top of page

É PRECISO NOMEAR

  • Carlos A. Buckmann
  • 19 de nov. de 2025
  • 3 min de leitura

É PRECISO NOMEAR

            Desde que o primeiro humano ergueu os olhos ao céu e chamou aquilo de “lua”, o ato de nomear tornou-se nossa primeira forma de domínio, não sobre a natureza, mas sobre o caos.

            Nomear é ordenar, é reconhecer, é tornar o mundo habitável.

            Damos nomes aos rios, às estrelas, aos animais, às doenças. Mas, curiosamente, hesitamos, ou recusamos, ao nomear o que mais nos constitui: nossas emoções.

            Há uma espécie de pudor ancestral diante do sentimento. Como se nomeá-lo fosse expô-lo demais, fragilizar-se, perder o controle. Preferimos dizer “estou cansado” quando estamos desesperançados; “estou com raiva” quando, na verdade, sentimos vergonha; “tudo bem” quando o mundo desaba por dentro.

            Esse bloqueio não é inocente. É uma defesa, mas uma defesa que, com o tempo, se transforma em prisão.

            Quando não nomeamos o que sentimos, não o integramos. E o que não é integrado vira sintoma.

            Daí nascem os distúrbios que assolam nossa era: a ansiedade flutuante, que não sabe de onde vem nem para onde vai; a depressão mascarada de produtividade; os surtos de irritabilidade que escondem lutos não feitos; a somatização, em que o corpo fala o que a boca se recusa a dizer.

            Psicólogos como Pierre Marty e Michel de M’Uzan identificaram esse fenômeno como “pensamento operatório”: uma forma de existência em que os afetos não são simbolizados, não são nomeados e, por isso, descarregam-se diretamente no corpo ou em comportamentos impulsivos.

            Já a psiquiatria contemporânea reconhece que a “alexitimia”, a incapacidade de identificar e descrever emoções, está fortemente associada a transtornos psicossomáticos, vícios e dificuldades relacionais.

            A psicologia humanista, com Carl Rogers, insistia que a terapia é, em grande parte, um processo de “nomeação empática”: o terapeuta ajuda o cliente a encontrar palavras para o que antes era apenas um nó no peito.

            Daniel Goleman, ao popularizar a inteligência emocional, mostrou que reconhecer, nomear e regular as emoções é tão crucial quanto raciocinar logicamente.

            E Viktor Frankl, em meio ao horror dos campos de concentração, descobriu que até no sofrimento extremo há um espaço de liberdade: o de dar-lhe um nome, um sentido, uma forma.

            A filosofia moderna, por sua vez, entende a linguagem como constitutiva da experiência.

            Wittgenstein escreveu: “Os limites da minha linguagem significam os limites do meu mundo.” Se não temos palavras para algo, esse algo não existe para nós, ou existe como sombra, como ameaça difusa.

            Merleau-Ponty via a fala não como mero instrumento de comunicação, mas como encarnação do pensamento: ao falar, damos forma ao que antes era nebuloso.

            E Foucault mostrou como os discursos dominantes determinam o que pode ser dito e, portanto, o que pode ser sentido. Nomear, assim, é também um ato político: é reclamar o direito de existir em toda a complexidade da própria subjetividade.

            É nesse encontro entre clínica sensível e reflexão filosófica que a psicofilosofia encontra seu caminho. Para ela, aprender a nomear emoções não é um exercício de vocabulário, mas de presença ética consigo mesmo.

            A psicofilosofia propõe práticas simples e profundas: escrever diários emocionais, usar rodas de conversa para expandir o léxico afetivo, praticar o “exame de consciência estoico” com perguntas como: “O que estou sentindo agora? Qual nome mais justo para isso? O que esse sentimento está me pedindo?” 

            Ela sabe que nomear não é rotular, é libertar. Porque quando digo “estou com medo de falhar”, já não sou apenas o medo; sou alguém que “vê” o medo, que pode dialogar com ele, que pode escolher agir apesar dele. A palavra cria distância e, na distância, nasce a liberdade.

            Em nossa sociedade que valoriza a performance sobre a autenticidade, o controle sobre a vulnerabilidade, essa prática é revolucionária. A psicofilosofia nos lembra que não podemos cuidar do que não nomeamos. Não podemos transformar o que não reconhecemos. E não podemos ver com profundidade o que ainda não tem nome.

            Não tenha medo das palavras.

            Procure-as. Crie-as, se preciso.

            Diga “estou perdido”, “sinto saudade do que nem vivi”, “tenho inveja, mas também admiração”, “me sinto invisível”.

            Cada nome dado é um passo para fora da sombra. 

            Porque ver com profundidade não é enxergar mais longe, é reconhecer, com coragem e ternura, o que sempre esteve dentro de nós, esperando apenas uma palavra para existir.

 
 
 

Comentários


CONTATO

Porto Alegre, RS 

​​

Tel: (51) 9 9259-6364

Skype: betobuckmann​

betobuckmann@yahoo.com.br

Nós recebemos a sua mensagem, aguarde contato.

  • LinkedIn - Círculo Branco
  • Facebook - Círculo Branco
  • Instagram - White Circle
  • YouTube - Círculo Branco

© 2023 por Hugin. Criado orgulhosamente com Wix.com

bottom of page