É PRECISO SANGRAR
- Carlos A. Buckmann
- 19 de mai.
- 4 min de leitura

É PRECISO SANGRAR (*)
(Da série A FILOSOFIA NA MPB)
A noite paulistana de Adoniran Barbosa ainda ecoa o ronco distante do trator, e os barracos de seu Narciso já viraram poeira e samba.
Mas este cronista, que percorre as esquinas do tempo, desloca-se agora para o Rio de Janeiro.
Lá, outro poeta abre a garganta. Chama-se Gonzaguinha: Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior, filho do Rei do Baião. Nasceu em 1945, no Rio, e morreu cedo, aos 46, num acidente de carro. Engenheiro de formação, mas de ofício, cantor das entranhas.
Enquanto Adoniran cantava o despejo dos pobres, Gonzaguinha cantava o despejo da alma. Não a ordem de sair do barraco, mas a ordem de entrar em si mesmo. E a crônica de hoje é sobre esse sangrar voluntário.
"Quando eu soltar a minha voz / Por favor, entenda / Que palavra por palavra / Eis aqui uma pessoa se entregando"
Entregar-se. A filosofia ocidental, de Sócrates a Derrida, sempre desconfiou da doação plena. Pois entregar-se é perder o controle, é renunciar à máscara.
Gonzaguinha inverte a lógica: a força não está em blindar-se, mas em despir-se. Palavra por palavra, como quem entrega os pertences num balcão.
Kierkegaard diria que a verdade só emerge no instante do salto subjetivo. Pois eis o salto: não cantar sobre a vida, mas cantar a vida. Vejo, naquela voz que se solta, um ato de coragem mais radical do que qualquer batalha.
"Coração na boca, peito aberto / Vou sangrando"
Sangrar, aqui, não é morrer. É viver em estado de fluxo.
Sartre escreveu que o homem é sua vida, não um palco separado dela. Quando o peito se abre e o coração sobe à boca, a dicotomia entre interior e exterior desaba. Somos aquilo que emitimos.
O sangue metafórico de Gonzaguinha é a própria existência escorrendo pela ferida do canto. Eu me pergunto: quantas vezes, ao longo do dia, fingimos que não sangramos? Quantas vezes trancamos o peito a chave? A ciclicidade da vida, no entanto, insiste em abrir nossas costuras. Uma saudade, uma queda, um amor que parte e lá estamos nós sangrando de novo, sem música para justificar.
"São as lutas dessa nossa vida / Eu estou cantando"
A filosofia encontra o existencialismo prático. As lutas não são o obstáculo ao canto; são o seu combustível. Gonzaguinha canta as lutas, não apesar delas, mas por causa delas. É a diferença entre o lamento e a celebração.
Observo transeuntes na rua: cada rosto carrega uma briga. O motorista que perdeu o emprego, a mulher que espera um exame, o menino que apanha em casa. Todos poderiam cantar. Raramente cantam. A canção, então, não é fuga; é a forma mais honesta de declarar: sim, estou na luta, e ainda assim produzo som.
"Veja o brilho dos meus olhos / E o tremor nas minhas mãos / E o meu corpo tão suado / Transbordando toda a raça e emoção"
Corpo suado. Merleau-Ponty nos lembrou que a consciência é encarnada. Não há pensamento sem carne. Gonzaguinha não é um cantor de estúdio, asséptico; ele é um corpo que transpira raça. O brilho nos olhos não é metafórico, é fisiológico, é a adrenalina da verdade. O tremor nas mãos é o preço da autenticidade.
Fico lembrando dos discursos vazios que ouvimos por aí, tão limpos, tão sem suor. A filosofia de Gonzaguinha é uma fenomenologia do suado: você só sabe que está vivo porque escorre. E a vida cotidiana, em sua repetição monótona, raramente pede que suemos por ela. O artista devolve ao mundo o suor que o mundo esqueceu de pedir.
"E se eu chorar / E o sal molhar o meu sorriso / Não se espante, cante / Que o teu canto é a minha força pra cantar"
A música atinge seu ponto mais alto. O choro não anula o sorriso; o sal da lágrima molha, mas não apaga. Nietzsche, em "Assim Falou Zaratustra", falava do “amor fati”: amar o que é necessário, inclusive a dor.
Gonzaguinha pede que o outro não se espante, mas que cante. Porque o canto do outro é a força para o próprio canto. Há uma reciprocidade quase ética: não há artista sozinho. O coro é que sustenta a voz solo.
Assim como Adoniran perguntava "como é que faz?" e a resposta vinha do coletivo, aqui a força vem do encontro. Você chora, eu canto. Eu choro, você canta. E o sal vira doce.
"Quando eu soltar a minha voz / Por favor, entenda / É apenas o meu jeito de viver / O que é amar"
Amar, finalmente. Não o amor romântico, mas o amor como modulação da existência.
Spinoza definiu o amor como a alegria acompanhada da ideia de uma causa exterior. Gonzaguinha simplifica: amar é o jeito de viver. Não é um sentimento entre outros; é a forma mesma de estar no mundo. Quando ele solta a voz, não está "expressando" amor, está amando.
A vida segue, cíclica como um disco de vinil que nunca termina. As manhãs trazem os mesmos despejos, os mesmos tratores, as mesmas ordens superiores. Mas também trazem os mesmos corpos suados, os mesmos olhos brilhando, as mesmas mãos trêmulas.
Adoniran mostrou a ferida. Gonzaguinha ensinou a sangrar com ela.
Ainda é noite em São Paulo, e o trator ronca ao longe. Mas em algum barraco que resiste, um rádio ligado toca "Sangrando". E seu Narciso, que já não tem nada, ouve e chora. O sal molha o seu sorriso desdentado. Ele, sem saber filosofia, entende: soltar a voz é o único despejo que ninguém assina.
Porque amar, mesmo sem teto, é ainda um jeito de viver.
De coração na boca, peço: por favor, entenda.
Estou sangrando.
Estou vivo.
E isso é o que tenho para entregar.
(*) Assista o clip no YouTube




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