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CONTOS DAS RUAS DE PORTO ALEGRE - O ANTIQUÁRIO DA REDENÇÃO

  • Carlos A. Buckmann
  • 3 de ago.
  • 4 min de leitura

O ANTIQUÁRIO DA REDENÇÃO

            O sol de domingo já ia alto quando atravessou a copa das árvores da Redenção e derramou lâminas de luz sobre as bancas do Bric. A poeira suspensa dourava o ar, enquanto, no canteiro central da José Bonifácio, vozes, moedas e o tilintar de porcelanas compunham a música improvisada da feira. Ali reinava o efêmero: objetos expulsos do próprio tempo aguardavam apenas um novo olhar para recomeçar a existir.

            A banca do velho parecia caótica apenas à primeira vista. Jogos de chá de porcelana chinesa dividiam espaço com talheres de prata escurecida pelo uso. LPs antigos formavam pilhas vacilantes; livros de capa dura exalavam o perfume acre do papel envelhecido. Retratos emoldurados em louça esmaltada, habitados por rostos severos e olhos imóveis, observavam a movimentação com a serenidade de quem sobrevivera ao próprio século.

            Foi diante dessa banca que uma mulher de meia-idade parou. Tinha o olhar de quem não procurava objetos, mas respostas. Seus dedos percorreram lombadas de livros, repousaram sobre um bule de prata e deslizaram pela superfície fria de um cinzeiro art déco.

            “O senhor tem sempre as mesmas coisas ou aparece alguma novidade?”

            O velho ergueu os olhos claros. A pele enrugada lembrava o couro gasto de uma antiga encadernação. Cada gesto parecia medido pelo tempo.

            “Novidade é uma palavra frágil, minha senhora. Tudo o que vê aqui já foi novo um dia. Agora são testemunhas. Talvez a senhora esteja procurando justamente a testemunha da sua própria história.”

            Ela sorriu.

            “Talvez eu esteja procurando aquilo que ainda nem sei que perdi.”

            O velho inclinou discretamente a cabeça.

            Com mãos trêmulas, mas precisas, afastou uma caixa entalhada e revelou um pequeno porta-retratos de louça esmaltada. A moldura branca, marcada pelo tempo, era ornamentada por flores de lis em relevo. Sob o vidro levemente embaçado, uma fotografia em sépia mostrava uma jovem de vestido escuro sentada num jardim desaparecido havia muito.

            Um arrepio percorreu a mulher.

            Havia naquela imagem uma intimidade impossível, como um sonho antigo do qual restasse apenas a sensação.

            “Quem é ela?”

            “Não sei. Encontrei o retrato numa casa antiga da Azenha. A família liquidava tudo. Havia cheiro de naftalina... e de segredos. A fotografia estava escondida atrás de um guarda-roupa.”

            “Mas o senhor a encontrou.”

            O velho sorriu.

            “As coisas só permanecem escondidas enquanto ninguém as procura.”

            Ela tomou o porta-retratos nas mãos.

            Era surpreendentemente pesado.

            No verso havia uma etiqueta amarelada, escrita com uma caligrafia elegante.

            Porto Alegre, 2 de agosto de 1926.

            Helena.

            A brisa tornou-se fria.

            Por um instante, em meio ao burburinho da feira, ela julgou ouvir um soluço distante.

            “O senhor acredita que os objetos guardam a alma dos donos?”

            “Não. Guardam o silêncio que ficou depois deles. A alma desaparece. O silêncio permanece.”

            Ela tornou a olhar para o retrato.

            Então o tempo cedeu.

            O jardim surgiu inteiro diante de seus olhos. Sentiu o peso do vestido, ouviu uma voz chamando "minha filha", respirou um perfume que jamais conhecera. A espera tornou-se física. A angústia também. Era uma manhã cinzenta, e Helena aguardava alguém que nunca chegaria.

            A dor entrou nela sem pedir licença.

            Não era sua.

            Ainda assim, encontrou abrigo.

            Ela ergueu lentamente os olhos.

            “Isso... isso é impossível.”

            O velho permaneceu sereno.

            “Como se tivesse encontrado aquilo que perdeu?”

            Ela apenas respirava.

            “É por isso que certos objetos nos escolhem. Existem histórias que recusam permanecer inacabadas.”

            A vertigem quase lhe arrancou o quadro das mãos.

            Então compreendeu.

            Conhecia aquele rosto.

            Não porque o nome estivesse escrito na etiqueta.

            Conhecia-o de sonhos recorrentes, de lembranças sem origem, de uma saudade impossível.

            Helena.

            Sua bisavó.

            A mulher que, segundo a história da família, morrera solteira e sem filhos.

            Mas o que agora inundava seu peito era outra verdade.

            Havia existido uma maternidade.

            Um bebê entregue.

            Uma vida apagada para proteger um nome.

            “Esta é minha família...”

            Sua voz saiu num sussurro.

            “Minha avó nunca conheceu essa mulher. Disseram que ela morreu sem filhos... mas não morreu.”

            O velho passou os dedos pela madeira da banca.

            “Toda casa antiga é um palimpsesto. Uma história escrita sobre outra. Os segredos sustentam paredes muito mais do que os tijolos.”

            Ela já não o escutava.

            Precisava de uma confirmação.

            Ou de alguém que dissesse que estava enlouquecendo.

            Mas encontrou apenas o sorriso cansado do antiquário.

            “Quanto custa?”

            Ele respondeu sem hesitar.

            “Para a senhora... nada.”

            Fez uma pequena pausa.

            “Ela já a encontrou.”

            A mulher apertou o porta-retratos contra o peito.

            Sabia, com uma certeza inexplicável, que aquele objeto a conduziria de volta à velha casa da Azenha, a um armário esquecido, a um diário escondido e a uma verdade capaz de alterar toda a história de sua família.

            Virou-se para agradecer.

            A banca havia desaparecido.

            Não apenas o velho.

            Também os jogos de chá, os livros, os discos, os talheres.

            Nada.

            Somente um espaço vazio, como se jamais tivesse existido.

            Olhou ao redor.

            Ninguém parecia notar.

            A feira seguia viva, indiferente.

            Um menino carregando balões passou correndo e esbarrou nela.

            No chão, exatamente onde estivera a banca, repousava apenas uma pequena flor de lis de louça esmaltada, quebrada.

            Ao virá-la, encontrou novamente a inscrição.

            2 de agosto de 1926.

            Então compreendeu.

            O antiquário jamais vendera antiguidades.

            Recolhia memórias abandonadas.

            Guardava silêncios que o tempo insistia em sepultar.

            E toda pessoa que levava um daqueles objetos também carregava consigo uma história que se recusava a morrer.

            A fotografia continuava vazia.

            Helena já não habitava o retrato.

            Habitava sua memória.

            Ou talvez seu destino.

            Desde então, a banca nunca mais foi vista no Bric da Redenção.

            Mas, em todos os domingos de inverno, alguns feirantes juram encontrar uma mulher sentada no mesmo banco.

            Ela segura um porta-retratos sem fotografia.

            Permanece imóvel.

            Olha para um jardim que ninguém mais consegue enxergar.

            E espera.

            Como se soubesse que há encontros que o tempo apenas adia.

            Jamais cancela.

 
 
 

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