A AGONIA DA ESPERANÇA
- Carlos A. Buckmann
- há 1 hora
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A AGONIA DA ESPERANÇA
Confesso que sempre desconfiei da esperança. Não por desprezar seus encantos, tão doces e luminosos quanto as promessas da infância, mas por saber o quanto ela pode se transformar em cárcere.
Esperar é, por vezes, um modo elegante de adiar o inevitável, ou pior, de recusar o real. A esperança, quando excessivamente cultivada, torna-se uma ilusão bem-vestida, sentada no sofá da alma, tomando chá enquanto o mundo desaba pela janela.
Essa ambiguidade não é nova. Vem desde os antigos gregos. Conta-se que Pandora, a primeira mulher criada por Zeus, abriu uma caixa, ou um jarro, segundo traduções mais rigorosas, da qual escaparam todos os males do mundo: a dor, a guerra, a velhice, a doença, a miséria. Mas algo permaneceu preso no fundo: a esperança. Há quem diga que ela ficou retida como último consolo, uma dádiva a suavizar as dores humanas. Outros, mais céticos, mais nietzschianos, acreditam que ela permaneceu ali como o mais cruel dos males, pois nos mantém presos ao sofrimento com promessas de alívio que nunca se cumprem.
Foi Simone de Beauvoir quem me lançou esta inquietação definitiva:
“É horrível assistir à agonia de uma esperança.”
A frase, que encontrei sublinhada em um antigo exemplar de “A Força das Coisas”, me sacudiu com a força de um espelho honesto. Simone, a filósofa existencialista, escritora e ícone do feminismo do século XX, nasceu em 1908 e fez de sua vida uma revolução constante contra o papel passivo reservado às mulheres e, por extensão, a todos os que apenas esperam. Companheira de Sartre, com quem partilhou ideias e rupturas, Beauvoir desafiou convenções e escreveu como quem lança âncoras na tempestade.
Desde que li essa sentença, não consigo mais pensar na esperança como algo puro e inofensivo. É verdade que ela nos aquece nas noites frias da dúvida. É ela que sussurra, quando tudo desaba: “ainda não acabou”. No entanto, há um ponto perigoso em que a esperança se recusa a morrer, mesmo quando tudo em volta já está morto. E ali, nesse ponto, começamos a definhar com ela.
As vantagens de ter esperança são claras: ela é a faísca que acende projetos, o farol que guia navegadores perdidos, o sopro que empurra os cansados. Ela alimenta os sonhadores, inspira os criadores e consola os aflitos. Mas quando se torna morada permanente, em vez de ponte para a ação, degenera-se. Esperar demais é abdicar de agir. É como tentar atravessar o oceano esperando que a maré faça todo o trabalho.
Na vida pessoal, já me vi muitas vezes esperando: por reconhecimento, por mudanças alheias, por um momento ideal que nunca chegou.
Em sociedade, a esperança excessiva é irmã gêmea da apatia. Quantos povos esperam por justiça enquanto ela é fabricada com as mãos de poucos?
No mundo dos negócios, esperar pode ser fatal. O empreendedor que aguarda o “melhor cenário” para agir pode ver o mercado passar diante dos olhos como um trem que não para. O caminho da superação exige que se transcenda a espera e se adote a iniciativa. Individualmente, devemos transformar esperança em estratégia e movimento. Em sociedade, é necessário cultivar a cultura da ação e da inovação. Nos negócios, a expectativa deve ser acompanhada do planejamento e da execução audaciosa.
Outros pensadores também denunciaram esse engodo esperançoso.
Nietzsche dizia que “a esperança é o pior dos males, pois prolonga o sofrimento do homem”. Sêneca advertia: “A esperança é o alimento dos que sofrem.” Ambos, como Beauvoir, sabiam que a virtude da esperança só vale se andar de mãos dadas com a ação. Jean-Paul Sartre, filósofo e companheiro intelectual de Beauvoir, compartilhava desse pensamento ao afirmar que "o homem está condenado a ser livre", ou seja, livre para agir e moldar o próprio destino.
Voltando a Nietzsche, em sua obra, este rejeitava a passividade da esperança vazia, conclamando o indivíduo a tornar-se um criador, e não um espectador.
É preciso, então, converter a esperança em energia. Individualmente, devemos cultivar o que chamo de “esperança operante”, aquela que não se contenta em aguardar, mas provoca, move, transforma.
Em sociedade, temos de exigir, participar, construir, sem esperar por um “alguém” que nunca vem. E nos negócios, a chave está na ousadia de testar, errar, corrigir e seguir, porque mercado não espera sonhadores: ele premia realizadores.
Ao final, compreendo que a esperança, para não morrer em agonia, precisa realizar seu destino: ser o primeiro passo, não o último. Ser verbo, não substantivo.
E se me perguntarem o que fazer quando a esperança parece estar nas últimas, respondo com um sorriso: dê a ela uma xícara de café e ponha-a para trabalhar. E, parafraseando um certo otimista inveterado, digamos que a esperança é a última que morre, mas se depender só dela, a defunta já está marcando hora extra no caixão.




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