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UMA MANHÃ SOBRE A ETERNIDADE

  • Carlos A. Buckmann
  • 18 de jul. de 2025
  • 4 min de leitura

UMA MANHÃ SOBRE A ETERNIDADE

            A ideia nasceu num momento em que o tempo escorregava pelos olhos como uma lembrança sem nome. Eu, cronista de ofício e dúvida, caminhava por ruas comuns até que, num lampejo entre dois pensamentos dissonantes, um sobre Spinoza e sua substância infinita, outro sobre Machado e sua ironia finita, a inspiração me atravessou como um raio filosófico.

            Talvez, pensei, haja um lugar onde esses pensamentos possam se encontrar sem brigar.

            Um território neutro entre o devir e o silêncio. Um ambiente onde as ideias se sirvam quentes, os paradoxos venham em xícaras de porcelana, e os pensadores se sintam à vontade para discordar com elegância. Um café, claro. Mas não um café qualquer: um café que só existe quando o pensamento exige companhia.

Foi assim que nasceu o Café Entre Fluxos.

            Instalei mesas que rangem verdades. Cadeiras estofadas com dúvidas bem formuladas. Uma estante de livros que nunca se repetem. E uma tabuleta na porta que diz:

“Aberto quando o tempo para de fazer sentido.”

            Naquela manhã inaugural, o céu tinha a cor exata da metafísica. Vesti meu melhor colete (o que guardava epifanias no bolso) e abri a porta com mãos ligeiramente trêmulas.

            Coloquei a chaleira sobre o fogo, organizei os guardanapos com frases de Heráclito e versos de Borges, e preparei o ambiente para o que seria, talvez, o encontro mais improvável já registrado por uma consciência desperta antes das quatro da manhã.

            Spinoza, com sua serenidade pragmática e geométrica.Borges, sisudo, com seus labirintos letrados em espiral.Machado de Assis, com sua ironia afiada como faca de cortar silêncio.

            Eu, o anfitrião, tremia um pouco. Não por medo, mas pela reverência que se deve ter diante da eternidade, ou pelo menos, diante de quem ousa falar sobre ela.

            Nervoso pelo inusitado, já havia servido o primeiro café, o da expectativa.            Agora, com o pensamento viajando a mil pela galáxia, aguardava os passos no chão de madeira filosófica.Cada ranger era uma possibilidade.Cada xícara, uma pergunta.

            A manhã estava pronta. E os convidados começavam a chegar...

            O sino sobre a porta tilintou, não como quem anuncia um cliente, mas como quem desperta o tempo.

         Spinoza foi o primeiro a chegar. Vinha como quem já estava lá. Trazia o olhar sereno de quem não espera nada, exceto a verdade. Sentou-se sem pedir nada. Disse que o chá já havia sido servido, pois “na eternidade, tudo o que é necessário, já é.” Abriu um caderno com encadernação de silêncio e começou a escrever sem pressa.

         Borges apareceu em seguida, vindo de um corredor que nunca construí. Ele parou, olhou ao redor e sorriu.

            - "Já estive aqui antes, não estive?"

            - “Depende do ponto onde o tempo dobra”, respondi com um sorriso nervoso.

            - “Ah… o Café Entre Fluxos. Só mesmo um lugar assim para reunir quem nunca se encontrou... e quem sempre esteve junto.”

            Ele trouxe um livro. Nele havia apenas uma palavra: eternidade. Mas em centenas de idiomas.

         Machado de Assis chegou por fim, pontual no atraso elegante. Tinha um olhar malicioso, como quem já conhecia o final da conversa antes do primeiro gole. Pousou sua bengala, ajeitou o colarinho e pediu um conhaque, mesmo sendo manhã.

            - “Dizem que a eternidade começa cedo. Mas eu prefiro que ela me encontre lúcido e bem-humorado.”

            A conversa começou com Spinoza servindo-se de um silêncio filosófico.

            - “A eternidade não é um tempo sem fim... é o modo como a alma percebe o infinito no agora.”

Machado olhou para o chá dele e comentou:

            - “Se a eternidade se serve quente, ela já é mais gentil do que muita gente neste mundo finito.”

            Borges folheava seu livro enquanto falava:

            - “A eternidade é como uma biblioteca. Incompleta, mas com livros que nunca acabam.”

Spinoza sorriu discretamente:

            - “E cada livro é uma manifestação da substância única que nos une. Inclusive este chá.”

            Machado serviu-se de ironia:

            - “Pois eu creio que a eternidade é como o governo: muito se fala dela, poucos sabem para que serve.”

            Borges, sem perder a gentileza poética:

            - “Talvez sirva apenas para que o tempo tenha onde descansar.”

Silêncio. A manhã se curvou ligeiramente.

            Spinoza fechou seu caderno. Borges fechou seu livro. Machado não fechou nada, apenas os olhos, em contemplação breve.

Antes de partirem, deixei uma frase rabiscada no guardanapo:

            - “Se a eternidade nos visita numa manhã, que ela venha com chá, livros, ironia, e tempo suficiente para não ter pressa.”

            Quando fui limpar a mesa, percebi que Spinoza havia deixado o chá intacto. Borges esqueceu seu livro dentro de outro livro. E Machado... pagou a conta com uma nota de cruzeiro antiga e um bilhete que dizia:

“A eternidade não dá troco.”

            Conclusão? No Café Entre Fluxos, até o tempo parece rir por dentro.

 

 
 
 

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