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UM TRIO NO LIMIAR DO SER

  • Carlos A. Buckmann
  • 22 de dez. de 2025
  • 3 min de leitura

UM TRIO NO LIMIAR DO SER

            A música hoje é “The Disintegration Loops” de William Basinski, um eco lento, quase imperceptível, como o desmoronar de um átomo em silêncio. Cada nota cai como poeira cósmica sobre as mesas de carvalho envelhecido, cujas veias parecem mapas de rios pré-históricos. O ar cheira a grão torrado em fogo de estrela morta, e o vapor do café sublima antes de tocar o ar, como se até o calor recusasse ser definido.

            Eles entraram sem passos. Talvez tenham atravessado a porta da água, ou da memória. Tales, com sua túnica ainda úmida do mar de Mileto, segurava um bastão de madeira que, segundo ele, “não era um bastão, mas uma extensão do logos”. Anaximandro, mais alto, mais sombrio, trazia consigo um pergaminho que não se abria, “o Apeiron está em todos os lugares, menos aqui”, murmurou, ao sentar-se. E Demócrito, sorriso de quem já viu o invisível, esfregava os dedos como se contasse átomos na palma.

            - Você acredita que tudo é água, Tales? - perguntou Anaximandro, sem olhar para ele. 

            - Não acredito. Vejo. A água é o princípio porque tudo retorna a ela. As chuvas, os rios, o sangue... a alma também é líquida. 

            - Mas o que sustenta a água? - interrompeu Demócrito, com a voz de quem já desmontou o mundo.  Se tudo é água, então o que impede que ela se dissolva em si mesma? 

Tales sorriu, como um velho que conhece o riso da verdade. 

            - Eu não preciso explicar o fundamento. Preciso apenas apontá-lo. Como o céu aponta para a terra. 

Anaximandro inclinou-se, e seu pergaminho tremulou, como se tivesse vida própria. 

            - Vocês dois fixam algo finito. Água. Ar. Fogo. Mas o universo não nasce de nada determinado. Nasce do Apeiron, o ilimitado, o indeterminado. É dele que surgem os contrários: quente e frio, seco e úmido. Eles lutam. Equilibram-se. E assim, o cosmos se faz, não por vontade divina, mas por justiça cósmica. 

Demócrito riu, baixo, como o ruído de um elétron saltando de órbita. 

            - Justa? Não. Aleatória. Tudo é átomos e vazio. Nada mais. Nem alma, nem espírito, apenas pequenos corpos indestrutíveis, colidindo no vácuo. O fogo são átomos rápidos. A água, mais lentos. O pensamento? A dança deles na alma, que também é feita deles. 

Silêncio. A música desacelera. Uma nota se prolonga, como se o tempo tivesse vergonha de avançar. Eu servi três xícaras de café negro — sem açúcar, sem leite. Só o grão e a água. Nenhum deles tocou. 

            - E a sociedade? - perguntei, sem querer.  Em suas cidades, vocês eram loucos. Ou sábios? 

Tales olhou para mim, e vi nele o reflexo de um professor que ensinou geometria aos faraós. 

            - Me chamavam de tolo por prever eclipses. Mas não foi o céu que me revelou o futuro. Foi a ordem. A ordem que existe, mesmo quando ninguém a vê. 

Anaximandro apoiou a mão no tampo da mesa. 

            - Minha teoria do equilíbrio cósmico foi proibida pelos sacerdotes. Dizer que os deuses não criam o mundo? Era heresia. Mas a verdade não precisa de templos. Precisa apenas de observadores. 

Demócrito ergueu a xícara pela primeira vez. 

            - Eles me chamaram de “o riso filosófico”. Porque eu ria das ilusões. Do poder, da religião, da alma imortal. Minha teoria dos átomos foi enterrada por séculos. Mas hoje, - ele olhou para mim - vocês têm microscópios. E ainda assim, não acreditam. 

            Fiquei em silêncio. Pensei nos algoritmos que predizem o clima, nas partículas do LHC, nos memes que viram dogmas. Todos tentamos encontrar o princípio. Alguns buscam Deus. Outros, dados. Nós, humanos, ainda buscamos o Apeiron. Só que agora, o chamamos de “big data”.

Tales bebeu um gole. 

            - O universo é um só. 

Anaximandro:

            - E é infinito. 

Demócrito:

            - E é feito de nada. 

            Eles se olharam. Não concordaram. Mas não discutiram.  Porque, no Café Entre Fluxos, o diálogo não busca vitória. Busca ressonância.

            A música termina. O silêncio seguinte é mais pesado que o peso de um átomo.

            E eu, que sirvo cafés e escuto o inaudito, sei:

            Nenhuma teoria sobrevive à realidade, mas todas as realidades nascem de uma teoria que alguém ousou acreditar, mesmo quando o mundo ria.

            - E agora, quem quer um segundo café? 

A mesa permanece vazia. 

            Só o vapor sobe.  Como um pensamento que ainda não foi dito.

 
 
 

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