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CONTOS DAS RUAS DE PORTO ALEGRE - INDOMÁVEL

  • Carlos A. Buckmann
  • 12 de ago.
  • 2 min de leitura

O INDOMÁVEL

            A tarde caía devagar sobre a garrafa de tinto. Não havia pressa no ar, apenas a densidade de quem já não tem mais relógios a temer. Eu e ele, um amigo de décadas, estávamos numa mesa, na área externa da churrascaria Barranco. As árvores curvavam seus galhos para ouvir nossas histórias.

            O sol se punha como um velho funcionário público que bate o ponto e vai embora sem alarde.

            Ele encheu meu cálice. O vinho subiu, escuro, e parou na borda.

            “Sabes o que eu estava pensando?” disse, com a voz rouca de quem fumou muito nos anos setenta. “Trabalhamos uma vida inteira. Salários que davam para viver com dignidade, mas nunca para acumular. E agora, o que temos?”

            Olhei para minhas mãos. Calos antigos. O tempo os suavizou, mas não os apagou. Eram marcas de ações repetidas, não de escolhas.

            “Temos o que sempre tivemos”, respondi. “Só que agora, talvez, tenhamos coragem de usar.”

            Ele riu. Um riso que vinha de um lugar onde a seriedade e a alegria se confundem, como dois rios que se encontram no mesmo leito seco.

            “Pois eu decidi”, disse. “Vou escrever. Talvez não para publicar, não para fama. Só para viver o que nunca vivi enquanto assinava papéis que outros ditavam.”

            Lembrei de Erasmo. A frase que guardei como um talismã: “Definir-me seria dar-me limites, e minha força não conhece nenhum.”

            “Escuta”, comecei, enquanto o vinho tingia nossas palavras de ouro velho. “Durante todos esses anos, fomos definidos. Pela função no crachá, pelo salário na conta, pelo lugar na hierarquia. Definir-se, para a maioria, é aceitar a jaula dourada e chamá-la de destino.”

            Meu amigo sorriu. Ironia doce. A mesma que nos manteve sãos.

            “E agora, vamos nos definir como escritores?”, provocou.

            “Não. Vamos nos negar a definição. O escritor não é quem tem um rótulo, mas quem se põe em movimento. Escrever é, justamente, desfazer os limites que nos impuseram.”

            O sol já se fora. A garrafa estava vazia.

            Ele pegou um guardanapo de papel e uma caneta que tirou do bolso da camisa. Escreveu algo. Dobrou. Guardou no bolso.

            “Amanhã começo”, disse.

            “Começas agora”, corrigi.

            Ele não respondeu. Apenas ficou olhando o vazio onde o sol estivera.

            “Essa você paga”, disse, sorrindo alegre e saiu.

            No dia seguinte, não o vi. Nem no outro. Na terceira manhã, sua mulher me ligou.

            “Ele saiu”, disse. “Levou apenas uma mala. E um guardanapo.”

            Fui até sua casa na zona sul, quase lá no Lami. Sobre a mesa da varanda,  havia uma taça suja. E um bilhete, preso pela garrafa vazia.

            Li: “Definir-me seria dar-me limites. Por isso, fui.”

            Peguei o bilhete. Guardei no bolso.

 

 
 
 

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