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UMA AUSÊNCIA QUE NÃO SE VAI

  • Carlos A. Buckmann
  • 8 de jun.
  • 5 min de leitura

UMA AUSÊNCIA QUE NÃO SE VAI (*)

(Da série A FILOSOFIA NA MPB)

            Todos conhecem essa música e essa letra, mesmo que não saibam que foi Sérgio Bittencourt.

            “Naquela Mesa” entrou para o repertório íntimo do brasileiro, cantarolada em serestas, lembrada em velórios, evocada em tardes de domingo.

            Quem nunca chorou ao ouvir “naquela mesa tá faltando ele”? Mas o curioso é que o compositor, esse sim, continua faltando à festa da memória popular: Sérgio Bittencourt, jornalista e hemofílico, filho do grande Jacob do Bandolim, morreu aos 38 anos, quase tão jovem quanto Noel. E deixou essa obra-prima feita de uma dor que todos conhecem, mas poucos sabem de quem é.

            A relação de Sérgio com Jacob do Bandolim era feita de amor e silêncios, de admiração e distância. Jacob Pick Bittencourt, mestre do choro, compositor de “Noites Cariocas” e “Assanhado”, foi um pai genial, mas genialidade e presença nem sempre andam juntas. Sérgio cresceu ouvindo as rodas de choro, vendo o pai brilhar entre amigos, mas também sentindo a ausência de quem vive para a arte. A música, dizem, foi escrita num guardanapo, no dia da morte de Jacob, em 1969. O filho, jornalista de ofício, transformou o velório em poesia. E o guardanapo virou hino.

            Por que essa canção dói tanto?

            Porque ela não fala de grandes tragédias, mas de uma mesa. Um objeto. Um móvel que, de repente, se torna o centro do mundo e depois o centro da falta. A filosofia da MPB está aí: no cotidiano elevado à categoria de pensamento. Bittencourt, como todo grande letrista, sabia que as grandes perguntas não se fazem no púlpito, fazem-se à mesa, depois do café, com o bandolim apoiado na parede.

            “Naquela mesa ele sentava sempre / E me dizia sempre o que é viver melhor”

            O advérbio “sempre” aparece duas vezes, como se o poeta quisesse fixar na linguagem o que a morte desfez na vida. Sentar-se à mesa para “dizer o que é viver melhor” é um ato socrático: a filosofia como conversa cotidiana, como transmissão oral de sabedoria.

            Quantos de nós tivemos uma mesa assim? Um pai, uma mãe, um avô que, entre um gole de café e outro, nos ensinavam sem saber que estavam filosofando. A mesa, nesse verso, não é mobília: é cátedra.

            “Naquela mesa ele contava histórias / Que hoje na memória eu guardo e sei de cor”

            A memória é o único túmulo que resiste. Bittencourt não diz “guardo na mente”, diz “guardo no coração”. É a memória afetiva, lembrar como ato de presença. O filho “sabe de cor” as histórias do pai e esse “de cor” é literal: as histórias estão gravadas não no córtex, mas no músculo da saudade.

            A verdadeira narrativa morre quando a experiência já não é compartilhada, diria Walter Benjamin. Bittencourt, sem saber, fez o elogio do narrador: aquele que conta para que o outro guarde. E guardar é resistir à morte.

            “E nos seus olhos era tanto brilho / Que mais que seu filho, eu fiquei seu fã”

            Uma virada psicológica profunda. O filho não apenas ama, admira. O brilho nos olhos do pai não é afeto doméstico; é genialidade, é arte, é transcendência. Sérgio não diz “fui seu filho”, diz “fiquei seu fã”. O verbo “ficar” é o verbo da decisão, da escolha consciente. Ele não herdou a admiração; ele a conquistou. E ao fazê-lo, transformou a filiação biológica em filiação espiritual. Nietzsche diria: escolheu seu mestre. E o mestre, por acaso, era seu pai.

            “Eu não sabia que doía tanto / Uma mesa no canto, uma casa e um jardim”

            A dor que vem dos objetos é a mais cruel, porque os objetos não deveriam doer. Uma mesa é apenas madeira. Uma casa, tijolos. Um jardim, plantas. Mas quando o pai se vai, tudo isso ganha uma dimensão nova: a dimensão da ausência.

            A mesa que era âmbito de encontro vira “mesa no canto”. A casa vira invólucro. O jardim vira paisagem morta. De repente, o mundo se torna opaco, as coisas deixam de ter sentido. Bittencourt fez filosofia existencial em quatro versos.

            “Se eu soubesse o quanto dói a vida / Essa dor tão doída não doía assim”

            O poeta afirma que, se soubesse o tamanho da dor, ela não doeria tanto. Ora, isso contraria a lógica: saber deveria preparar, não amplificar. A dor não é apenas sensação, é também surpresa. A consciência da finitude não elimina o choque da perda. O que Sérgio diz, na verdade, é que nenhum saber prévio nos livra do espanto. O estoico idealiza a “ataraxia”, a imperturbabilidade diante do destino. Bittencourt, mais honesto, admite que a imperturbabilidade é uma ficção. A vida dói. Sempre dói. E saber que dói não torna a dor menor. Torna-a, paradoxalmente, maior.

            “Agora resta uma mesa na sala / E hoje ninguém mais fala no seu bandolim”

            O silêncio é o verdadeiro personagem desta estrofe. Não há gritos, não há lamentos: há “ninguém mais fala”.

            O bandolim, instrumento que dava voz ao pai, tornou-se mudo. “O silêncio é a verdade da arte em tempos de barbárie”, escreveu Adorno. Aqui, o silêncio é a verdade da ausência. O objeto que um dia produziu choro (gênero musical) agora produz choro (lágrimas). E a mesa, que antes era altar de histórias, virou apenas um móvel. A linguagem falhou. Resta o vazio.

            “Naquela mesa tá faltando ele / E a saudade dele tá doendo em mim”

            E a canção se fecha como começou: com a mesa. Mas agora a mesa não é mais cátedra, não é mais altar, é falta.

            “Tá faltando ele” é uma frase de uma simplicidade brutal. O verbo “faltar” é o verbo da ausência encarnada. Não é “ele morreu”, não é “ele se foi”. É “está faltando”. Como se o lugar estivesse vazio, mas o vazio fosse uma presença negativa.

            A saudade “dói”, e a dor é prova de que o amor foi real. Não se sente falta do que não se amou. Bittencourt, nesse verso final, não pede consolo. Ele apenas constata: o pai não está mais ali, mas o amor que sentia por ele transformou-se em dor.

            A dor, por mais cruel que seja, é a única coisa que ainda os conecta.

            Todos conhecem essa música, mesmo que não saibam quem foi Sérgio Bittencourt. O guardanapo rasurado no velório do pai virou patrimônio imaterial do Brasil. Jacob do Bandolim, que partiu em 1969, continua vivo cada vez que alguém canta “naquela mesa ele sentava sempre”.

            E Sérgio, que o homenageou com esse epitáfio cantado, também partiu dez anos depois, mas deixou uma lição filosófica que nenhum tratado ensina: os objetos só têm alma quando são compartilhados. A mesa sem o pai é apenas madeira. A casa sem a memória é apenas parede. O bandolim sem a mão que o dedilhava é apenas madeira e cordas. Mas a canção...  ah, a canção, é a prova de que o amor consegue, sim, vencer o tempo. Não para sempre, mas o suficiente.

            O suficiente para que, nesta tarde em que escrevo, eu olhe para minha própria mesa vazia e imagine que, em algum lugar, Jacob e Sérgio ainda estão sentados, um tocando bandolim, o outro escrevendo versos em guardanapos.

            A saudade, essa velha conhecida, já não dói tanto. Dói apenas o bastante para eu saber que estou vivo.

(*) Assista o clipe no YouTube:

 

 
 
 

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