, ela disse, entregando as meias e os tênis a Rafa. E também para você não depender tanto desse cachorro. Ele não pode fazer tudo sozinho.”

            Rafa olhou para mim. Eu estava deitado ao seu lado, a ponta amarelada das orelhas balançando com o vento.

            “Ele se acha meu dono, falou Rafa, sério.  Não o contrário.”

            Dona Eva riu. Eu balancei o rabo. Gostava dela.

            O inverno passou, e as coisas melhoraram. Rafa fazia “bicos” como carregador no Mercado Público, não um emprego de verdade, mas algo que lhe rendia alguns trocados e um almoço quente. Eu o acompanhava todos os dias, sentando ao lado das caixas de frutas, vigiando para que ninguém roubasse seu almoço.

            Dona Eva vinha nos visitar. Trazia bolachas para mim e conversas para Rafa. Ele contava histórias, que era seu jeito de agradecer. Histórias de sua vida antes das ruas, de uma esposa que partiu, de um filho que não via há anos. Histórias que ele guardava como moedas de ouro e só gastava com quem merecia.

            “Você precisa parar de beber, Rafa.” -  Dona Eva arriscou dizer  um dia, enquanto eu mastigava um osso que ela trouxera.  Não por você. Por ele.”

            Ela apontou para mim.

            Rafa me olhou. Eu devolvi o olhar com meus olhos mais sérios de cachorro responsável.

            “Tá certo, Rafa murmurou. O Pretinho não merece um parceiro bêbado.”

            Eu não merecia mesmo. Mas não disse nada. Deixei que ele chegasse a essa conclusão sozinho.

            Naquela noite, Rafa não bebeu. Nem nunca mais. Acordei com o pessoal do SAMU, recolhendo seu corpo em uma maca.

            “Parada cardíaca”, falou a socorrista loira para um repórter que buscava uma história.

            Sem que ninguém me notasse, saí de fininho. Como são estranhos os humanos, pensei.

            Ouvi a voz de Dona Eva me chamar. Fiz que não ouvi. Ela não precisa de mim.

            Vou procurar outro humano para adotar, nas ruas desse Porto que já não é tão Alegre.

 

 
 
 

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