top of page

UMA CRÔNICA E UM LIVRO

  • Carlos A. Buckmann
  • 13 de ago. de 2025
  • 4 min de leitura

UMA CRÔNICA E UM LIVRO.

            Sento-me aqui, como todos os dias, diante do caderno aberto e do chimarrão fumegante, um ritual tão simples, tão repetido, que já se tornou quase sagrado. O mundo lá fora corre, troveja em notificações, em urgências fabricadas, em metas que se esvaziam antes mesmo de serem alcançadas. E eu, neste canto de quietude, escrevo. Escrevo porque prometi a mim mesmo: escrever uma crônica por dia, ler pelo menos um livro por semana. Não como um dever, mas como um pacto. Um pacto com a minha própria existência.

            Há uma espécie de felicidade nisso, não aquela explosão efêmera de prazer que vem com o novo celular, o elogio casual, o vinho da sexta à noite. Não. Essa felicidade é mais silenciosa, mais funda. É a que brota do equilíbrio entre o que sou, o que faço e o que escolhi ser. Foi então que me veio à memória a frase de José (Pepe) Mujica, dita em uma entrevista concedida em 2017 ao jornalista Saul Alvídrez, um repórter mexicano, fundador do movimento “Yo soy 132”(se você não sabe o que é, dá um Google), cuja voz calma e olhar atento parece feito para ouvir filosofia disfarçada de política: “A felicidade não equivale ao prazer, a felicidade equivale ao equilíbrio de sentir que se está cumprindo com alegria e vontade aquilo com que se comprometeu.”

            Mujica, o ex-presidente do Uruguai que vivia numa chácara humilde, e um jardim que cultivava com as próprias mãos, disse isso como quem desmascara um equívoco coletivo. Vivemos obcecados com o prazer, o consumo, a velocidade, a novidade. Mas o prazer é um convidado efêmero. A felicidade, ao contrário, é uma moradora. Ela se instala onde há propósito, onde há coerência entre o que se diz, o que se faz e o que se é.

            Penso em meu pequeno projeto de crônicas e livros. Não é grande coisa, não mudará o mundo, ou talvez mude, em alguma frequência sutil, como o vento que move uma folha e, sem saber, desencadeia uma corrente de ar. Mas o que importa é que estou aqui, fiel ao que me propus. E nisso, há equilíbrio. Há sentido. Há, sim, felicidade.

            Essa ideia ecoa em outras vozes. Viktor Frankl, sobrevivente de Auschwitz, escreveu que o homem não busca o prazer, mas o sentido. E quando encontra um "porquê" para viver, suporta quase qualquer "como". Também Sêneca, o estoico, lembrava que “não é porque as coisas são difíceis que não ousamos, mas porque não ousamos, as coisas são difíceis”. O compromisso, assumido com vontade, transforma o fardo em missão. O trabalho, então, deixa de ser mera sobrevivência e se torna ato de autorrealização.

            Na vida em sociedade, essa filosofia é revolucionária. Imaginem um mundo onde cada um não busca apenas o que o satisfaz, mas o que o completa, onde o político cumpre seu mandato não por vaidade, mas por vocação; onde o professor ensina não por salário, mas por amor; onde o artesão molda o barro não para vender, mas para dizer algo verdadeiro. Seria um mundo menos barulhento, talvez, mas infinitamente mais humano.

            Vamos imaginar um pequeno negócio, digamos, uma padaria artesanal. O dono, começou com paixão: amava o cheiro do pão assando, o ritual da fermentação natural, o sorriso dos clientes ao provar um pão de queijo feito com queijo de verdade, não de indústria. No começo, ele estava ali todos os dias, às cinco da manhã, com as mãos na massa, literal e metaforicamente. Havia um compromisso: oferecer qualidade, autenticidade, cuidado. E ele o cumpria com alegria.

            Com o tempo, o sucesso trouxe pressão. Mais clientes, mais pedidos, mais contas. O pequeno empresário começou a pensar em expandir: abrir uma filial, vender para supermercados, automatizar o forno. Aí, pouco a pouco, ele foi se afastando do que o movia. Passou a delegar tudo. Parou de entrar cedo. Deixou de cumprimentar os fregueses. O pão, agora, era mais rápido, mas menos alma. O prazer do crescimento estava lá, o número no extrato bancário, o reconhecimento local, mas a felicidade? Sumiu. Havia confundido prazer com felicidade. O prazer era o crescimento, o reconhecimento, o lucro. Mas a felicidade estava no equilíbrio entre o que ele prometera a si mesmo e o que realmente fazia. Ele não queria ser um empresário qualquer. Queria ser um padeiro que cuida da comunidade, que transforma trigo em acolhimento.

            Claro, nem tudo é perfeito. Ontem, por exemplo, tentei reler “A Ética a Nicômaco” e adormeci na terceira página. Hoje, minha crônica está atrasada porque fiquei uma hora ajudando minha esposa que está com pequeno problema de saúde. Um ato de compromisso com a vida, mas não exatamente com a produção literária. E amanhã, quem sabe, vou trocar Aristóteles por um romance, só para variar. Mas sigo aqui. Comprometido. Imperfeito. Feliz.

            Porque, no fim das contas, ser feliz não é nunca errar, nem sempre acertar. É saber que, mesmo quando tropeço, estou andando na direção que escolhi. E se um dia alguém me perguntar o segredo da minha felicidade, responderei com um sorriso:

            É simples: uma crônica por dia, um livro por semana… e o direito de um café, quando o coração pede.

 
 
 

Comentários


CONTATO

Porto Alegre, RS 

​​

Tel: (51) 9 9259-6364

Skype: betobuckmann​

betobuckmann@yahoo.com.br

Nós recebemos a sua mensagem, aguarde contato.

  • LinkedIn - Círculo Branco
  • Facebook - Círculo Branco
  • Instagram - White Circle
  • YouTube - Círculo Branco

© 2023 por Hugin. Criado orgulhosamente com Wix.com

bottom of page