UM PÃO, UMA JARRA DE VINHO E...
- Carlos A. Buckmann
- 12 de ago. de 2025
- 3 min de leitura

UM PÃO, UMA JARRA DE VINHO E...
Há dias em que me pego diante do espelho não para ajustar a gravata, mas para interrogar a alma. O que é, afinal, uma vida que se basta em si? Não falo de riqueza, nem de glória, essas duas farsas que o mundo tanto venera, mas de uma quietude que não depende de aplausos, de títulos ou de conquistas. Uma vida que, mesmo diante do caos, sabe reconhecer o suficiente. E é nesse silêncio entre perguntas que me lembro de uma frase que atravessou séculos como um sussurro de sabedoria:
“Um pão, uma jarra de vinho e aquela pessoa.”
Omar Khayyám, sim, o mesmo que calculou o calendário mais preciso de seu tempo, o matemático persa do século XI, não foi apenas um sábio das ciências, mas um poeta do existir. Enquanto desvendava equações e mediasse as estrelas, escrevia “rubaiyats” que desafiavam a grandiosidade do universo com a simplicidade do momento. Ele, que sabia o peso dos números, escolheu celebrar o leve: um pão, um vinho, uma presença. Não por ascetismo, mas por lucidez. Khayyám via a vida como um instante fugaz, e em vez de correr atrás do eterno, propunha abraçar o presente com intensidade e modéstia.
Parece pouco, não? Um pão, uma jarra, uma pessoa. Mas quantos de nós, com nossas agendas lotadas, nossos celulares cheios de notificações, nossos armários transbordando de roupas que nunca usamos, conseguimos sentar-se à mesa com alguém e dizer: “É o bastante”?
Na vida pessoal, essa filosofia é um antídoto contra a ansiedade do mais. Vivemos em uma cultura do excesso: mais likes, mais produtividade, mais bens. Mas Khayyám nos lembra que o essencial é raramente abundante. Um pão compartilhado com quem se ama, um gole de vinho que aquece a conversa, um olhar que diz “estou aqui”; isso é o que sustenta a alma. Não precisamos de um jantar gourmet para ser felizes; precisamos de presença. De silêncios que não precisam ser preenchidos. De um “estou contigo” que não exige palavras.
Na sociedade, essa simplicidade é revolucionária. Vivemos em um mundo onde o valor é medido em números: PIB, seguidores, lucros. Mas e se medíssemos a riqueza de uma nação pelo número de mesas onde pessoas se sentam para comer pão e conversar? Se os políticos se perguntassem não “quantos votos ganhamos”, mas “quantas conexões humanas fortalecemos”? Khayyám, com seu pão e seu vinho, seria um anarquista da economia do afeto, um homem que ousa dizer que o valor não está no que acumulamos, mas no que compartilhamos.
E no mundo dos negócios? Ah, esse reino do “mais rápido, mais alto, mais longe”. Que tal um CEO que, em vez de planejar a expansão global, convoca sua equipe para um almoço simples e diz: “Hoje, vamos apenas conversar. Sobre tudo. Sobre qualquer coisa. Sobre nada.” Que empresa seria mais forte, mais humana, mais resiliente? Pois é nesse ponto que Khayyám se encontra com Seneca, que escreveu sobre a verdadeira riqueza ser a satisfação com o pouco; com Epicuro, que via o prazer não no luxo, mas na ausência de dor e na amizade; e até com Thoreau, que foi para Walden buscar uma vida “deliberada”, onde o essencial não era produzir, mas viver.
Claro, não estou pregando o abandono das ambições. Nem dizendo que devemos largar tudo e viver em tendas no deserto com pães e jarras. Mas talvez possamos, no meio do corre-corre, reservar um instante para perguntar: O que, de fato, me sacia? Talvez a felicidade não esteja em ter tudo, mas em reconhecer o que já temos, especialmente quando esse “tudo” cabe numa mesa pequena, com três coisas: um pão, uma jarra de vinho... e aquela pessoa.
E se, por acaso, a jarra estiver vazia, o pão estiver duro e aquela pessoa estiver atrasada? Bem, aí é só lembrar que, como dizia o próprio Khayyám entre uma taça e outra: “Se os que amam o vinho e o amor vão para o inferno, o paraíso deve estar vazio.”
Eu, que sou de vinho e de café, concluo: desde que haja alguém para rir comigo, até o pão de ontem está bom.




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