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A MÚSICA QUE MOLDOU A ARTE

  • Carlos A. Buckmann
  • há 1 dia
  • 5 min de leitura

A MÚSICA QUE MOLDOU A ARTE  

(Da série RETORNO AO CAFÉ ENTRE FLUXOS)    

            Naquela noite, o Café Entre Fluxos parecia uma antecâmara do exílio.

            As mesas de madeira escura, gastas pelo uso de filosofias milenares, sustinham pequenos candeeiros cuja luz amarelada criava ilhas de claridade num mar de sombras. As cadeiras, pelo peso das ideias que ali se assentaram, rangiam levemente quando os clientes se acomodavam, como se protestassem contra o peso dessas ideias.

            Pelas janelas de vitrais coloridos, filtrava a luz da cidade lá fora, uma cidade que podia ser qualquer cidade, mas naquela noite era decididamente uma cidade de exilados, dessas onde a névoa esconde mais do que revela.

            Os frequentadores habituais pareciam mais silenciosos. O velho anarquista, que sempre lia Proudhon, folheava agora um volume da Teoria Crítica; a jovem poetisa rabiscava versos sobre melodias partidas; o casal que discutia felicidade debatia agora se a felicidade é possível depois de Auschwitz.

            Na vitrola, alguém colocara um quarteto de cordas de Schönberg, a música atonal, com os seus silêncios angustiados e as suas notas que parecem procurar uma tonalidade perdida. Era a música certa para um encontro entre dois homens que viveram o desterro e pensaram a crise da cultura.

            Pela porta entrou Theodor W. Adorno. Reconheci-o pelo olhar miúdo atrás dos óculos de aro fino, pela expressão de quem vê o mundo como um sistema de mediações a ser desmontado, pelo cigarro permanentemente aceso entre os dedos. Trazia um livro debaixo do braço, a "Dialética do Esclarecimento", pensei, e um ar de quem não espera encontrar compreensão em parte alguma. Sentou-se à mesa junto à estante de filosofia e pediu um café. "Curto e forte, como a crítica", disse, com o sotaque carregado do alemão que o exílio não conseguiu apagar.

            Minutos depois, outro vulto se materializou. Era Thomas Mann. Reconheci-o pela postura ereta, pela elegância contida, pelo ar de quem carrega o peso de uma tradição que já não sabe se deve continuar ou abandonar. Trazia um sobretudo cinzento, desses que protegem do frio, mas não da história, e sentou-se na mesma mesa de Adorno, após um breve pedido de licença.

            “O lugar está ocupado?” perguntou, com a cortesia de quem passou a vida a construir frases perfeitas.

            “Posso partilhá-lo - respondeu Adorno  indicando a cadeira vazia - dois alemães no exílio não devem sentar-se de costas voltadas.”

            Mann sentou-se, colocou o sobretudo sobre a cadeira e pediu um vinho branco. "Do Reno, se possível", disse, com um sorriso que era quase uma saudade.

            Schönberg, entretanto, parecia acompanhar o diálogo. As notas dissonantes do quarteto erguiam-se como perguntas sem resposta.

            “Theodor Adorno, disse Mann, após o primeiro gole. O homem que viu na música a alma da sociedade. Li a sua ‘Filosofia da Nova Música’ em Pacific Palisades, enquanto escrevia o Doutor Fausto. O senhor ajudou-me a compreender o que eu próprio fazia.”

            “Ajudei-o? Adorno ergueu uma sobrancelha.  O senhor, Mann, não precisa de ajuda. Precisa de interlocutores. A sua obra é um diálogo com o século. Leverkühn, o seu compositor fáustico, é a Alemanha que se perdeu a si mesma. Eu apenas mostrei os acordes.”

            Mann sorriu, um sorriso que era quase uma ruga.

            “O senhor mostrou mais do que acordes. Mostrou que a música moderna, a atonalidade, a dissonância, são o único caminho honesto depois do horror. Escrever música tonal depois de Auschwitz seria como escrever poesia lírica, uma obscenidade.”

            “Obscenidade, sim, concordou Adorno. Mas não apenas na música. Na cultura inteira. A indústria cultural, o esclarecimento que se torna mito, a razão que se transforma em dominação. Foi isso que Horkheimer e eu tentamos mostrar na ‘Dialética do Esclarecimento’. O progresso que devora os seus filhos.”

            O quarteto de Schönberg deu lugar a uma peça mais lírica, talvez um lied de Mahler. A música parecia pairar entre eles como um fantasma.

            “O senhor fala da indústria cultural, disse Mann, pensativo. Eu vivi-a de perto, em Hollywood. Os estúdios, os produtores, as estrelas. Uma fábrica de sonhos que fabrica pesadelos. Escrevi sobre isso no ‘Doutor Fausto’, mas também noutros lugares. O artista que vende a alma ao diabo em troca de genialidade e o diabo, hoje, chama-se mercado.”

            “O mercado, sim. - Adorno acendeu outro cigarro. - Mas não apenas. A cultura tornou-se mercadoria, e a mercadoria tornou-se cultura. Tudo é intercambiável, tudo é consumível. A música que se ouve nos cafés, nos filmes, nos rádios é música, mas é também sedativo. Adormece a consciência em vez de a acordar.”

            O silêncio que se seguiu era denso de reconhecimento mútuo. Dois homens, duas maneiras de olhar para a mesma catástrofe, um pela filosofia, outro pela literatura. Aproximei-me para servir mais café a Adorno e mais vinho a Mann. Ambos agradeceram com a cortesia de quem sabe que a cultura é um fio ténue num mundo de barbárie.

            “Fale-me do seu Fausto, pediu Adorno. Como nasceu?”

            “Nasceu da necessidade de compreender a Alemanha, respondeu Mann, os olhos perdidos na memória. A Alemanha que amei, que me formou, que me exilou. Leverkühn é a Alemanha: o gênio que se entrega ao diabo para alcançar o inalcançável. A sua música é a história do nosso tempo, beleza e monstruosidade de mãos dadas. O senhor ajudou-me a compor as partes musicais, lembra-se?”

            “Lembro-me. As cartas que trocamos, as longas conversas em Pacific Palisades. O senhor queria rigor, precisão. Eu queria que a música do seu Fausto fosse a música que a história merecia. Dodecafónica, sim, mas também expressionista, também trágica. A música que já não pode sorrir.”

            Mann bebericou o vinho, lentamente.

            “E o senhor, Adorno? O que escreve agora?”

            “Continuo a pensar o impensável. A ‘Dialética Negativa’, a ‘Teoria Estética’. Tento mostrar que a filosofia, depois de Auschwitz, só pode ser negativa. Não há afirmação possível, não há consolação. A arte também não consola, mas resiste. A arte autêntica é a que recusa o consolo, a que mostra a ferida sem a fechar.”

            A noite avançava e os outros clientes iam saindo. O velho anarquista fechou o volume da Teoria Crítica e despediu-se com um aceno; a jovem poetisa guardou os versos sobre melodias partidas; o casal que discutia felicidade saiu em silêncio, como se tivessem encontrado uma resposta que preferiam não ter encontrado. Só eles ficaram, os dois gigantes, na mesa junto à estante.

            Aproximei-me para lhes perguntar se queriam mais alguma coisa. Adorno pediu outro café; Mann, mais vinho. Aproveitei para perguntar:

            Perdão, mestres, mas permitam-me uma questão. Os senhores viveram o exílio, a guerra, o horror. Pensaram a cultura num tempo em que a cultura parecia ter fracassado. E hoje? Vivemos num tempo de entretenimento global, de algoritmos que escolhem a nossa música, de séries que nos contam histórias sem nos perturbar. O que sobra das vossas ideias? A indústria cultural venceu?

            Adorno riu, uma risada curta, quase seca.

            “Meu caro bartender, a indústria cultural não venceu, ela tornou-se o ar que respiramos. Já não precisamos de convencer ninguém a consumir; o consumo é a única forma de vida que conhecemos. A música que ouve neste café, o vinho que bebemos, as próprias cadeiras onde nos sentamos, tudo é mercadoria, tudo é fetiche. A minha crítica não era profecia, era diagnóstico.”

            “E eu acrescentaria, disse Mann, pausadamente, que a literatura também mudou. Escrevemos para um público que já não quer ser incomodado. Querem histórias, não verdades; entretenimento, não arte. O meu ‘Doutor Fausto’ seria hoje um fracasso de vendas. Demasiado difícil, demasiado alemão, demasiado verdadeiro.

            A madrugada aproximava-se quando se levantaram. Despediram-se com um aperto de mão, dois homens que sabiam que a cultura é o último refúgio contra a barbárie, mesmo quando a barbárie já invadiu tudo.

            Limpei a mesa, guardei os copos, pensativo. Adorno e Mann, o filósofo que viu na música a consciência do mundo e o romancista que fez da Alemanha uma metáfora do humano. Um escreveu para desmontar as ilusões; o outro, para as transformar em arte. Ambos souberam que, depois de Auschwitz, a cultura só pode ser negativa, crítica, resistente. A beleza que não incomoda é cúmplice; a arte que não perturba é traição.

            No meu livro de guardanapos, escrevi a frase que Adorno deixou sobre a mesa.

            "A tarefa da arte hoje é introduzir o caos na ordem, não o contrário."

 

 
 
 

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