AS CORES DA VIDA
- Carlos A. Buckmann
- 16 de jul.
- 6 min de leitura

AS CORES DA VIDA
(Da série RETORNO AO CAFÉ ENTRE FLUXOS)
O sol da tardinha, já meio cansado, se derramava pelos vitrais do Café Entre Fluxos, pintando o pó de giz no ar com cores de mel e cinza.
O cheiro doce do café com caramelo que a Ana Clara preparava se misturava ao cheiro ácido dos livros da estante da parede do fundo. Eu, do outro lado do balcão, polia um copo com um pano de algodão, ouvindo o tilintar dos talheres contra a porcelana e o murmúrio baixo dos clientes. Mas o que realmente preenchia o ar era a música que saía do velho vitrola: um prelúdio de Debussy, "Clair de Lune". Notas líquidas e sonhadoras, que pareciam se mover como água sob um céu noturno, criando uma bolha de silêncio íntimo dentro do burburinho do café.
Num canto, o senhor Almeida, que sempre vem com seu jornal dobrado, lia com a testa franzida, sua xícara de chá de hortelã esquecida a esfriar. Na mesa ao lado, uma jovem com um caderno de desenho rabiscava freneticamente, os olhos fixos na luz que entrava pela janela. Foi quando a porta rangeu, e duas figuras entraram, trazendo consigo uma tempestade de energias opostas.
O primeiro era Vincent. Seu corpo era um fio de tensão, a roupa simples e manchada, o olhar de um azul tão intenso que parecia sugar a luz do ambiente. Seus dedos, inquietos, tamborilavam na mesa antes mesmo de se sentar. O outro, Pablo, era uma presença sólida e magnética. Olhos negros, penetrantes, que devoravam o espaço ao redor com uma segurança que beirava a arrogância. Ele usava uma camisa listrada, e um ar de boêmio triunfante o envolvia.
Me aproximei, o pano ainda na mão. "Boa tarde. O que lhes trago?"
Vincent olhou para mim como se eu fosse uma paisagem a ser decifrada.
"Um café. Preto. Bem forte. Quero sentir a terra nele." Sua voz era grave, carregada de uma fome que não era só de café.
Picasso sorriu, um sorriso de lado.
"Para mim, um absinto. Quero ver a cor verde dançar na água." Ele pediu o ritual completo, o bule, o açúcar, a colher furada.
Enquanto eu servia, o cheiro do café e o anis do absinto se encontraram no ar. Eles se olharam por um longo momento. Não era uma disputa, mas um reconhecimento. Dois titãs em lados opostos de uma mesma moeda.
"Suas pinceladas", disse Picasso, quebrando o gelo com um aceno em direção a Vincent. "Elas são como fogo. A própria matéria parece se contorcer para sair da tela. É uma agonia bela de se ver."
Vincent inclinou a cabeça, como se aquilo fosse uma acusação.
"A agonia é a vida, Pablo. O trigo cresce na tempestade, não na calmaria. O que vejo não é o objeto, mas a alma do objeto. Uma cadeira não é só madeira; é o peso do corpo que nela descansa, é a solidão do camponês que a ocupa. Pintei a noite, as estrelas, e vi o próprio Deus girar nelas."
Picasso riu, um som baixo e rouco.
"Deus? Não, meu caro. A forma é tudo que temos. A forma é Deus. O que você chama de alma, eu chamo de geometria. Eu não pinto o que vejo, pinto o que sei sobre o que vejo. Um rosto é um quebra-cabeça. Eu pego os pedaços, os olhos de um lado, a boca de outro, e os remonto para mostrar a verdade da pessoa, não sua fotografia. Você quer o grito das estrelas; eu quero a estrutura do grito."
O prelúdio de Debussy se desfez em um acorde final, e o silêncio do café pareceu pesar entre eles. A jovem do caderno parou de desenhar, ouvindo, sem perceber, a aula de filosofia que se desenrolava.
"Estrutura!" Vincent exclamou, batendo com o dedo na mesa de madeira. "Sua estrutura é um teatro, uma máscara. Meu coração é o teatro. Pintei 'Os Comedores de Batatas' com as mãos calejadas daqueles que as plantaram. A crítica os chamou de grotescos. Eram humanos. Mais humanos do que suas figuras de olhos tortos, que parecem rir da própria existência."
Picasso inclinou-se, o absinto já tingindo seus lábios de verde.
"Eu rio, sim, Vincent. Rio da tragédia de ser homem. Minhas mulheres com dois narizes não são um erro; são um triunfo. Mostram que a visão é limitada. Eu liberto a forma da prisão do olhar. Um guerreiro ibérico, uma máscara africana, um rosto cubista. Tudo é a mesma fome: a de reinventar o mundo. Você quer acrescentar ao mundo, eu quero desmontá-lo e ver como ele funciona."
O senhor Almeida, por um instante, ergueu os olhos do jornal, fitando os dois com uma curiosidade que logo se transformou em desdém. Balançou a cabeça e voltou a ler as notícias de um mundo que ele achava que entendia.
"Mas o que resta, então?", perguntou Vincent, a voz um sussurro carregado de uma dor antiga. "Eu passei fome, frio, solidão. Minha arte era minha única prece. Uma prece para ser entendido. Para conectar o que há de mais profundo em mim com o que há de mais profundo no outro. A sociedade me virou as costas, até que a febre tomou conta de mim."
Picasso ficou em silêncio por um momento, a mão girando a colher no copo.
"A sociedade, Vincent, é uma tela vazia. Ou você a preenche, ou ela te engole. Eu fui amado, odiado, temido. Fiz questão de ser. Minhas ideias não eram súplicas; eram declarações de guerra. A beleza não é um consolo, é um desafio. Eu desafiei a arte a ser mais do que um espelho, a ser um martelo."
A jovem do desenho, finalmente, ergueu o olhar. Seus olhos brilhavam. Ela desenhava um girassol, mas suas pétalas eram triângulos e suas sombras, quadrados.
Então, Vincent olhou para o desenho dela e seus olhos se suavizaram.
"Veja, Picasso", disse ele, apontando. "Ela entendeu. A flor é o sol e a geometria é sua sombra."
Picasso seguiu seu olhar e um sorriso genuíno, pela primeira vez, abriu seu rosto.
"Não, Vincent. Ela entendeu que o sol não é amarelo. O sol é a ideia do amarelo. E a ideia, meu amigo, é tudo que fica."
Nesse ponto, o disco do vitrola parou de girar. Um silêncio de agulha solta preencheu o ar. Eu coloquei a caneca de café forte na frente de Vincent e o copo de absinto na frente de Picasso. Eles não eram mais dois homens; eram duas eras, duas formas de encarar o abismo.
"O senhor tem razão", murmurou Vincent, levando a xícara aos lábios. "No fim, a ideia fica. Mas a ideia sem a emoção que a gerou é um esqueleto. Ela precisa de carne. E a carne é feita de suor e lágrimas e noites em claro."
Picasso levantou seu copo.
"A emoção sem a ideia que a organiza é um grito no deserto. Ela precisa de ossos. E os ossos são feitos de estrutura e desconstrução."
Os copos se tocaram, não em um brinde, mas em um reconhecimento mútuo do fosso e da ponte que os unia. O encontro se desfez em silêncio. Vincent saiu primeiro, olhando as estrelas que começavam a aparecer no céu crepuscular como se as visse pela primeira vez. Picasso ficou mais um tempo, observando o fundo do copo, como quem lê um oráculo no líquido verde.
Foi a lição daquela tarde: a luta de Vincent, para sentir o mundo em suas vísceras, e a de Picasso, para decifrá-lo com a razão, não eram opostas, mas complementares. Eles nos ensinaram que a beleza não está na resposta, mas na pergunta que nos move. E que a vida, como um café, é uma infusão de intensidades: o amargo e o doce, a ordem e o caos, todos se dissolvem em uma única xícara de existência.
O Café Entre Fluxos voltou ao seu murmúrio. A jovem arrancou a página do girassol cubista, com um sorriso, e a deixou na mesa. Ao guardar o pano, peguei um guardanapo de papel. Escrevi com a caneta que sempre carrego no bolso do avental, uma frase que ecoou das duas almas que acabara de ver:
"A arte é a ponte que construímos entre o que vemos e o que sonhamos; o arquiteto usa a pedra, o poeta usa o vento, mas ambos sabem que o abismo é o mesmo."




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