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CONTOS DAS RUAS DE PORTO ALEGRE - A FORÇA DE UMA IDEIA

  • Carlos A. Buckmann
  • há 56 minutos
  • 2 min de leitura

A FORÇA DE UMA IDEIA EM AÇÃO

            O relógio da parede do Tribunal parecia medir não as horas, mas a espessura do ar. Cada tique era um grão de areia caindo sobre os ombros dele, enterrando-o um pouco mais na rotina de caixotes de concreto e papéis empilhados. A Av. Borges de Medeiros rugia lá fora, mas dentro do prédio, o silêncio era o de uma cela coletiva.

            Sua chefe, de sorriso petulante e olhar de vidro, gostava de lembrá-lo de sua insignificância com um "dr." irônico, como quem cutuca um bicho acuado. Ele, porém, não revidava. Sempre bom filho, bom estudante, bom homem, ele havia aprendido que a paciência era a virtude dos que esperam o tempo das coisas.

            E o tempo, enfim, soprava. Um edital federal surgiu como uma fresta de luz no teto de seu cubículo. A prova escrita, ele a desfiou como um rosário de certezas, cada resposta um eco de seus anos de bancos escolares e livros sublinhados. O cérebro, aquele velho atleta, funcionava em pleno vapor.

            Mas o corpo, esse aliado esquecido, era uma terra árida. O trabalho o mantinha sentado, encurvado sobre processos, enquanto os músculos atrofiavam em silêncio.

            A prova física era a muralha: dois quilômetros em doze minutos. Uma distância que, para sua mente, era um salto quântico; para suas pernas, uma sentença.

            Na manhã da prova, o sol ainda não havia rompido a névoa. Ele estava na linha de partida, coração disparando não só pelo esforço, mas pela dúvida.

            Em sua mente, as imagens se alternavam: o rosto sarcástico da chefe, a pilha de processos que nunca diminuía, a gaveta de sua mesa onde guardava um sonho. Se falhasse, o retorno era certo. A rotina sufocante o engoliria de novo.

            Então, algo mudou. Não foi uma voz, nem uma visão. Foi a compreensão súbita de que aquele momento não era um teste, mas uma permissão.

            A ideia de uma vida melhor, gestada em anos de silêncio, não era mais uma semente no escuro. Era uma árvore que pedia passagem. E o tempo, o grande senhor das ocasiões, sussurrou: "Agora."

            Ele correu. Não como um atleta, mas como um homem que corre pela vida. Cada passada era um rompimento de correntes. A queimação nos pulmões era o preço da liberdade; o zumbido nos ouvidos, a sinfonia da superação.

            Os doze minutos se esticaram como um fio de prata, e quando o cronômetro parou, ele já havia cruzado a linha. Não apenas a linha de chegada, mas o limiar de si mesmo.

            Ao receber o certificado, ele compreendeu a frase que sempre pairou sobre sua escrivaninha, como um presságio.

            Nada é mais forte do que uma ideia quando chegado o seu momento.

            Sua ideia não era a de um cargo, mas a de uma dignidade. E ela, enfim, encontrara seu tempo.

            Não no relógio da parede, mas no chão firme de seus próprios passos.

 
 
 

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