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VIVER É UM PERIGO

  • Carlos A. Buckmann
  • 13 de nov. de 2025
  • 3 min de leitura

Viver é um Perigo: Um Elogio da Fragilidade

            A única verdade que nos é legada “ab initio”, no limiar incerto da consciência, é a da nossa irremediável finitude.

            Viemos ao mundo sob a égide de um paradoxo existencial: a certeza absoluta, e ontológica, de que o nosso percurso converge inevitavelmente para a dissolução. Essa não é uma mera inferência, mas a condição “sine qua non” do ser.

            A filosofia, desde a antiguidade clássica, postula que o homem é um ser marcado pela morte.

            Sófocles já nos advertia que a felicidade só pode ser medida no término da vida. Mais incisivamente, a escola estoica, com Sêneca e o seu “memento mori”, não propunha o lamento, mas a meditação diária sobre a brevidade, conferindo assim urgência e valor à “vita brevis”.

            No século XX, Martin Heidegger sistematizou essa condição ao definir o ser humano como um “Ser-para-a-Morte” (Sein-zum-Tode), onde a morte não é um evento futuro, mas uma possibilidade intrínseca que estrutura, a cada instante, o próprio existir.

            É precisamente nessa perspectiva de extinção iminente que reside o perigo e, paradoxalmente, a glória da nossa trajetória.

            O poeta-cronista Vinícius de Moraes capturou essa essência com sua acuidade lírica ao sentenciar: "a gente mal nasce, começa a morrer". Se a vida é, por definição, o caminho para o seu próprio fim, então, cada inspiração e cada escolha é uma exposição calculada ao risco.

            O dilema da existência não está na negação do perigo, mas na negociação com ele. A própria alquimia do prazer, o motor que nos impulsiona, é uma balança de risco e recompensa.

            O sal, por exemplo. Este mineral vital, essência de sabor e agente de preservação, em demasia, converte-se em veneno insidioso que endurece as artérias e precipita a hipertensão. No entanto, a ausência total de sua mineralidade na culinária anula a experiência sensorial, tornando a vida insonsa e incolor.

            O açúcar, a “douceur” que acalenta a alma e fornece a energia imediata, em seu excesso crônico, engendra a diabete, essa chaga da civilização. Mas uma existência desprovida de qualquer doçura é uma amargura existencial, uma negação da alegria primária.

            O perigo se estende ao deleite intelectual e sensorial. A bebida, o néctar dionisíaco que oprime o fígado, é também o veículo da franqueza e da catarse. Se, como diz o aforismo, “In Vino, Veritas”, é na embriaguez, na quebra temporária das barreiras apolíneas da razão, que a verdade do ser se manifesta.

            E o coito, o ato supremo de afirmação da vida, carrega consigo a dupla mortalidade. O risco fisiológico de um coração demasiado fogoso em meio ao furor e, mais tragicomicamente, o risco social da lâmina do ciúme alheio, seja do namorado irado ou do marido ofendido. Contudo, sem a energia primordial do sexo e da união, não há “humanitas”, a linhagem cessa. O perigo é, aqui, a condição arché da continuidade.

            A vida vivida na extrema moderação, aquela que se resguarda meticulosamente de cada ponta de risco, que abdica do sal, do açúcar, do vinho e do amor pelo temor das suas consequências previsíveis, assemelha-se à má-fé de Sartre, uma fuga da liberdade de ser. O indivíduo que evita o perigo e os excessos necessários ao gozo da vida já está, na verdade, morto em vida, aprisionado numa antecâmara estéril da existência.

            A intensidade é a métrica da autenticidade.

            Vivamos, pois, não com um brado de desespero cético, mas com um convite a um amor fati nietzschiano. Viver é um perigo, sim, mas é no perigo, no confronto franco com a nossa fragilidade e com as consequências dos nossos prazeres, que reside a única chance de uma existência plena.

            O convite final é à consciência do risco, e não à imprudência.

            Que bebamos o vinho, que temperemos a comida, que busquemos a doçura e que amemos apaixonadamente, mesmo que o fígado proteste e que as convenções sociais espreitem.

            Pois, ao abraçarmos o perigo de viver com olhos abertos, garantimos que a nossa finitude não será a marca de uma vida desperdiçada, mas sim o selo de uma experiência vital intensa e verdadeira. Aceitar a fragilidade é a forma mais robusta e positiva de se estar vivo.

Beto Buckmann

Crônicas entre ideias e pólvora

 

 
 
 

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