CONTOS DAS RUAS DE PORTO ALEGRE - A ESTUDANTE DO COLÉGIO ISRAELITA
- Carlos A. Buckmann
- 10 de ago.
- 3 min de leitura

A ESTUDANTE DO COLÉGIO ISRAELITA
A mochila pesava no ombro direito. O uniforme azul-marinho trazia bordado o nome do colégio em letras hebraicas e portuguesas. Ela caminhava pela Rua Fernandes Vieira, calçada irregular, sombra das tipuanas.
Ele estava encostado no muro do estacionamento. Braços cruzados. Camiseta cinza. Não desviou o olhar quando ela se aproximou.
“Judia.”
Ela continuou andando.
“Você me ouviu. Judia.”
Ela parou. Não por medo. Por cansaço. Já acontecera antes, em outros lugares, com outras vozes. Virou-se devagar.
“Sim. Sou judia.”
Ele sorriu. Um sorriso sem dentes, só lábios contraídos.
“Vocês deviam voltar para onde vieram.”
“Eu nasci aqui.”
“Não importa.”
Uma senhora com sacolas de feira diminuiu o passo. Um homem de terno olhou por cima do ombro e seguiu em frente. Um motoboy reduziu a velocidade, observou por três segundos, acelerou.
O que você quer?”, perguntou a menina.
“Que você saiba o que eu penso.”
“Já sei. Não muda nada.”
Ele desencostou do muro. Deu dois passos em direção a ela. As mãos nos bolsos. O rosto sem expressão definida, misto de desprezo e tédio.
“Vocês controlam tudo. Bancos, cinema, jornais.”
“Eu tenho quinze anos. Não controlo nada.”
“Mas vai controlar.”
Ela ajustou a alça da mochila. Olhou para os lados. A rua não estava vazia, mas ninguém parava. Uma mulher com carrinho de bebê atravessou para a calçada oposta. Um casal de idosos observava da esquina, imóvel.
“Você tem medo de quê?”, perguntou ela.
A pergunta o desconcertou por um instante.
“Não tenho medo.”
“ Tem sim. Quem fala assim tem medo.”
Ele franziu a testa. O tom dela não era agressivo. Era clínico. Como se lesse um diagnóstico.
“Você não me conhece”, disse ele.
“Conheço o suficiente.”
A senhora das sacolas finalmente parou. Ficou a cinco metros, segurando o celular, sem ligar. O homem percebeu a presença dela. Depois notou o casal de idosos. Depois o motoboy, que voltara e estacionara na esquina, motor ligado.
“Vai chamar a polícia?”, gritou ele para a senhora.
Ela não respondeu. Só segurou o celular com mais firmeza.
A menina não se moveu. Encarava o homem com a mesma expressão: cansada, mas atenta.
“Você já terminou?” perguntou.
“Não.”
“Então termina logo. Tenho prova de história amanhã.”
Ele riu. Uma risada curta, aspirada, quase um espirro.
“História. Vocês inventaram metade.”
“Estudo em escola israelita. A gente aprende a nossa e a de todo mundo. Você estudou onde?”
Ele não respondeu. A pergunta pareceu atingir algo que não estava na superfície.
O motoboy buzinou. Uma, duas vezes. Não para apressar. Para marcar presença. O homem olhou para ele, depois para a menina. Deu as costas e começou a andar em direção à Avenida Protásio Alves.
A menina ficou parada. A senhora se aproximou.
“Quer que eu chame a polícia, querida?”
“Não precisa. Ele já foi.”
“Você está bem?”
“Estou.”
A senhora tocou o ombro dela e se afastou. O casal de idosos também se dispersou. O motoboy fez um sinal com a cabeça e arrancou.
A menina respirou fundo. Continuou andando pela Fernandes Vieira, passou pela João Abbott, entrou na casa de muro baixo com mezuzá na porta. Trancou o portão. Subiu para o quarto. Abriu o caderno de história. Estudou a Diáspora. Depois a Inquisição. Depois o século XX. Fechou o caderno. Apagou a luz.
No dia seguinte, o “D G” publicou uma nota de três parágrafos na editoria de polícia. Um homem fora encontrado morto na calçada da Protásio Alves, altura do número 800, por volta das duas da manhã. Sem documentos. Camiseta cinza. No Bolso da calça tinha apenas um papel dobrado em quatro com um nome: Efrain Cohen.
A polícia investigou.
Efraim Cohen fora um comerciante judeu assassinado em Porto Alegre em 1987. Crime nunca solucionado. A filha dele tinha cinco anos na época. Hoje mora no bairro Petrópolis. Tem uma filha de quinze anos. Estuda no Colégio Israelita.
A reportagem terminava com a declaração do delegado: "As investigações continuam, mas não há suspeitos".




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