BRASILIDADES
- Carlos A. Buckmann
- há 11 minutos
- 6 min de leitura

BRASILIDADES
(Da série RETORNO AO CAFÉ ENTRE FLUXOS)
O Café Entre Fluxos, naquela tarde, cheirava a Brasil. Não o Brasil dos cartões-postais, com palmeiras e papagaios, mas o Brasil dos fundos de quintal, das estantes empoeiradas, das conversas que não saem nos jornais.
O cheiro de café fresco misturava-se com um odor de terra molhada que vinha da rua, como se a chuva tivesse resolvido visitar o estabelecimento sem pedir licença. As mesas de madeira escura, cada uma com sua história de copos derrubados e ideias rabiscadas, sustinham pequenas luminárias cujas luzes tremiam ao ritmo das falas. As cadeiras, de palha trançada já gasta, rangiam em dialetos diferentes: umas chiando como carros de boi, outras gemendo como sinhazinhas do café.
Os personagens que frequentavam o Café naquela tarde eram novos, mas pareciam antigos. Um funcionário público da primeira república, de paletó puído e bigode caído, lia um jornal amarelado com notícias de 1910. Uma lavadeira com trouxa de roupas à cabeça parara para descansar e olhava as vitrines como quem olha para um mundo que não lhe pertence. Um vendedor de bilhetes de loteria apregoava números da sorte com a fé de quem precisa de milagres. E, no canto, um poeta de segunda categoria rabiscava versos que ninguém publicaria, mas que ele guardava como se fossem testamentos. Notei a ausência do velho anarquista.
Na vitrola, alguém colocara um disco de Pixinguinha, "Carinhoso", com aquele solo de flauta que parece um abraço. Mas, por vezes, entre uma faixa e outra, ouvia-se o som distante de uma modinha, como se o tempo também quisesse lembrar que o Brasil é feito de camadas.
A porta abriu-se e entrou Lima Barreto. Reconheci-o pela figura desleixada, pelo olhar que misturava ironia e cansaço, pela forma como segurava o chapéu como quem segura uma derrota. Trazia debaixo do braço um exemplar do "Triste Fim de Policarpo Quaresma" e, no bolso do paletó, uma garrafa de cachaça, disfarçada, mas não o suficiente. Sentou-se à mesa junto à janela, a que tem a vista para a rua, e pediu um café. "Bem quente e bem amargo", disse, com a voz arrastada de quem já discutiu com o mundo e perdeu.
Minutos depois, um novo personagem adentrou ao Café... Era Gonçalves Dias. Porte ereto, barba romântica, olhar que parecia procurar palmeiras onde só havia postes. Trazia um livro de poemas debaixo do braço, "Últimos Cantos", adivinhei, e sentou-se na mesma mesa de Lima Barreto.
Dois brasileiros deslocados no tempo não devem fingir que não se veem.
Gonçalves Dias sentou-se, colocou o livro sobre a mesa e pediu um chá. "De erva-cidreira, se tiverem", disse, com o sotaque maranhense que o exílio não conseguiu apagar.
Pixinguinha, entretanto, parecia acompanhar o diálogo. O solo de flauta de "Carinhoso" era um contraponto perfeito para o que viria.
“Lima Barreto, disse Gonçalves Dias, após o primeiro gole. Li sobre o seu "Policarpo Quaresma" no ano passado, numa publicação literária que me chegou às mãos por um amigo. De acordo com o que estava publicado, o senhor escreve com uma fúria que eu não conhecia na literatura brasileira. Uma fúria triste, se me permite.”
“Triste, sim, respondeu Lima Barreto, acendendo um cigarro. A fúria alegre é para os que ainda têm esperança. Eu perdi a minha há muito tempo, talvez no dia em que vi meu pai internado num hospício por causa da cor da pele. O senhor, Gonçalves Dias, escreveu com esperança. Os seus índios, as suas palmeiras, o seu sabiá... que Brasil era esse que o senhor viu?”
Gonçalves Dias baixou os olhos por um instante.
“Era o Brasil que eu queria ver. O Brasil que podia ser. Quando escrevi "Canção do Exílio", estava em Coimbra, longe da terra, com saudade. A saudade inventa, Lima Barreto. Ela doura o que é cinza, ela canta o que é silêncio. Eu sabia que o Brasil não era só palmeiras e sabiás, mas era nesses símbolos que eu podia juntar um povo disperso.”
“Juntar um povo? Lima Barreto riu, uma risada amarga. O senhor juntou versos, não juntou gente. O povo brasileiro continuou disperso, analfabeto, esmagado. O seu índio idealizado, o meu índio real é o que está nos hospícios, nas cadeias, nos seringais. Eu vi, Gonçalves. Eu vivi no subúrbio, no meio dos ‘homens de cor’, como dizem os anúncios. E sei que a pátria que o senhor cantou não é a pátria que eles habitam.”
O silêncio que se seguiu era pesado, mas não hostil. Era o silêncio de quem sabe que o outro também tem razão, mesmo quando discorda. Aproximei-me para servir mais café a Lima Barreto e mais chá a Gonçalves Dias. Ambos agradeceram, um com um aceno, outro com um sorriso.
“Fale-me das suas obras, pediu Gonçalves Dias. Dizem que o senhor escreveu um romance sobre um major que enlouquece de tanto amar o Brasil. O Policarpo, não é?”
“Policarpo Quaresma, sim. Um homem que acreditava no Brasil dos livros. Queria que o tupi fosse língua oficial, que o campo alimentasse a cidade, que a pátria fosse uma família. E o que ele encontrou? A chacota, a prisão, a morte. O Brasil mata os seus sonhadores, Gonçalves Dias. Mata devagar, como matou o senhor, ou depressa, como mata todos os dias nos jornais.”
“Eu também sonhei, disse Gonçalves Dias, pensativo. Sonhei com os índios heroicos, com as tabas, com a bravura primitiva. Escrevi 'Os Timbiras" para dar ao Brasil uma epopeia, uma origem nobre. Mas os índios de verdade... eu encontrei alguns, na viagem pelo Rio Negro. Eram tristes. Eram tristes como o senhor. A poesia não lhes chegava; chegava-lhes a varíola, a cachaça, a bala.”
Lima Barreto apagou o cigarro no cinzeiro e acendeu outro.
“O senhor ao menos viajou, viu. Eu nunca saí do Rio, ou quase nunca. Mas vi tudo aqui. No subúrbio de Todos os Santos, na Imprensa, nos botequins. Vi o preconceito disfarçado de polidez, a injustiça vestida de lei, a burrice coroada de sabedoria. Escrevi o ‘Clara dos Anjos’ para mostrar como uma menina negra é destruída pelo simples fato de existir. Ninguém leu, ou quem leu não se importou.”
“Importar-se... Gonçalves Dias suspirou. Eu também me importei. Quando escrevi a "Canção do Exílio", não sabia que ela se tornaria um hino, que as crianças a decorariam, que os políticos a usariam. A minha terra tem palmeiras, sim, mas também tem senzalas. O sabiá canta, mas canta sobre corpos pendurados nos troncos. A poesia esconde, Lima Barreto. A sua prosa mostra. Talvez precisemos das duas.”
O diálogo alongou-se pela tarde dentro. Falaram de projetos: Gonçalves Dias contou do seu dicionário da língua tupi, da sua paixão por catalogar o que estava a ser destruído; Lima Barreto falou dos artigos que escrevia para a imprensa, das crónicas onde tentava mostrar o avesso da cidade, dos romances que não conseguiu publicar em vida. Falaram das repercussões: Gonçalves Dias, da glória póstuma, dos versos repetidos nas escolas, da transformação do poeta em estátua; Lima Barreto, do esquecimento, dos livros fora de catálogo, da vida que se apaga como a chama de um fósforo.
A tarde avançava e os outros clientes iam saindo. O funcionário público dobrou o jornal e saiu a resmungar sobre política; a lavadeira levantou a trouxa e partiu para a lida; o vendedor de bilhetes apregoou um último número e desapareceu na esquina; o poeta de segunda categoria guardou os versos no bolso e saiu a sonhar com a imortalidade. Só eles ficaram, os dois gigantes, na mesa junto à janela.
Em dado momento, Lima Barreto riu, uma risada que terminou em tosse.
“Meu caro, o Brasil é um paciente que não sara. Muda os sintomas, mas a doença é a mesma. Hoje chamam-lhe desigualdade, ontem chamavam-lhe raça, amanhã chamarão outro nome. O que importa é que o Policarpo Quaresma continua a sonhar, e a ser desmentido. O que importa é que a Clara dos Anjos continua a ser violada, e a ser culpada.
Gonçalves Dias emendou a fala.
“Continuo a ser lido nas escolas, decorado nas festas, citado nos discursos. Mas será que me entendem? Será que entendem que a "Canção do Exílio" é um grito de quem está longe, e não um hino de quem está perto? O Brasil ainda não aprendeu a ler-se a si mesmo. Lê os versos, mas não lê as entrelinhas.”
A noite caíra completamente quando se levantaram. Lima Barreto deixou sobre a mesa a garrafa de cachaça vazia “para que lembrem que eu existi", disse, com ironia. Gonçalves Dias deixou um raminho de saudade, desses que colhera imaginariamente no Maranhão. Despediram-se com um aperto de mão demorado, dois homens que sabiam que o Brasil é um enigma que ainda não foi decifrado.
Limpei as mesas lembrando desse encontro, onde duas vozes que, mesmo do outro lado do tempo, continuam a ensinar-nos que a pátria não é a que temos, é a que fazemos.
No meu livro de guardanapos, onde registro as vozes que passam por este café, escrevi a frase que Lima Barreto murmurou ao sair, com voz triste, quase enraivecida:
"O Brasil não tem povo, tem público."




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