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CONTOS DAS RUAS DE PORTO ALEGRE - FELICIDADE

  • Carlos A. Buckmann
  • 11 de ago.
  • 4 min de leitura

FELICIDADE

            O vento sul varria a Rua Ramiro Barcelos, no Bom Fim, carregando o cheiro úmido de terra molhada e o som distante das sirenes das ambulâncias que chegavam ao HPS.

            Doutor Rafael caminhava para casa depois de mais um plantão de trinta e seis horas, os olhos vermelhos de cansaço e a alma esgarçada como um tecido velho. Ele havia passado a noite inteira acreditando, com a força desesperada de quem nada mais tem, que conseguiria salvar a moça da moto.

            Ela chegara com a perna direita retorcida num ângulo que a anatomia não prevê, o capacete aberto como uma casca de noz, e os olhos assustadoramente lúcidos. Rafael segurara sua mão enquanto a enfermeira veterana, dona Marta, preparava a medicação.

            “Vai ficar bem”, disse ele, com a solenidade de quem repete um mantra. “Você é forte. Vai ficar bem.”

            E acreditou. Acreditou com toda a força do seu coração de residente, com toda a fé que ainda restava em suas mãos trêmulas. Acreditou porque precisava acreditar, porque acreditar era o único farol naquela noite de plantão. Mas a vida, essa velha mestra impiedosa, tem o hábito de desmontar nossas construções interiores com a delicadeza de um terremoto.

            A moça morreu às 4h47 da madrugada. Uma hemorragia interna que nenhum dos exames de rotina detectara, um traço de contusão hepática que se desfez em sangue como uma promessa quebrada.

            Rafael viu o monitor se achatar numa linha reta e sentiu, no mesmo instante, o desabamento de todas as suas certezas. A felicidade que ele jurava ter encontrado na medicina, aquela sensação de propósito, de virtude em ação, de navegar com boa intenção rumo a um porto seguro, revelava-se agora efêmera, frágil como um reflexo em água de poça.

            Parou em frente ao Café do Bom Fim, no conjunto de lojas do Parque da Redenção ao lado do HPS. Lembrou-se de si mesmo, meses atrás, acordando cedo para meditar, escrevendo listas de agradecimentos, praticando atos aleatórios de bondade e dizendo com voz solene: "Hoje será um dia feliz." E por algum tempo funcionou. Ele confundiu o desejo com a realidade, acreditou que a virtude era um escudo contra o acaso, que a gratidão era um antídoto contra a finitude.

            Mas a moça da moto não estava grata. Ela estava morta. E Rafael, sentado agora num banco frente ao café, sob a chuva fina, percebeu que não estava triste, não da forma que se espera de um jovem médico que perdeu uma paciente. Estava vazio. A dor vinha não da perda, mas da ilusão desfeita. Ele havia transformado a felicidade num ídolo, num estado permanente a ser conquistado com boas intenções, e o ídolo caíra revelando-se mero barro.

            “Doutor?” A voz de dona Marta o arrancou do devaneio. A enfermeira estava ali, com seu casaco puído e o olhar de quem já viu centenas de mortes e nenhuma delas lhe ensinou qualquer lição definitiva. “O senhor não devia estar aqui. Vai chover mais forte.”

            Rafael olhou para ela, e por um instante viu a própria juventude espelhada no rosto enrugado da veterana. Ela tinha a mesma idade de quando ele começara a residência, mas parecia pertencer a outra espécie, uma que já não buscava felicidade, apenas fazia o que precisava ser feito.

            “Dona Marta, disse ele, a voz rouca, a senhora já se sentiu feliz?”

            A veterana enfermeira riu, um som seco como fósforo riscado.

            “Feliz? Doutor, felicidade não é estado, é intervalo. É o que acontece entre uma morte e outra, entre um plantão e o próximo. Eu não busco felicidade. Eu só não quero sofrer à toa.”

            Ela se sentou ao lado dele, e a chuva começou a engrossar. Rafael pensou na frase de Voltaire, que lera na véspera e que parecia ter sido escrita para este exato momento: "O interesse que tenho em acreditar numa coisa não é a prova da existência dessa coisa." Ele tinha interesse em acreditar na felicidade, em acreditar que sua vocação médica o redimia, que suas boas intenções ancoravam num porto seguro. Mas a morte da moça, a perda do projeto, a vida desmontando suas construções, tudo isso era a prova de que a felicidade não existia como ele imaginava.

            Existia, talvez, como a chuva existe: sem promessa, sem propósito, apenas caindo. Existia como o vento sul que varre o Bom Fim, indiferente a quem caminha sob ele. Existia como a mão de dona Marta, que agora pousava sobre o ombro dele com uma leveza que não consolava nem exigia nada.

            “Vamos, doutor. A senhora do café já abriu. Vou pagar um café para o senhor.”

            Ele levantou-se, os joelhos doendo, a alma em frangalhos, e seguiu a enfermeira em direção ao café que começava a acender suas luzes amareladas. A cidade ainda estava cinzenta, a chuva fina ainda caía, e a moça da moto continuava morta. Mas havia algo no ar, naquele momento simples de caminhar sob a chuva fina ao lado de alguém que não prometia nada, que parecia, por um breve instante, suficiente.

            Então, ao empurrar a porta do café, Rafael viu a moça da moto. Ela estava sentada numa mesa do fundo, , tomando um café com leite e sorrindo um sorriso triste, com um rapaz de cabelo comprido. O rosto estava intacto, os olhos vivos, e ela ergueu o copo num brinde invisível para ninguém.

            Rafael paralisou. Seu coração disparou. Ele olhou para dona Marta, que apenas balançou a cabeça com um sorriso cansado.

            “É a gêmea, disse ela.  A irmã. Chegou hoje de manhã para reconhecer o corpo. Disse que a irmã sempre tomava café aqui depois do trabalho.”

            A moça, a viva, virou-se por um instante e seus olhos encontraram os de Rafael. Não havia reconhecimento, apenas a cortesia vaga de quem vê um estranho. Ela sorriu, um sorriso sem peso, e voltou a falar com o rapaz.

            Rafael tomou um café preto e forte. Dona Marta tomou um capuccino.

            “Obrigado, doutor, disse a moça da moto, ao passar por eles a caminho da saída. Por tudo.”

 

 
 
 

1 comentário


Magaly Andriotti Fernandes
Magaly Andriotti Fernandes
12 de ago.

Bom dia Beto. Leio tuas crônicas e penso nessa inserção da filosofia, no texto literário, no cotidiano. Tem duas que fica interessante. Em outros uma formalidade que tira o protagonismo dos personagens. E hoje o final não me pareceu verossímil. Uma irmã que perde , levantaria a xícara para o medico? Sarcasmo? No texto só o mundo interno do personagem, nada que corrobora com o fim.

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