CONTOS DAS RUAS DE PORTO ALEGRE - A MENSAGEM DO OLIMPO
- Carlos A. Buckmann
- há 5 dias
- 1 min de leitura

A MENSAGEIRA DO OLIMPO
O vento de outono empurrava folhas secas pela calçada quando nos sentamos na confeitaria da Av. Goethe.
Chamava-se Aletheia, como a deusa grega da verdade, pensei.
Entre xícaras fumegantes e nomes de filósofos lançados ao ar, ela fez a pergunta inevitável:
“Você acredita em Deus?”
“Qual deles?”, devolvi, sorrindo.
Diante do seu olhar perplexo, convoquei os séculos. Falei de Anúbis, Ísis, Odin, Zeus, Alá, Javé, Xangô e da multidão hindu que dança no fogo da existência. Expliquei que não via erro nesses milênios de mitos, mas sim símbolos vivos da nossa busca por sentido.
“Os deuses não vivem nos céus, vivem em nós, como a poesia. Se tivesse de escolher um, ficaria com o de Spinoza: a própria Natureza, o tecido imanente do real.”
Ela me encarava entre o sagrado e o herético. Para aliviar a tensão, lembrei de um colega que lia a Bíblia apenas pela fé, encerrando qualquer ponte com a razão. Como Kant bem sabia, há abismos que não se cruzam.
Ela ouviu tudo em silêncio absoluto. Mexeu o açúcar na xícara, deu um último gole e me encarou com uma serenidade ancestral, quase divertida.
“Curioso o seu raciocínio”, ela disse, levantando-se e deixando sobre a mesa uma moeda antiga, cunhada em um metal que eu jamais vira.
“Nós, no Olimpo, costumávamos discutir exatamente a mesma coisa a seu respeito.”




Comentários