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UMA LUZ UM TANTO TRISTE.

  • Carlos A. Buckmann
  • 30 de ago. de 2025
  • 4 min de leitura

UMA LUZ UM TANTO TRISTE.

            Seis horas da manhã. A primeira claridade do sol penetra tênue, dourada, e não sei por que, me pareceu uma coloração triste, se isso é uma imagem possível. Então o sinal de mensagem tocou no meu celular. Notícia do G1, Morreu Luís Fernando Veríssimo. Entendi a tristeza das primeiras luzes da madrugada.

            Junto com a tristeza que senti, veio a razão de saber que havia sido melhor assim. Internado há três semanas no hospital, não vivia mais. Apenas sobrevivia. Não quero falar aqui de seus problemas de saúde, quero sim, lembrar do quanto ele influenciou a minha vida, de quanto ele me contagiou com seus personagens.

            Ed. Ed Mort. Assim imitando a apresentação de James Bond, Bond, James Bond, seu detetive particular me fazia rir a cada aparição.      Surgido originalmente como uma tira de jornal nos anos 1980, Ed Mort é um detetive particular desengonçado, pessimista e sempre envolvido em casos absurdos, que refletem com sarcasmo os dilemas da vida moderna. Apesar de seu nome lembrar os clássicos heróis de noir, como "Dick Tracy" ou "Mike Hammer", Ed Mort é o oposto do detetive durão: ele é inseguro, procrastina, tem crises existenciais e vive se queixando da falta de glamour em seu trabalho. Através dele, Veríssimo fazia uma crítica inteligente ao consumismo, à violência urbana e às convenções sociais, tudo temperado com um humor fino e absurdo. Ed Mort se tornou um ícone da cultura brasileira, representando o anti-herói contemporâneo, tão cômico quanto reflexivo.

            Nos ANOS DE CHUMBO, que vivemos durante a ditadura militar, criou uma personagem única: A Velhinha de Taubaté, surgindo inicialmente em crônicas e charges como uma figura aparentemente inofensiva, mas dotada de um humor negro e uma visão crítica e sarcástica sobre a sociedade. Vestida com roupas tradicionais de idosa, usando óculos e cachecol, ela se apresenta como uma senhora comum, mas suas falas revelam uma mente afiada, cínica e cheia de ironia.  Por trás da aparência frágil e simpática, a Velhinha de Taubaté desmonta hipocrisias, questiona valores morais e religiosos, e comenta com humor ácido temas como morte, política, religião e comportamento humano. Seu humor, muitas vezes politicamente incorreto, serve como um espelho distorcido da realidade brasileira, expondo verdades incômodas com a liberdade que a idade fictícia lhe concede.  Veríssimo usava a personagem para provocar o leitor, misturando o cômico com o reflexivo. A Velhinha não é apenas uma velha maluca, ela é uma crítica social mascarada de ingenuidade, um exercício de liberdade de expressão que desafia o politicamente correto com inteligência e humor. Em suas falas breves e contundentes, reside a genialidade do autor em transformar o cotidiano em sátira fina e provocadora.

            É importante esclarecer que a Velhinha de Taubaté não acreditava necessariamente no governo militar do Brasil (1964–1985), pelo contrário, seu humor muitas vezes satirizava justamente o tipo de pensamento conservador, autoritário ou acrítico que pode sustentar regimes ditatoriais.

            Quando a Velhinha dizia frases como "O povo não sabe o que quer, por isso precisa de um ditador", ou elogia a "época em que se respeitava a autoridade", não estava falando sério, estava imitando um certo discurso conservador com intenção crítica. O humor está justamente na contradição entre a aparência inofensiva da velhinha e a dureza ou radicalismo do que ela dizia.

            Como desenhista, era tão ruim ou até pior que eu, o que é muito difícil, pois às vezes não consigo nem traçar uma reta com auxílio de uma régua. Mesmo assim, ele criou suas “cobras”. Ah, que cobras maravilhosas, mesmo mal desenhadas. Talvez por isso a sua beleza.

            Uma das tirinhas mais famosas criadas por ele, lançada originalmente nos anos 1980, a série retratava um grupo de cobras que viviam em um cenário aparentemente simples, uma árvore e seu entorno, mas que discutem temas profundos, existenciais e filosóficos com um humor fino, irônico e muitas vezes absurdo. Apesar da aparência de animais primitivos, as cobras falam, raciocinam e debatem sobre a vida, a morte, o amor, a religião, o trabalho e as contradições humanas. Eram COBRAS FILOSÓFICAS, com personalidades distintas: há a cética, o sonhador, o conformado, o moralista, perfis que representam diferentes formas de encarar o mundo. Através desses diálogos curtos e inteligentes, Veríssimo transforma o simples em profundo, usando o humor como ferramenta de reflexão. O fato de serem cobras, animais frequentemente associados ao mal ou à tentação, adiciona uma camada de ironia: justamente quem é visto como vilão oferece insights lúcidos sobre a condição humana.

            Claro, seu personagem mais representativo para nós, gaúchos, foi o ANALISTA DE BAGÉ, criador da TERAPIA DO JOELHAÇO, que surgiu como uma sátira ao mundo da psicanálise e à cultura terapêutica. Apresentado em formato de crônicas e charges, o personagem é um analista (psicoterapeuta) que atende em Bagé, cidade do interior do Rio Grande do Sul, e se caracteriza por interpretações psicanalíticas exageradas, absurdas e sempre prontas para encontrar simbolismos profundos em qualquer gesto ou fala do paciente. Com uma linguagem rebuscada e um ar de superioridade intelectual, o Analista de Bagé transforma situações cotidianas, como esquecer uma chave ou escolher um sanduíche, em dramas inconscientes carregados de culpa, repressão e conflitos edipianos. Seu nome, que combina um título pomposo com uma localidade periférica, já é parte da piada: ironiza a disseminação da psicanálise como discurso onipresente e muitas vezes descontextualizado. Por trás do humor, Veríssimo critica a medicalização da vida, o uso excessivo de jargões psicológicos e a tendência de “patologizar” tudo o que é humano. O Analista de Bagé, com suas interpretações forçadas, mostra como a razão pode ser distorcida em nome de uma falsa profundidade. Mais do que rir da psicanálise, o personagem nos faz rir de nós mesmos, de nossa busca constante por significados, de nossas neuroses e da maneira como tentamos explicar o inexplicável. É mais um exemplo do humor inteligente e crítico que marcou a obra de Veríssimo.

            Suas obras venderam mais de cinco milhões de unidades: O Senhor Embaixador (1970), O Clube dos Anjos (1977), O Fantástico Mistério de Feiurinha (1986) conto longo/fábula moderna, O Bobo (1994), A Última Crônica (1999), O Comediante (2003), O Filho Eterno (2004) e mais dezenas de outros.

            Essa crônica sequer faz jus a grandiosidade da obra de Veríssimo, mas justifica a tristeza desse sol que iluminou nossa Porto Alegre, hoje um pouco mais Porto Triste.

 
 
 

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