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CONTOS DAS RUAS DE PORTO ALEGRE - ENCONTROS NO BAR

  • Carlos A. Buckmann
  • 27 de jul.
  • 4 min de leitura

ENCONTROS NO BAR

            A claridade do salão era a mesma de sempre, um ocre gasto que a luz elétrica teimava em não vencer. Empurrei a porta de madeira pesada e o cheiro de álcool e gordura me envolveu como um abraço de um velho conhecido. Lá estava o meu canto: a mesa contra a parede, estrategicamente posicionada para que eu visse a entrada e, ao mesmo tempo, pudesse vigiar o movimento do balcão. Pedi um chope e a tradicional salsicha bock. O garçom, um senhor calado de bigode grisalho, apenas assentiu.

            Então ele apareceu. Não o vi chegar, mas senti a sua presença como quem sente o vento mudar antes da tempestade. Vestia um paletó de tweed desgastado nos cotovelos, com manchas que poderiam ser de chuva ou de tempo. Seus olhos, porém, eram joviais, cheios de uma luz que contava mais histórias do que a roupa esfarrapada deixava transparecer.

            “Há quanto tempo, rapaz!”, disse ele, batendo com a mão no meu ombro, como quem cumprimenta um filho pródigo. “Achei que você tivesse esquecido este lugar.”    

            Ele se sentou sem cerimônia e pediu um uísque duplo, sem gelo. Eu, atônito, apenas o observei enquanto ele bebericava e olhava o salão com a nostalgia de quem retorna a um lar depois de uma longa viagem.

            “Você se lembra do dia em que o Brizola se enquartelou no Piratini para defender o Jango e começou a corrente da Legalidade? Eu tinha vinte e oito anos e um amor perdido. Vim para cá para afogar as mágoas, e você estava aqui. Sentado exatamente neste lugar. Um garotão de dezoito anos. Me contou que era filho de um tipógrafo, que amava o cheiro de tinta e papel. Disse que queria escrever um livro sobre as ruas de Porto Alegre.”

            Engoli em seco. Que lembranças! Meu pai realmente fora tipógrafo, e na juventude eu alimentara esse sonho literário.

            “Bons tempos”, murmurei.

            Ele balançou a cabeça, um sorriso triste nos lábios.

            “Bons e velhos tempos. Foi você quem me ensinou a apreciar a salsicha bock, dizendo que era o único alimento honesto da cidade.”

            Então, como se um dique tivesse se rompido, retomamos a conversa. Noites de chuva. Conversas intermináveis sobre filosofia e política. Uma aposta boba sobre quem conseguiria terminar um uísque antes do amanhecer. Ele estava lá. Sempre esteve.

            Ele sorriu.

            “Sempre gostei desses nossos encontros e nossas conversas. A memória é um fio que se desgasta, mas nunca se rompe de verdade. E você, o que tem feito? Ainda escreve?”

            Ri, sem graça.

            “Escrevo relatórios. Orações subordinadas e gráficos. Nada de poesia.”

            “Poesia está nas entrelinhas, rapaz. Até nos relatórios.”

            A conversa se estendeu por horas. Ele falou de amores antigos, de viagens a Montevidéu, de um cachorro vira-lata que o acompanhou por quinze anos. Eu, por minha vez, contei sobre a minha filha, sobre o divórcio, sobre a sensação de estar sempre no lugar errado na hora errada. Havia uma intimidade entre nós que eu não conseguia explicar, como se aquelas horas fossem um reencontro de almas que já haviam compartilhado todas as palavras possíveis.          Quando ele se levantou para ir, a noite já havia se dissolvido em madrugada. Ele apertou minha mão com força, seus olhos marejados.

            “Foi bom rever você, meu amigo. Não se esqueça: a vida é feita de encontros que parecem acaso, mas são despedidas disfarçadas.”

            Saiu pela porta, e a luz do poste lá fora lambeu sua silhueta por um instante, antes de ele se dissolver na névoa da Rua Alberto Bins.

            Dias se passaram. A rotina me engoliu de novo, e a lembrança daquela noite começou a se esvanecer, como um sonho ao despertar. Até que, numa manhã de quarta-feira, ao tomar meu café e folhear a Zero Hora, meu coração parou.

            Na capa, uma foto em preto e branco. O rosto do velho, sério e solene, com uma gravata que eu nunca o vira usar. A manchete: "Morre o empresário e filantropo Henrique Alves, aos 89 anos. Fortuna avaliada em R$ 40 milhões será destinada a herdeiro desconhecido."

            Li o obituário com os olhos ardendo. Ele era milionário. Dono de fábricas, de terras, de uma coleção de arte que eu nem sabia que existia. E, no final da matéria, um parágrafo que fez o chão sumir sob meus pés: "O testamento, assinado há dez anos, nomeia como único herdeiro o amigo e confidente [meu nome completo]. A família do falecido, há muito distante, contesta a decisão, mas o documento é claro. O herdeiro está sendo procurado para a formalização da partilha."

            Senti um nó na garganta. Dez anos. O testamento tinha dez anos. Mas eu só o conhecia de nossos encontros no bar por esse tempo todo.

            Deixei o jornal cair sobre a mesa. A empregada entrou na sala e me viu pálido, suando frio.

            “Senhor, o senhor está bem?”

            Não respondi. Levantei-me, peguei meu casaco e saí sem destino. Meus pés, porém, sabiam o caminho. Atravessei a cidade como um autômato, até parar em frente ao velho bar na Rua Alberto Bins.

            A porta estava aberta. Entrei. O mesmo cheiro, a mesma luz ocre. O garçom do bigode grisalho me viu e acenou.

            “A mesa de sempre, senhor?”

            Apontei para o canto.

            Me acompanhou até mesa isolada, perto da janela, onde dois copos de uísque estavam servidos, como se esperassem alguém.

            Sentei-me, trêmulo. Olhei para o copo vazio em frente ao meu e, com um sobressalto, percebi. No fundo do copo, gravado a ouro, estava o nome dele. Henrique Alves. E, ao lado, uma data: a mesma data daquela noite em que conversamos pela última vez.

            O garçom se aproximou com um envelope.

            “Ele deixou isso para o senhor.”

            Abri o envelope. Dentro, apenas uma folha de papel com uma letra trêmula:

            "Você sempre duvidou das memórias, mas fomos amigos a vida inteira. Vai lembrar sempre que é meu irmão de alma. E, por fim, vai lembrar que eu nunca tive família porque a minha sempre foi você. Use o dinheiro para escrever o livro, como sempre sonhou."

            Levantei o copo de uísque, ainda cheio, e brindei ao vazio.

            “Obrigado, irmão.”

            Com um gesto rápido, virei o copo e tomei até a última gota.

            E, enquanto eu saía do bar, naquela manhã de sol raso, soube que não precisava de dinheiro algum. Eu já havia recebido a maior herança: a certeza de que havia sido amado.

 
 
 

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