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UMA AMIZADE LITERÁRIA

  • Carlos A. Buckmann
  • há 6 dias
  • 4 min de leitura

UMA AMIZADE LITERÁRIA

(Da série RETORNO AO CAFÉ ENTRE FLUXOS)

            O destino, quando quer pregar uma peça no tempo, escolhe cenários improváveis. No Café Entre Fluxos, onde as xícaras costumam testemunhar encontros de almas anônimas, o acaso resolveu sentar dois gigantes lado a lado. A tarde caía sobre as mesas de madeira como um véu dourado e, na vitrola, alguém colocara um fado de Amália Rodrigues. Era a música perfeita para um encontro entre a prosa salgada do Atlântico e a prosa morna e densa do Recôncavo.

            A porta rangeu e entrou José Saramago. Reconheci-o pelo olhar miúdo, mas profundo, daqueles que enxergam o avesso das coisas. Escolheu a mesa junto à estante de poemas e pediu um café. "Curto e amargo, como a vida", disse, com um sorriso que era quase um vinco na pele.

            Mal terminou de acomodar-se, a campainha soou novamente. Era Jorge Amado. A barba branca e o sorriso largo vieram na direção da mesa de Saramago. Pediu licença com um sotaque que ainda trazia a cadência das ruas de Salvador. "Claro, sente-se", respondeu o português, erguendo os olhos. E então, um silêncio breve, o reconhecimento.

            “Não é possível”, murmurou Jorge Amado.  “O senhor José Saramago!”.

            “E o senhor Jorge Amado! Sente-se, por favor. O destino, ao que parece, é um barista canhoto. Preparou-nos este encontro.”

            O fado deu lugar a um choro de Pixinguinha, como se o Brasil saudasse aquele instante. Preparei-lhes dois cafés especiais e aproximei-me para servi-los, mas recuei. A conversa que se iniciava não era para ser interrompida, apenas ouvida.

            “Li ‘Memorial do Convento’ três vezes”, disse Amado, acendendo um cigarro. “A primeira, encantei-me com a história. A segunda, com a revolução. A terceira, com a humanidade de Blimunda. Aquela mulher que via por dentro das pessoas. Era disso que o mundo precisava, não acha? De alguém que visse o que está por dentro.”

            “Talvez”, respondeu Saramago, segurando a xícara com as duas mãos.   “Mas o problema é que as pessoas insistem em não querer ver o que têm dentro. Preferem a cegueira. Foi sobre isso que escrevi, anos depois. Uma cegueira branca, limpa, que não é ausência de visão, mas excesso de luz. Uma metáfora para a nossa incapacidade de enxergar o outro.”

            Amado sorveu o café e olhou para o teto, como se procurasse as palavras nos caibros.

            “Eu também tentei mostrar o povo. Em ‘Capitães da Areia’, aqueles meninos de rua, marginalizados, mas cheios de vida. O Pedro Bala, o Professor, a Dora... Eles eram a resistência. A sociedade da época os via como lixo, mas eu sabia, e quis mostrar, que ali havia dignidade.”

            “E há, Jorge, há. O senhor deu voz a quem não tinha. Mas eu pergunto: essa mesma sociedade de hoje, que lê seus livros nas escolas, ainda trata os meninos de rua como lixo? O paradoxo me corrói. Escrevemos para mudar o mundo, mas o mundo lê e continua o mesmo.”

            O silêncio entre eles era pesado, mas não hostil. Era o silêncio de quem carrega o peso de ter visto demais. Pixinguinha agora chorava uma melodia doce e triste.

            “O senhor tem razão”, admitiu Amado, apagando o cigarro. “Em ‘Gabriela, Cravo e Canela’, eu mostrei uma mulher que era pura liberdade num tempo de opressão. Ela cozinhava, amava, existia sem pedir licença. E hoje? As mulheres ainda precisam pedir licença para existir. Talvez a literatura não mude o mundo, José. Talvez ela apenas mostre ao mundo o quanto ele é imundo.”

            “Não, não”, retrucou Saramago, com um brilho nos olhos. “Ela muda, sim. Mas muda devagar, como a erosão de uma pedra. Nós não veremos o resultado. O ‘Ensaio sobre a Cegueira’ não evitou novas cegueiras, mas talvez tenha acordado alguns. A literatura é uma semente jogada no asfalto. Pode não florescer hoje, mas racha o concreto.

            Foi então que, esquecendo-me do meu papel de observador, aproximei-me para renovar-lhes os cafés. Não resisti a perguntar:

            Perdão, mestres, mas e hoje? Neste tempo de telas que brilham e palavras que duram segundos, o que sobra das ideias de vocês?

            Amado riu, uma gargalhada que parecia vir do ventre.

            “Meu filho, hoje as pessoas querem ser personagens, não leitoras. Querem ter suas próprias histórias contadas em quinze segundos. Esquecem-se de que, sem narrativa, não há humanidade.”

            “E sem silêncio, não há pensamento” completou Saramago. “ Vivemos num mundo que fala sem parar, mas não diz nada. Minhas crônicas, meus romances, eram um convite ao silêncio interior. Hoje, quem tem tempo para o silêncio?”

            Eles se entreolharam, cúmplices na constatação. O café esfriava nas xícaras. Amado então falou de seus projetos, de como tentou criar uma literatura que fosse ao mesmo tempo política e sensual, que mostrasse o Brasil em sua totalidade contraditória. Saramago falou de sua "Jangada de Pedra", a Península Ibérica que se desprende da Europa para navegar à deriva. "É o que somos", disse. "À deriva, mas juntos."

 

            A conversa seguiu por caminhos tortuosos: o universo, a morte, o medo, a esperança. Amado defendia a alegria como forma de resistência; Saramago, a lucidez como único caminho. Discordavam, mas como dois rios que sabem que desaguarão no mesmo mar. Até que o relógio da parede anunciou a hora de partirem.

            Levantaram-se, apertaram as mãos. Saramago pagou os cafés; Amado deixou uma gorjeta generosa. Saíram pela porta do Café Entre Fluxos, cada um para o seu lado, levando consigo o eco do outro.

            Fiquei ali, limpando as xícaras, pensando no que ouvira. Dois homens, duas missões: um mostrou a cegueira do mundo; o outro, a alma do povo. E ambos, com suas palavras, tentaram rachar o asfalto. Talvez a literatura não mude o mundo imediatamente, mas transforma o olhar de quem a lê.

            E um olhar transformado, um dia, pode mudar tudo.

            No meu livro de guardanapos, onde anoto os encontros que o acaso me concede, escrevi a frase que Saramago deixou cair como uma última gota de café:

            “A função da literatura não é dar respostas, mas sim fazer as perguntas que ninguém tem coragem de formular.”

            E assim, o Café Entre Fluxos fechou suas portas naquela noite, guardando para sempre o murmúrio de dois gigantes que, por uma hora, foram apenas dois homens em busca de sentido.

 
 
 

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