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CONTOS DAS RUAS DE PORTO ALEGRE - NA FEIRA DO PÊSSEGO

  • Carlos A. Buckmann
  • 4 de ago.
  • 3 min de leitura

NA FEIRA DO PÊSSEGO

                O sol da manhã ainda era brando quando começou a dourar os pêssegos dispostos em pirâmides sobre as bancas de madeira. Na Feira do Pêssego, na Vila Nova, o aroma doce da fruta madura misturava-se ao cheiro de barro úmido e ao pregão dos feirantes. Ali, a vida se resumia ao essencial: plantar, colher, vender e recomeçar.

                Giusepe De Longo ajeitava os últimos cestos. As mãos endurecidas pelo trabalho moviam-se com a delicadeza de quem conhecia cada fruto pelo toque. Seus pêssegos eram motivo de orgulho. Em cada um deles repousava a paciência de três gerações de imigrantes que haviam transformado a terra vermelha em sustento e identidade.

                Do outro lado da ruela que separa as bancas, Carmela Biachi organizava a sua. Os frutos exibiam o mesmo rubor intenso, como se desafiassem os de Giusepe em beleza. Atrás deles, ela parecia fazer parte da própria colheita: cabelos negros, pele morena e olhos onde uma paixão antiga permanecia escondida sob a disciplina herdada da família.

                “Senhor De Longo, poderia afastar um pouco seus cestos? A sombra da sua lona alcança os meus pêssegos.”

                Giusepe ergueu os olhos.

                O encontro dos olhares suspendeu por um instante o rumor da feira.

                “A sombra não estraga os frutos, dona Carmela. Apenas lhes ensina que o sol sempre retorna.”

                Ela sorriu discretamente.

Não era a primeira vez que conversavam.

                Era apenas a primeira vez que nenhum dos dois fingia indiferença.

                Enquanto compradores examinavam frutas e comerciantes discutiam preços, os dois permaneciam separados apenas pela rua estreita e por uma rivalidade que começara muito antes de nascerem.

                Sob uma figueira, Antônio Biachi observava tudo.

                A antiga disputa pelas divisas das propriedades atravessara gerações. O litígio perdera o motivo original, mas sobrevivera como sobrevivem certos ressentimentos: alimentados pelo hábito.

                “Carmela!”

                A voz do pai cortou o ar.

                “Venha para cá. Deixe que o senhor De Longo cuide da sombra dele.”

                Ela caminhou lentamente.

                Ao passar diante de Giusepe, suas mãos tocaram-se por um breve instante.

Foi suficiente.

                “A discórdia cresce depressa”, murmurou ela.

                “E o amor?”, respondeu ele.  “Talvez cresça justamente onde ninguém espera.”

                Um menino atravessou correndo a feira. Esbarrou na banca de Giusepe. A pirâmide de pêssegos vacilou.

                Uma única fruta desprendeu-se, rolou lentamente entre as pessoas e parou aos pés de Antônio Biachi.

                O velho a recolheu.

                Sorriu. Um sorriso duro.

                “Vejam todos! Eis a perfeição dos De Longo!”

                Ergueu o pêssego acima da cabeça.

                “Aposto que está podre por dentro.”

                O insulto atingiu Giusepe mais profundamente que qualquer ofensa.

                Antes que respondesse, Carmela tomou o fruto das mãos do pai. Partiu-o ao meio.

                O silêncio caiu sobre a feira.

                No lugar do caroço surgia um pequeno ramo verde, delicado, desconhecido.

                Nenhum agricultor presente reconheceu aquela planta.

                Giusepe também não.

                Carmela fitou o ramo por alguns segundos.

                Depois olhou para ele.

                “Isto não nasceu da nossa disputa.” Sua voz era baixa. “ Veio de uma semente que o vento trouxe.”

                Antônio permaneceu imóvel.

                Pela primeira vez, sua certeza vacilava.

                A natureza acabava de negar tudo aquilo que ele acreditava controlar.

                Giusepe aproximou-se.

                Recebeu cuidadosamente o pequeno ramo das mãos de Carmela.

                Ajoelhou-se entre as duas bancas.

                Abriu um pequeno sulco na terra escura.

                Plantou-o.

                Depois ergueu-se.

                Olhou para os feirantes que ainda o observavam em silêncio.

                “Passamos a vida discutindo de quem é a terra.” Fez uma pausa.  “Mas a terra nunca pertenceu a ninguém. Somos nós que pertencemos a ela.”

                Outro breve silêncio.

                “Enterro aqui nossa desavença.”

                “Que cresça apenas aquilo que nenhum documento pode dividir.”

                Ninguém aplaudiu. Ninguém falou.

                Giusepe e Carmela permaneceram imóveis, olhando o pequeno broto entre as bancas.

                Na manhã seguinte, Antônio Biachi voltou à feira.

                A banca de Giusepe havia desaparecido. Não havia caixas. Nem cestos. Nem pêssegos. Somente uma pequena placa de madeira fincada exatamente onde o ramo fora plantado. Uma única palavra:

                ESPERA.

 
 
 

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