AS VIUVAS DO TERROR
- Carlos A. Buckmann
- 28 de jul.
- 3 min de leitura

AS VIÚVAS DO TERROR
A poeira sobre a fotografia era uma pátina sagrada. Ranya a limpava com a palma da mão, gesto que se repetia desde que o mundo havia parado, naquela noite em que os caminhões devoraram as sombras dos homens de Beharke.
Na imagem, o rosto de Aram, um sorriso que a memória já não ousava tocar, parecia espiá-la de um outro reino, onde o tempo não era uma ferida, mas um rio sereno. Ela sabia que não podia enterrá-lo. A lei, farisaica e cruel, exigia um corpo para o luto. Sem o corpo, só restava a espera, essa forma pálida de loucura que vestia de preto as mulheres da aldeia.
“Ranya, o chá está pronto”, disse Zara, a prima, cujos olhos eram dois poços sem fundo. Seu retrato, o de um rapaz de bigode ralo, descansava sobre o colo, como um filho morto.
Ranya não respondeu. Ergueu-se, foi até a janela e observou a planície. O vento, naquele dia, trazia o cheiro de metal e de cinzas distantes. A montanha, ao fundo, era uma esfinge indiferente. O mistério não habitava o que os soldados haviam feito; o mistério residia no que os soldados haviam deixado para trás: a pergunta.
“Estavam vivos?”
A pergunta tinha o peso de uma teologia. Se estavam vivos, a espera era uma virtude; se mortos, a espera era uma heresia contra a própria dor. Ranya e suas irmãs habitavam esse intervalo, esse instante eterno entre a fé e a desgraça.
A casa era um relicário de ausências. Cada objeto, o cabo da enxada encostado à parede, a túnica de Aram dobrada no baú, era um fragmento de um discurso interrompido. Ela sentou-se ao chão de terra, e a poeira subiu, dançando na luz frouxa da tarde. A memória daquela noite de julho de 1983 era um espinho encravado na alma. Ela se viu novamente agarrada à perna de Aram, ouvindo os gritos que o vento levava para o deserto. Os soldados não olhavam nos olhos; apenas contavam, como quem separa ovelhas de cabras.
“Onde os levaram?” perguntara ao vizinho, dias depois.
“Para o sul”, ele respondera, com a voz rouca de quem já sabia que o sul era um eufemismo para o nada.
Desde então, as mulheres se reuniam ao entardecer. Formavam um coro mudo, cada qual com seu ícone de papel. Às vezes, uma delas, a mais velha, recitava versos do Corão, mas a voz tremia, e o versículo se perdia no ar, como uma ave ferida. O silêncio era mais eloquente. Era no silêncio que Ranya ouvia a respiração do mistério: um sussurro que lhe dizia que Aram estava em algum lugar, não morto, mas transmutado em outra forma de existência. Talvez o vento que agora batia à porta, talvez a sombra que se alongava no chão.
“Por que não choras, Ranya?”, indagou Zara, numa noite em que a lua parecia uma ferida aberta.
“Porque as lágrimas são para os que encontraram um fim. Nós, ainda, procuramos um começo.”
Zara baixou a cabeça. Seu retrato, o do rapaz de bigode ralo, caiu ao chão. Ela não o ergueu. Deixou-o ali, como quem deixa uma oferenda para os deuses esquecidos.
O tempo, em Beharke, era uma espiral. Os dias se repetiam, como as voltas de um caracol, sempre em torno do mesmo centro vazio. Ranya passeava entre as casas de barro, e as outras mulheres a observavam com olhos que não pediam explicação. Sabiam que Ranya era a mais antiga, a que guardava a memória do dia em que os homens partiram. Ela era a sacerdotisa da ausência.
Certa manhã, um estrangeiro chegou à aldeia. Trazia uma câmara e um olhar que parecia enxergar para além da pele. As mulheres se encolheram, como pássaros diante de um predador. O estrangeiro não falou muito. Apenas as observou, seus rostos e seus retratos, e apertou o obturador. O clique foi o som de um osso se partindo. Ranya sentiu que a fotografia dele, a imagem que ele roubava, era uma forma de profanação e, ao mesmo tempo, de consagração. Talvez, naquele papel, a sua espera ganhasse um testemunho.
“Por que vens?”, perguntou Ranya, sem virar o rosto.
“Para mostrar ao mundo o que o mundo não quer ver.” - respondeu ele, com uma voz que vinha de longe.
“O mundo não quer ver o vazio, disse ela, e seus dedos tocaram a borda da fotografia de Aram. Quer ver o preenchido. Nós somos o avesso da história.”
O estrangeiro partiu ao anoitecer. Ranya ficou ali, imóvel, com as outras mulheres. O vento erguia a poeira, e a poeira cobria os retratos.
O sol se pôs por trás da montanha. A planície escureceu. As mulheres, uma a uma, guardaram seus retratos e voltaram para suas casas. Zara, a prima, tocou o ombro de Ranya.
“Amanhã, o chá, de novo”, sussurrou.
“Sim, respondeu Ranya. Amanhã, o chá. E depois de amanhã, o mesmo. Até que o tempo desista de nós.”




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