A FILOSOFIA É FEMININA
- Carlos A. Buckmann
- 12 de jul.
- 4 min de leitura

A FILOSOFIA É FEMININA
(Da série RETORNO AO CAFÉ ENTRE FLUXOS)
A noite caía sobre o Café Entre Fluxos como um véu de cetim azul-escuro, e o aroma de café recém-moído dançava com as notas etéreas de um “Allemande” de Bach que emergia do velho gramofone. A peça, com sua estrutura rigorosa e, no entanto, profundamente emotiva, parecia o prelúdio perfeito para o que estava por vir.
Um grupo de jovens estudantes de música, na mesa do canto, debatia a fuga como metáfora para a vida, enquanto o velho Sr. Anselmo, sempre com seu exemplar de A República em mãos, acenava para mim do balcão, pedindo seu habitual expresso.
Foi então que a vi.
Diotima de Mantineia. Não precisei de apresentações. Sua presença era uma quietude atenta, como se o mundo sensível fosse uma sombra projetada por um fogo mais alto. Vestia um manto de linho branco, mas seus olhos, esses sim, eram o portal para o mundo das Ideias.
Ao seu lado, Olympe de Gouges, com um olhar de fogo que parecia pronto para incendiar a ordem vigente. A peça de Bach, tão formal, contrastava com a energia revolucionária que Olympe exalava, uma faísca pronta para atear a pólvora da história.
Olympe, com sua caneta afiada como uma espada, foi a primeira a quebrar o silêncio.
"Diotima, você falou sobre o amor como uma escada para a beleza eterna. Mas como pode o amor verdadeiro florescer sob a tirania, quando a própria existência da mulher é uma forma de cárcere? Me pergunto, sua filosofia se aplica a nós, que nem cidadãs éramos? Meu projeto, minha Declaração, busca o reconhecimento na lei, no contrato social que nos exclui."
Diotima ouviu com a serenidade de quem compreende a dor como parte do caminho para a sabedoria.
"Minha amiga, a alma não conhece as divisas que os homens impõem. O amor, o Eros, é um “daimon”, um ser intermediário . Ele deseja o que lhe falta: a beleza, o bem, a sabedoria. Como eu disse a Sócrates, 'o amor é filósofo' , pois está sempre em busca da verdade. Sua luta por igualdade é um ato de amor filosófico, um desejo de preencher a lacuna entre o que a sociedade é e o que ela deve ser. Não é, por acaso, sua Declaração uma forma de dar à luz belos discursos sobre justiça? Afinal, 'o mortal participa da imortalidade' através do que gera, seja um filho, uma lei ou uma ideia ."
Olympe inclinou a cabeça, um sorriso irônico nos lábios.
"Belos discursos, Diotima, mas discursos que me custaram a cabeça. Os homens da minha época, e mesmo alguns de hoje, temem a inteligência feminina. Fui execrada por desafiar a divisão pública e privada, por ousar pensar que uma mulher, como uma cortesã ou sacerdotisa, pudesse ter voz na ‘polis’. Ainda sou lembrada como uma 'histérica' ou 'traidora' pelos que se beneficiam do esquecimento."
A sacerdotisa tocou suavemente a mão de Olympe.
"Conheço o preço de ser uma voz feminina no mundo dos homens. A mim, muitos negam a própria existência, dizendo que sou uma invenção de Platão, uma máscara para suas ideias . Mas se sou uma ficção, sou uma ficção que fala a verdade. O que importa é o ‘logos’, a ideia que se faz carne. Você, Olympe, é mais real do que muitos homens que caminharam pela Ágora. A peste que lutei para afastar de Atenas, você a enfrentou em sua forma mais pura: a peste da injustiça."
A música, então, mudou para um prelúdio mais melancólico, como se o próprio café suspirasse. Os estudantes de música haviam parado de discutir, ouvindo. O Sr. Anselmo, que nunca perdia uma boa lição, pousou o livro.
Olympe, por sua vez, parecia ter encontrado um novo fôlego.
"Então, a minha luta foi uma forma de ‘Eros’, um desejo de imortalidade não para mim, mas para todas as que viriam depois. Meu 'filho' mais precioso não foi um corpo, mas a minha Declaração, um projeto de sociedade onde a diferença não é sinônimo de exclusão."
"Exatamente," concluiu Diotima. "A verdadeira beleza, a que eu ensinei Sócrates a buscar, não é a de um corpo ou de uma única lei. É a beleza que se revela no vasto oceano do Belo em si, que se manifesta nas ciências, nos ofícios e, sobretudo, nas almas justas que buscam o bem comum . Sua alma, Olympe, contemplou essa beleza e gerou discursos que resistirão ao tempo."
O encontro entre as duas foi um despertar. Diotima, a sacerdotisa que via o amor como um vetor para o eterno; Olympe, a revolucionária que via a eternidade como uma conquista a ser escrita no papel e no sangue.
Enquanto o café exalava seu aroma inebriante, compreendi que suas filosofias, nascidas em mundos tão distintos, convergiam. A sabedoria que Diotima procurava na contemplação, Olympe a buscava na ação. A beleza que uma encontrava no céu das Ideias, a outra a forjava na terra da história.
O Café Entre Fluxos, naquela noite, não era mais apenas um café. Era a Ágora, era a Assembleia Nacional, era um fragmento do próprio Olimpo.
Guardei o guardanapo onde havia rabiscado:
"A verdadeira política é a política do amor, e o amor verdadeiro é sempre uma revolução."
Pois entre o sonho de uma e a luta de outra, o que restou foi a certeza de que o desejo de justiça e a busca pela verdade são, em sua essência, o mesmo e único movimento da alma que se recusa a ser cativa das sombras.




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