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A SOMBRA E O CANTO

  • Carlos A. Buckmann
  • 10 de jul.
  • 4 min de leitura

A SOMBRA E O CANTO

(Da série RETORNO AO CAFÉ ENTRE FLUXOS)

            Esta tarde que teimava em ser outono dentro do inverno, parecia ter engolido o tempo. A luz, filtrada por uma cortina de linho cru que ninguém sabia de onde viera, desenhava arabescos no assoalho de madeira gasta, e a cada rangido, uma promessa de silêncio. O ar, espesso de grãos torrados e segredos.

            Uma melodia de um alaúde antigo se derramava como mel sobre a pedra. Não uma música, mas uma memória de música, a escala frígia de algum aedo esquecido que contava, em notas, a queda de muralhas. Era a "Canção de Dafne", talvez, ou o lamento de Orfeu sem a letra. Apenas a alma.

            Uma figura de ombros largos, olhos que pareciam ter visto o sol nascer sobre uma planície em chamas, ocupava a mesa junto à janela: Homero.

            Seus dedos, grossos como raízes de oliveira, tamborilavam o ritmo das ondas sobre a mesa.

            Do outro lado da mesa, um homem mais jovem, de perfil aquilino e mãos finas, folheava um caderno de anotações com uma ansiedade quase febril: Virgílio.

            Entre eles, uma xícara de café turco, espesso como o tempo, e uma jarra de água fresca.

            Aproximei-me, pano ao ombro, o movimento que disfarça a escuta.

            “Eles querem que eu cante a fundação de um império,” disse Virgílio, sem tirar os olhos do papel, a voz tingida de uma amargura que o café não adoçaria. “Querem que eu diga que tudo foi destino. Que a guerra era justa. Que a dor... a dor de Dido, por exemplo, era necessária.”

            Homero ergueu a cabeça, e um sorriso antigo, de quem já viu todas as batalhas, brincou em seus lábios.

            “E não era?” perguntou, a voz rouca como o mar. “Eu cantei a ira de Aquiles. Não a justifiquei. Cantei-a. A fúria que faz um homem arrastar o corpo do inimigo em volta da muralha... isso não é destino. É a carne. É a escolha.”

            “Mas eu canto o que me mandam cantar,” insistiu Virgílio, fechando o caderno com um golpe seco. “Eneias carrega o pai nas costas para que Roma tenha um mito de origem. Ele abandona Creusa porque a profecia assim determina. Cada passo meu é medido pela régua de Augusto. Onde está a liberdade do poeta, Homero? A minha Musa está acorrentada ao Estado.”

            Um ruído de xícaras veio do balcão. A Sra. Elpidia, sempre de luto, sussurrava para o seu chá de hortelã, como se consultasse os mortos. Na mesa ao lado, um jovem de barba por fazer rabiscava furiosamente um papel, parando de vez em quando para olhar o teto, como se as palavras estivessem pintadas ali.

            Ouvi Homero suspirar. Um suspiro que parecia carregado de séculos.

            “Liberdade, meu caro Virgílio, é um luxo que o aedo não tem. Eu cantei o que ouvi. As velhas mulheres na praia de Esmirna, os marinheiros no cais. Eu juntei os cacos da memória. Minha obra é um mosaico, não uma estátua encomendada.”  Ele bebeu um gole de café, e seus olhos se perderam no horizonte imaginário da janela.          

            Virgílio ergueu os olhos, surpreso.

            “Então você não vê minha obra como uma traição à sua?”

            “Traição?” Homero riu, um som grave como o de um trovão distante. “A arte é filha do roubo. Você não copiou, Virgílio. Você reinterpretou. Você deu um sentido político ao meu caos.  Eu cantei a guerra. Você canta a ordem que a guerra pode criar, ainda que essa ordem seja tão frágil quanto o escudo de Hefesto. O problema não é o que você canta, é para quem você canta. Você está preso, sim. Preso à corte. Eu estava preso ao povo. Ambos são grilhões, apenas de pesos diferentes.”

            Virgílio deixou o caderno de lado e encarou o ancião.

            “E o que resta, Homero, quando o império que cantei ruir? Quando Roma for pó?”

            “Resta o canto,” respondeu Homero, simplesmente. “Resta o que você sentiu ao escrever sobre o amor de Dido. Isso não é propaganda. Isso é verdade.”  Ele inclinou-se para Virgílio. “Você tem medo de que sua obra seja esquecida porque serviu a um homem. Mas a boa poesia sempre serve a algo. E depois... ela serve a si mesma. Esqueça Augusto, meu amigo. Lembre-se de Eneias. Lembre-se do homem que perdeu tudo para ganhar um império. É a perda que importa. É a perda que nos faz imortais.”

            O café estremeceu. A música mudou para uma melodia mais suave, quase um réquiem. O jovem que rabiscava levantou-se, e sua folha de papel caiu no chão. Vi que estava escrito apenas um verso: "Canto as armas e o varão". Nada mais. Ele me olhou, pediu um café preto, bebeu de um só gole e saiu. Talvez tivesse entendido que a obra nunca está pronta.

            Mais tarde, enquanto limpava a mesa onde estiveram os dois poetas, notei que Virgílio havia deixado para trás uma folha de seu caderno. Havia uma anotação:

            "Sunt lacrimae rerum”  Há lágrimas pelas coisas, traduzi mentalmente.

            A história, pensei, não é feita de certezas, mas de lágrimas. Homero chorou pela glória passageira de Troia. Virgílio chorou pela glória forçada de Roma. E ambos nos ensinaram que a grandeza humana não está em vencer, mas em resistir ao peso do tempo.

            Servi um café para a Sra. Elpidia, que ainda sussurrava para sua xícara. No meu livro de guardanapos, escrevi:

            "O poeta não constrói impérios, apenas os desmonta, verso por verso, para ver o que há dentro."

 
 
 

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