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CONTOS DAS RUAS DE PORTO ALEGRE - FIM DE TARDE NO RUBEM BERTA

  • Carlos A. Buckmann
  • 31 de jul.
  • 4 min de leitura

FIM DE TARDE NO RUBEM BERTA

            Crepúsculo. Avenida Baltazar de Oliveira Garcia. Bairro Rubem Berta. Resto de sol tingindo os muros e as fachadas das lojas e das casas, com um melado de cobre e cinza.

            Era a hora em que os dias se dissolvem como açúcar em água morna, e os homens, cansados de seus fardos, se arrastavam para casa.

            Nesse ocaso de sexta-feira, o bairro respirava com a lentidão de um animal ferido.

            Do alto do morro, os olhos de Dagoberto vigiavam a avenida como abutres espreitam a planície.

            Mariana saiu da loja como uma aparição contra a luz. Seu corpo moreno era a própria essência da terra queimada de sol, e seus olhos, negros e profundos como poços de carvão, carregavam a memória de todas as luas que já tinham nascido sobre a cidade.

            Ao fechar a porta atrás de si, o tilintar do sino pareceu um suspiro de alívio. Ela alisou o uniforme azul-marinho, um ritual mínimo para se despedir do mundo dos preços e das mercadorias, para adentrar o território mais vasto e perigoso das ruas.

            Seus pés, calçados em sapatos de salto baixo, conheciam o caminho de casa com a precisão de um sonâmbulo; cada passo era uma nota na partitura do cotidiano.

            Dagoberto desceu do morro como uma sombra que se desprende de uma parede. Ele não andava; ele se infiltrava no entardecer, seus olhos de felino medindo a distância entre sua presa e o refúgio das vielas. Sua mão, no bolso do moletom surrado, acariciava o metal frio de uma faca que não precisava ser usada, cuja mera presença bastava para ditar a lei da sobrevivência.

            Para ele, Mariana não era uma alma, era um conjunto de variáveis: o horário, o movimento da rua, a bolsa pendurada no ombro direito, o andar rápido e desatento dos que se sentem seguros na própria carne.

            Ele a seguia na cadência de um predador que conhece a ciência do vento.

            O destino costurou uma dobra no tempo. Ao passar em frente à igreja de fachada descascada, Mariana sentiu um arrepio que não era de frio. Era como se um piano invisível tivesse tocado uma nota dissonante, e a realidade, por um instante, tivesse se inclinado.

            Ela parou. Virou-se. Seus olhos encontraram os de Dagoberto. Nesse instante, a avenida deixou de existir. Os carros congelaram como estátuas de aço, as pessoas se tornaram manchas na paisagem, e o burburinho do bairro se transformou em um zumbido distante, o som do mundo funcionando em outra frequência.

            Dagoberto paralisou. Não era medo; era algo mais profundo e desconcertante.

            Os olhos de Mariana não eram janelas para uma alma; eram dois espelhos negros onde ele viu, não o seu reflexo, mas a sua própria essência desnuda.

            Viu a primeira vez que pegou um celular e a adrenalina doce e amarga do poder. Viu, acima de tudo, a solidão de quem habita o cume do morro e de quem transita pelo vale, unidas pela mesma carne, pela mesma cidade, pelo mesmo crepúsculo.

            Mariana viu no rosto do rapaz a geografia de um destino, o mapa de um labirinto onde ele se perdera havia muito tempo. Não viu o assaltante; viu o rio que corria para o mesmo mar de angústias que o dela.

            Mariana e Dagoberto estavam, de repente, no centro de um círculo desenhado a giz no chão, um círculo que nenhum dos dois havia feito.

            Ela sentiu o peso de sua própria história nos ombros, e ele sentiu o vazio de sua própria fome no estômago.

            O assalto perdeu o sentido, porque a posse e a carência se confundiam como dois galhos da mesma árvore.

            Dagoberto abriu a boca para dizer algo, talvez um pedido, talvez uma ameaça, talvez um nome.

            Mas as palavras, o vento levou para o alto, em direção ao morro.

            Mariana tirou da bolsa não uma carteira, mas um pão que comprara, e o estendeu a ele. O gesto não era de esmola, era de comunhão.

            Porto Alegre, com toda a sua geografia de dor e de luta, pulsava no peito de ambos. O morro e a avenida, o comércio e a pobreza, a mulher que trabalha e o homem que rouba, todos eram notas da mesma canção, acordes dissonantes de uma sinfonia que só o entardecer conseguia reger.

            O círculo de giz se apagou com uma brisa e a realidade retomou seu curso.

            Os carros voltaram a rugir, as pessoas a se mover.

            Dagoberto desviou o olhar primeiro, um movimento brusco de quem se desvencilha de um sonho. Meteu as mãos nos bolsos, sentiu a faca, mas seu peso agora era o de um fardo inútil. Virou as costas e subiu o morro, não mais como um predador, mas como um homem que carrega a própria pergunta sem resposta.

            Mariana continuou seu caminho. Seus olhos, mais profundos que antes, levavam gravada a imagem de um rapaz que, por um segundo, havia sido seu reflexo.

            A Avenida Baltazar de Oliveira Garcia, naquele ocaso de sexta-feira, permaneceu sendo o que sempre foi: uma ferida aberta na carne do bairro.

            Cada qual com seu destino, sumiu na escuridão, levando consigo o eco de uma verdade: na cidade dos homens, somos todos fantasmas de um mesmo desejo, assaltantes e assaltados da mesma solidão.

 

 

 

 

 

 
 
 

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