CONTOS DAS RUAS DE PORTO ALEGRE - NO ALTO DA BRONZE
- Carlos A. Buckmann
- 6 de ago.
- 4 min de leitura

NO ALTO DA BRONZE
O Castelinho do Alto da Bronze, à noite, era uma caixa de vidro e concreto iluminada por holofotes azuis.
Da janela do apartamento, via-se o fluxo de pessoas subindo a ladeira. A fachada histórica, outrora residência de um industrial, agora abrigava um sistema de som que fazia vibrar os paralelepípedos. Lá dentro, o ar era denso, uma mistura de perfume importado, suor e o cheiro metálico do gelo seco.
Rodrigo estava no mezanino, apoiado no gradil de ferro forjado. Olhava o salão principal. Seus amigos, Felipe e Bruno, debatiam ao seu lado, com a voz elevada para sobrepor a música eletrônica.
“A regra é clara”, disse Felipe, apontando com a garrafa de cerveja. “Ela está sozinha. Não veio com ninguém. Isso reduz a variável de rejeição.”
Bruno rebateu: “Reduz a variável de rejeição, mas aumenta a de tédio. Olha como ela dança. É mecânico. Não há entrega. Pode ser uma armadilha.”
Rodrigo observou a jovem. Ela vestia um vestido preto, justo, e dançava no centro da pista, com os olhos semicerrados. Sua beleza era simétrica, quase matemática. Os cabelos loiros caíam sobre os ombros com precisão cirúrgica. Ela não sorria. Não interagia. Apenas existia no espaço, como um móvel caro.
“A abordagem deve ser direta”, decidiu Rodrigo. “A conversa aqui é supérflua. O que importa é o desfecho. Felipe, você vai se aproximar pelo lado direito, com a desculpa do copo. Bruno, você fica na retaguarda, bloqueia a saída para o fumódromo. Eu faço a investida verbal.”
Os amigos concordaram com a estratégia. Era um protocolo testado em outras noites, em outros lugares. A boate, porém, tinha uma camada extra de complexidade.
Dizia-se que o Castelinho guardava ecos de seu passado. Antes da boate, fora um sanatório. Antes do sanatório, a residência do industrial. A lenda local afirmava que, em certas noites, a percepção do tempo se distorcia no salão principal.
“Vocês sabem da história do espelho”, comentou Bruno, enquanto ajustava o colarinho. “Dizem que o industrial mandou embutir um espelho d’água no piso da pista. Para ver as pessoas por baixo. Para controlar os passos.”
“Folclore de bêbado”, respondeu Felipe. “É apenas um piso de granito polido.”
Rodrigo desceu as escadas. A multidão se abria diante dele como um mar de corpos indiferentes. A jovem ainda dançava no mesmo ponto. Quando Rodrigo chegou a dois metros dela, ela parou. Virou-se lentamente.
“Você quer dançar ou quer sair para algo mais?”, perguntou ela, com a voz neutra, sem inflexão de curiosidade ou desejo.
A pergunta direta desarmou Rodrigo. Ele engoliu a frase ensaiada.
“Sair”, respondeu ele, após uma pausa. “O barulho aqui é inútil.”
Ela assentiu. “Eu sei. Vamos.”
Rodrigo estendeu a mão. Ela a ignorou e caminhou à frente, em direção à saída lateral, que dava para um pequeno jardim interno, agora abandonado e coberto de musgo. Felipe e Bruno os seguiram a uma distância calculada, mas foram barrados por um segurança, que apontou para a placa de “Área Restrita”.
No jardim, a única luz vinha da lua e de um poste quebrado. O silêncio era abrupto, um contraste violento com o barulho de dentro.
“Aqui não tem música”, observou Rodrigo. “Só o som da cidade. É mais honesto.”
Ela sentou-se em um banco de pedra. “O que você quer saber? O tempo? A origem? Ou apenas o que vem depois?”
Rodrigo hesitou. A lenda do Castelinho o assombrava. Falou, então:
“Dizem que aqui, o tempo não é linear. Que as pessoas que dançam no salão principal podem estar revivendo movimentos de décadas atrás. Uma coreografia fantasma.”
Ela riu, um som seco, sem alegria.
“Isso é verdade. Mas não é o tempo que é fantasma. São as intenções. Você veio com um plano. Seus amigos tinham um plano. O segurança que barrou vocês tinha um plano. Tudo é vetor, direção, força. Mas a pista de dança, o tal espelho d’água, ele reflete o que não é plano. Ele reflete o vazio.”
A jovem fez uma leve inclinação do corpo para a frente. Seu rosto, antes belo, parecia agora um mapa de linhas tênues, quase imperceptíveis, como se a pele estivesse se descolando do osso.
“O industrial”, continuou ela, “construiu este lugar para enxergar os pés das pessoas. Ele acreditava que os pés revelam a verdade, porque a face mente, as mãos gesticulam, mas os pés, esses carregam o peso. E ele viu que todos os pés dançavam em círculo. Todos. Nenhum avançava. Nenhum recuava. Eram apenas círculos.”
Rodrigo sentiu o frio do musgo penetrar seus sapatos.
“E você? O que seus pés dizem?”
Ela levantou-se. Olhou para baixo. Seus pés estavam descalços. A pele era pálida, quase translúcida.
“Meus pés não tocam o chão”, disse ela. “Porque eu sou o que sobrou daqui. A memória do que não foi. A lenda que vocês contam para justificar a noite. Eu não vim dançar. Eu vim para ser vista.”
Rodrigo recuou. Seu instinto de sobrevivência, um algoritmo primitivo, gritava para fugir. Mas sua filosofia, aquela que ele usava para decifrar o mundo, o paralisou.
“Você não existe”, murmurou ele. “Você é uma construção. Um delírio coletivo do Castelinho.”
“Exato”, respondeu ela. “E você, Rodrigo, veio com um plano para me possuir. Mas não pode possuir o que é apenas reflexo. Eu sou o espelho. E você está preso no meu vidro.”
Nesse instante, o poste quebrado piscou e acendeu por um segundo. A luz revelou que o jardim não tinha saída. As paredes eram altas, cobertas de hera. O banco de pedra era, na verdade, um túmulo antigo, com uma inscrição gasta.
A jovem deu um passo à frente e atravessou Rodrigo. Seu corpo era frio, como ar de porão. Ele sentiu um calafrio na espinha e, ao virar-se, viu que ela estava de volta ao salão, dançando no centro da pista, com os olhos semicerrados. Felipe e Bruno ainda discutiam no mezanino, a poucos metros de onde ele estava, como se ele nunca tivesse descido.
“A regra é clara”, ouviu Felipe dizer. “Ela está sozinha.”
Rodrigo olhou para suas próprias mãos. Estavam cobertas de musgo. No bolso, encontrou um papel úmido. Era um recibo do industrial, datado de 1926, com a anotação: “Os pés dançam. O espelho registra. O dono da casa nunca sai.”
Ele ergueu os olhos para a janela de seu apartamento, do outro lado da rua. Viu uma silhueta na janela, uma figura imóvel que o observava. A figura ergueu a mão e acenou.
Era ele mesmo.
Para sempre.




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