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UMA CRÔNICA "LITEROSARCÁSTICA"

  • Carlos A. Buckmann
  • 24 de jun.
  • 4 min de leitura

UMA CRÔNICA "LITEROSARCÁSTICA"

            O Café Entre Fluxos hoje cheira a café torrado na hora, tabaco de charuto esquecido em alguma memória e um leve riso contido, o tipo que vem depois de uma verdade tão dolorosa que só se pode soltar em gargalhada.

            Na mesa do fundo, onde as cadeiras já viram mais ironias do que discursos políticos, sentam-se dois homens que nunca precisaram gritar para serem ouvidos. Basta sussurrar uma piada, e o mundo desmorona.

            Luís Fernando Veríssimo, com seu casaco de tweed que parece ter sido costurado com sarcasmo e cotonete, bebe um café com leite, “não por gosto, mas por conveniência social”, diz ele. Ao lado, Mark Twain, de colete desabotoado, chapéu de palha ainda na cabeça (porque “o sol da América não morreu, só mudou de continente”), sorve um “cortado” com açúcar mascavo, “para lembrar que mesmo a doçura tem um preço”.

            Um jazz lento, quase imperceptível: “I’ve Got You Under My Skin”, mas tocada por um saxofone que erra deliberadamente as notas. Como se o universo estivesse fazendo piada consigo mesmo.

            Servi os cafés. Não perguntei como queriam. Já sabia.

            “Você escreve sobre o Brasil, disse Twain, olhando para Veríssimo com aquele olhar que já viu tudo e ainda assim duvida, e eu escrevi sobre a América. Mas ambos escrevemos sobre homens que fingem ser civilizados… enquanto roubam, mentem e se acham superiores por usarem gravatas.”

            Veríssimo sorriu, sem mover os lábios. 

            “É mais fácil fazer um brasileiro acreditar que é moderno, do que convencê-lo que está sendo enganado, Ele pausou. Nós inventamos a burocracia como arte performática. A nota fiscal é nosso ritual sagrado. O imposto, nossa oração. E o cartão de crédito? Nosso rosário.” 

            Twain inclinou-se para frente, os olhos brilhando como fogo de foguete malfeito. 

            “Na minha época, diziam que eu era maldoso. Que eu ridicularizava a hipocrisia.  Eu respondia: Quando a verdade é tão absurda, só a sátira pode ser fiel.  Hoje, vocês têm redes sociais. E ninguém precisa satirizar nada.  O próprio mundo já é um meme mal escrito.”

            Veríssimo assentiu. 

            “Exato. No Brasil, o político promete algo impossível. O cidadão acredita. O jornalista ri. O algoritmo repete.  E ninguém percebe que estamos todos no mesmo ‘sketch’.   Só que agora o roteiro foi escrito por um ‘bot’.”

 

            Twain bateu na mesa, sem raiva. Com ternura. 

            “Em 1870, eu escrevi: ‘A mentira tem velocidade, a verdade tem dificuldade.’   Hoje, a mentira tem algoritmo.  E a verdade? Ela está presa num grupo de WhatsApp chamado “Desinformação é Tendência”.

            Coloquei um pão de queijo na mesa. Sem que tivessem pedido. Falei:

            Vocês dois são escritores que usam o humor como bisturi. Mas por que o humor? Porque a dor, sozinha, mata.  E a crítica, sem riso, vira discurso. E discurso… é só barulho com diploma.

            Veríssimo pegou o pão de queijo. 

            “O riso é a última forma de resistência passiva.   Quando você ri de quem te oprime, você o priva do poder de ser sério.  E isso… é revolucionário.  Porque revolução não é barricada. É silêncio após uma piada que ninguém entendeu… exceto você.”

            Twain bebeu o último gole. 

            “Na minha terra, eles me chamavam de ‘o homem que ria enquanto o país queimava’.  Mas eu não ria do fogo. Ria do jeito que as pessoas fingiam que não estava queimando. Assim como vocês riam do caos administrativo. Da corrupção disfarçada de ‘reforma’.   Do governo que promete transparência… e entrega um formulário em triplicata.”

            E então, como se o tempo tivesse se cansado de ser linear, um jovem de mochila digital entrou, tirou um selfie com a parede onde está escrito: “Sarcasmo é a linguagem dos que ainda acreditam que o mundo pode melhorar, mesmo sabendo que não vai.”

            Veríssimo observou. 

            “Veja. O jovem quer ser visto.  Mas não quer ser entendido. Ele posta a frase.  Mas não a lê. É a nova forma de filosofia: ‘consumir a crítica sem consumi-la’. Devia consultar com meu Analista de Bagé e aprender com a terapia do joelhaço.

            Twain suspirou. 

            “Nós tínhamos livros.   Vocês têm ‘stories’.  Nós tínhamos leitores. Vocês têm seguidores. Nós ríamos para acordar. Vocês riem para dormir.”

            Silêncio.  A música parou.  O saxofone, enfim, tocou a nota certa.  Por um segundo.

            Fui até a mesa. Tirei o guardanapo sujo. E deixei outro limpo. Nele, escrevi, sem pensar:

            “O riso é a única arma que não exige munição. Só inteligência. E coragem. E hoje, os dois estão em oferta.”

            Eles saíram juntos, não por amizade, mas por compreensão. Veríssimo, voltando ao seu apartamento em Porto Alegre, onde ainda escreve crônicas à mão. Twain, entrando num trem que vai para lugar nenhum, mas que tem Wi-Fi gratuito e um monte de notícias falsas no feed.

            Fiquei sozinho. Limpei as xícaras. 

            E, na parede, onde antes havia um quadro de Picasso, agora há um adesivo colado por alguém, em letras garrafais:

            “Se você ri da sua própria escravidão… ainda tem esperança. Se você ri da escravidão dos outros… já é livre. Se você não ri… ainda não entendeu a piada.”

            E eu, barista de verdades disfarçadas de piadas, fechei o café e escrevi no meu caderno de guardanapos, com a caneta de tinta invisível, que só os “cultos” conseguem ler:

            “O riso não nega o mundo. Ele o salva, porque só quem ri, ainda se importa o suficiente para não desistir.”

 
 
 

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