A SEREIA QUE VEIO DO GUAÍBA
- Carlos A. Buckmann
- 20 de jul.
- 6 min de leitura

A SEREIA QUE VEIO DO GUAÍBA
(Um conto de Porto Alegre)
A noite em Porto Alegre tem um cheiro. Não é o cheiro do Guaíba, que vem fresco e salgado quando o vento sopra do sul. É um cheiro mais velho, de pedra úmida, de mijo seco nos cantos, de papelão molhado e de gordura requentada dos restaurantes que fecham suas cozinhas.
Esse cheiro é a minha casa. A minha casa é o intervalo entre as luzes dos postes e as sombras dos beirais. Me chamo Zeca. Tenho dezessete anos, e o mundo, para mim, sempre foi um grande monte de letras embaralhadas, um formigueiro de signos que não me diziam nada.
Até que ela chegou.
Cenira.
Ela tem um passo miúdo e firme, que não se intimida com os cacos de vidro da calçada. Seus olhos são da cor de um café forte, e ela carrega uma bolsa verde de lona onde carrega livros. Não livros bonitos, de capa dura, mas uns com páginas amareladas, de doar. Ela se senta no degrau da Igreja das Dores com a gente, sem nojo, e abre um desses nas suas mãos. Os outros meninos riem, chamam ela de “doutora” com uma risada de escárnio. Mas eu, eu fico quieto. Olho para as letras. Elas parecem bichos pretos, com pernas tortas.
“Vamos, Zeca”, diz ela, com uma paciência que parece vir de um poço fundo. Aponta com o dedo. “Essa é a letra ‘A’.” Parece um triângulo sem uma perna.
Cenira tem a tenacidade de quem acredita que a palavra é uma chave. Ela não nos vê como casos perdidos. Ela nos vê como portas emperradas. Todos os dias, ela volta. Todos os dias, ela insiste. Mesmo quando o frio do Minuano congela a saliva, ela está lá, com seu cachecol xadrez e sua voz de quem não desiste. Ela fala de dignidade, de direitos, de um futuro que eu nunca aprendi a desenhar. Para mim, o futuro era o próximo bolo de arroz que eu ia furtar na feira.
Mas a letra “A” se juntou à letra “M”. Depois veio o “O”. E de repente, uma tarde, diante do Mercado Público, eu consegui juntar os bichos pretos: “A-M-O-R”. Eu li. A palavra saiu da minha boca como um soluço. Cenira sorriu, e aquele sorriso valeu mais do que um prato de sopa.
Foi nesse dia que o Rasga Diabo apareceu.
Ele não anda, ele rasteja com as botas. O nome dele é um verbo e uma profecia. Rasga Diabo tem um olho de vidro que não pisca, e a mão direita sempre coça, pronta para o punho ou para a faca. Ele comanda os meninos do Largo. Nós somos os seus dedos, ágeis e invisíveis. Ele nos dá o pão e o pó branco, e nós lhe damos as carteiras dos turistas e os celulares dos distraídos. Quando ele viu Cenira me ensinando as letras, o olho de vidro brilhou como um falso sol.
“Tá virando intelectual, Zeca?” - a voz dele era um ronco de motor quebrado. “Letra é pra quem tem teto. Letra é pra quem não tem fome. Letra não põe comida na boca.”
Ele arrancou o livro da mão de Cenira e rasgou três páginas. O vento levou os pedaços para o lado da Rua da Praia. Cenira não se moveu. Ela apenas olhou para ele com aquela firmeza de quem já viu o fundo do poço e sabe que não há monstro ali que a assuste.
“Você tem medo do que ele pode aprender, disse ela, sem gritar. Porque um homem que lê, não obedece.”
Rasga Diabo cuspiu no chão. A poça de saliva brilhou no paralelepípedo como uma pequena lua. Ele me puxou pelo braço e me arrastou para o beco. Ali, no escuro que cheira a urina e abandono, ele me deu um cascudo e disse:
“Se eu te pegar com essa mulher de novo, tu vai dormir no lixo queimado. ‘Intendeu’, moleque?”
Eu entendi.
Entendi o medo.
Mas naquela noite, enquanto enrolava meu cobertor de papelão atrás do Museu Júlio de Castilhos, eu não conseguia parar de soletrar a palavra que tinha aprendido. A-M-O-R. Eu repetia ela no escuro, como um amuleto. E de repente, as letras não eram mais bichos. Elas eram fios.
E eu comecei a tecer.
Na minha cabeça, eu via o Rasga Diabo não como ele era, mas como um cão raivoso preso a uma corrente de ouro. Eu via Cenira como uma sereia que veio das águas negras do Guaíba, não para me salvar, mas para me ensinar o nome das ondas. E eu me vi, Zeca, o sem-teto, como um rei de um castelo de sombras, narrando a minha própria vida para um auditório de estrelas de asfalto.
Foi uma vertigem. A leitura abriu uma porta, mas a narrativa, aquela coisa de juntar as palavras em uma ordem que faz sentido, aquilo me arrebatou. Eu comecei a roubar livros. Não para vender. Para ler. Escondia-me no vão da escadaria da Rua Fernando Machado, e ali, com a luz trêmula de um isqueiro, de uma vela ou do fogo que nos aquecia, devorava histórias. Eu não entendia todas as palavras, mas sentia o peso delas.
Uma frase sobre a lua me fazia lembrar da lua que eu via todos os dias. Uma descrição de uma mulher triste era a descrição das prostitutas que choram nas esquinas da Voluntários da Pátria. O mundo virou um dicionário vivo. E eu, Zeca, descobri que minha aptidão não era para a leitura mecânica, mas para a transmutação. Eu era um ourives do caos. Pegava o lixo do cotidiano e forjava joias de sentido.
Passei a contar histórias para os meninos mais novos. Não as do livro, mas as nossas. Contava a história do dia em que o Rasga Diabo tentou roubar um cachorro e o cachorro mordeu a bunda dele. Contava a história da moça que largou um príncipe para viver com um lixeiro porque o lixeiro ria mais alto. Os meninos riam. E nesse riso, eu via uma centelha que Rasga Diabo não conseguia apagar.
Cenira percebeu a mudança. Ela me encontrou num domingo, sentado na calçada da Rua da Ladeira. Eu estava lendo em voz alta um trecho de um livro de viagens, mas eu modificava as paisagens. Eu colocava a Rua da Praia na Amazônia, e os navios no Guaíba.
“Você está criando, Zeca”, ela disse, com a voz trêmula. Você está contando.”
“É a única coisa que me pertence, respondi. O pão é dele, a droga é dele, o medo é dele. Mas a história, a história é minha.”
Foi o nosso último diálogo.
Rasga Diabo soube. Claro que soube. Os olhos de vidro têm ouvidos de morcego. Numa noite de chuva fina, ele me cercou com dois outros marginais no Largo da Alfândega. A água escorria pelos meus cabelos, e eu segurava um caderno velho, onde havia escrito, com letra torta de criança, o início de uma história: “Era uma vez um menino que aprendeu a ler o vento”. Rasga Diabo arrancou o caderno da minha mão.
“Isso é veneno”, rosnou, rasgando as folhas uma a uma, como quem desfolha uma flor do mal.
Ele me deu um soco no estômago. Eu caí de joelhos. A chuva lavou o sangue que eu cuspi. Ele pegou meu braço e o torceu até eu ouvir um estalo. A dor era um sino. E quando ele soltou, eu só consegui pensar em uma coisa: a última frase que eu tinha lido, “o mar é mais antigo que a terra”, e eu a repeti para mim mesmo como uma prece.
Me levantei cambaleando. Não olhei para trás. Entrei na noite, no emaranhado de ruas que conheço como as veias da minha própria mão. Sumi. Não no sentido de morrer, mas no sentido de evaporar. Virei uma lenda para os meninos. Alguns dizem que me viram na Rodoviária, outros que entrei para um circo. Mas a verdade é mais simples: eu desapareci no labirinto das letras que aprendi a amar.
Não havia mais espaço para Zeca no mundo de Rasga Diabo. Então Zeca inventou outro mundo e se mudou para lá.
Horas depois, ou talvez no dia seguinte, o tempo na rua é líquido, uma chuva mais pesada caiu. E nessa chuva, a polícia chegou. Não sei por quê. Rasga Diabo estava na boca da Rua do Rosário, negociando um papelote. Os tiros vieram como estalos de uma sessão de cinema. Ele caiu de bruços, o olho de vidro saltou e rolou até o meio-fio, onde a água o levou para o bueiro, como uma lágrima artificial.
Cenira foi ver a cena. Eu não estava lá. Mas ela me procurou com o olhar. Percorreu os vãos, os beirais, os abrigos de lona. Nada. Entre os destroços da briga, ela encontrou um pedaço do meu caderno, o único que não havia sido rasgado. Nele, com minha letra feiosa, estava escrito:
“Ela veio com um livro debaixo do braço e um sol dentro da barriga. E ensinou o menino a juntar os pedaços do céu.”
A chuva molhou a tinta, e as letras começaram a borrar, a escorrer, a virar uma mancha azul. Ela olhou para a rua vazia, para a cidade de pedra que devora seus filhos. Guardou o papel na bolsa verde. E quando o sol, tímido, começou a despontar sobre a cidade, ela viu, desenhada na névoa, a silhueta de um menino e uma história que ela mesma, agora, começava a narrar.
A história do menino que aprendeu a palavra e, por isso, ganhou o direito de não ser encontrado.




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