CONTOS DAS RUAS DE PORTO ALEGRE - AO POR DO SOL, NO GUAIBA.
- Carlos A. Buckmann
- 30 de jul.
- 3 min de leitura

AO POR DO SOL, NO GUAÍBA.
O sol derramava-se sobre o Guaíba com um ouro melancólico, tingindo as águas de um vermelho-róseo que não era de sangue, mas de despedida.
“O rio ‘tá’ rosa, mãe”!, uma voz de menina, encantada, sobressaiu ao burburinho do local.
Ali, na orla, onde o asfalto encontrava o espelho d’água, eu era um homem reduzido à sua mais simples função: a de sobreviver.
Minha caixa de isopor, branca e quadrada, era a arca que continha não a salvação, mas o alívio efêmero de quem via o sol morrer.
Cada lata de cerveja gelada era uma pequena promessa de esquecimento que eu vendia por alguns trocados, e o ruído metálico das moedas no fundo do meu bolso soava como a música triste de um carrilhão quebrado.
Ela surgiu como uma fagulha entre a multidão silenciosa. Uma jovem de cabelos ruivos que incendiavam sob a luz crepuscular, um fogo vivo em meio ao cinza das pedras. Seus olhos verdes encontraram os meus com uma franqueza que desarmava.
"Uma lata, por favor", pediu, a voz macia como o vento que vinha do rio.
Estendi-lhe a cerveja. Nossos dedos roçaram-se, um contato breve, um eclipse de segundos e ela sorriu. Era o sorriso de quem ainda acreditava que o belo poderia ser comprado por alguns reais. Guardei o dinheiro, e ela deu um gole, enquanto o sol se punha como um deus ferido.
A sombra dos guardas municipais cobriu o meu chão. Eles eram dois blocos de granito com uniformes. A truculência não precisava ser dita; ela estava na maneira como seus coturnos esmagavam o chão, na inflexão seca de suas vozes que cortavam o ar.
"O senhor está proibido de comercializar aqui. Vamos recolher a mercadoria."
Não houve diálogo. Houve um veredito.
A mão pesada de um deles agarrou meu ombro, e o mundo girou num redemoinho de asfalto e céu.
Caí. O isopor se partiu, libertando as latas que rolaram como projéteis de uma guerra inglória. Minha face colou-se ao chão frio; o gosto de pó e de derrota invadiu minha boca.
Ela tentou intervir. Vi-a mover-se como uma labareda.
"Parem! Ele não fez mal a ninguém!"
Suas palavras foram abafadas pelo movimento brusco de um dos guardas, que a empurrou para trás. Ela tropeçou em uma das latas, caindo sobre os cacos de vidro de uma garrafa esquecida. Um filete de sangue, mais vermelho que o seu cabelo, começou a escorrer de seu braço, um rubi líquido que se misturava ao ocre do entardecer.
A multidão, um coro de estátuas, assistia. Dezenas de olhos, vidrados na cena, refletiam o mesmo sol que continuava seu curso indiferente. Ninguém se moveu. Ninguém falou. Eram espectadores de um teatro cruel, e eu, no centro do palco, era o ator que havia esquecido sua fala.
A cumplicidade do silêncio deles era mais pesada que o cotovelo do guarda que pressionava minhas costas.
Os guardas recolheram as latas que restaram, amontoando-as em um saco preto como se fossem os restos mortais do meu trabalho.
Enquanto se afastavam, suas silhuetas se tornaram recortes sombrios contra a imensidão luminosa. A jovem ruiva, ainda sentada no chão, segurava o braço ferido, e o fogo de seus cabelos parecia ter se apagado. A multidão se dissolveu pela orla.
O sol, tocou a linha do horizonte.
A cortina de fogo e neon baixou sobre o Guaíba, um pano de boca que anunciava o fim do espetáculo.
Compreendi, que o verdadeiro espetáculo não era o pôr do sol; era a indiferença humana, sempre mais crua e mais terrível que qualquer cartão postal.




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