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UM PONTO PARADOXAL

  • Carlos A. Buckmann
  • 16 de mai. de 2025
  • 4 min de leitura

UM PONTO PARADOXAL

            "De um certo ponto adiante não há mais retorno. Esse é o ponto que deve ser alcançado." A concisão destas palavras ecoa a angústia e a perspicácia de Franz Kafka (1883-1924), escritor boêmio de língua alemã, cuja obra surreal explorou as labirínticas complexidades da burocracia, da alienação e da condição humana diante de forças opressoras e incompreensíveis. Sua literatura, marcada por um tom sombrio e surreal, legou-nos personagens imersos em pesadelos existenciais, buscando incessantemente por justiça e sentido em um mundo absurdo.

            Franz Kafka, nascido em Praga em 1883, foi um dos mais inquietantes e enigmáticos escritores do século XX. De origem judaica, escreveu em alemão, mergulhando nas profundezas da angústia existencial, da burocracia sufocante e do absurdo cotidiano. Autor de obras como A Metamorfose, O Processo e O Castelo, Kafka nunca viu sua fama em vida — a maioria de seus manuscritos só veio à luz postumamente, contrariando seu próprio pedido de destruição. Sua escrita densa e simbólica continua a ecoar nas mentes dos que ousam atravessar os limites da zona de conforto.

            Ao me deparar com sua frase — “De um certo ponto adiante não há mais retorno. Esse é o ponto que deve ser alcançado.” — fui tragado por um redemoinho de reflexão. É um paradoxo que me assombra e me instiga: como pode o ponto de não-retorno ser o objetivo, o destino desejado? Seria este o limiar onde a cautela é abandonada, e apenas a autenticidade brutal permanece?

            A sentença “kafkiana” encerra um paradoxo fecundo, um nó górdio da existência que nos convida à reflexão. O "ponto adiante do qual não há mais retorno" evoca a irreversibilidade de certas decisões, o limiar intransponível que demarcam etapas consumadas. Seja a declaração de um amor eterno, a assinatura de um contrato vinculante ou a deflagração de um conflito, há momentos em que a trajetória se cristaliza, impedindo qualquer marcha a ré. Contudo, a segunda parte da assertiva, "esse é o ponto que deve ser alcançado", introduz uma tensão intrigante. Por que almejar esse umbral de não retorno? Seria uma exortação à audácia, um convite a transpor a inércia e a abraçar o risco inerente a qualquer empreitada significativa?

            Na trajetória pessoal, esse ponto costuma se disfarçar de crise. Um casamento que já não se sustenta, um emprego que exaure mais do que dignifica, um sonho que agoniza por falta de coragem. Há um instante em que não se pode mais voltar a ser quem se era — e é justamente nesse instante que se pode, enfim, começar a ser quem se é.

            Em sociedade, o ponto de não-retorno revela-se nos grandes movimentos históricos. A queda do muro de Berlim, por exemplo, foi um desses momentos irreversíveis, onde uma ideia — a liberdade — impôs-se como destino. O mesmo se dá nos negócios. Todo empreendedor sabe — mesmo que não confesse — que há um dia em que investir ou não é uma linha que, uma vez cruzada, transforma. Ou se arrisca e caminha rumo ao ponto de não-retorno, ou se permanece na confortável mediocridade.

            A busca por esse ponto, aparentemente paradoxal, reside na necessidade intrínseca do ser humano de progredir, de romper a estagnação. Atingir o ponto de não retorno implica, frequentemente, a concretização de um objetivo arduamente perseguido, a materialização de um ideal acalentado. É a travessia do Rubicão pessoal ou corporativo, o momento em que a hesitação cede lugar à ação decisiva, impulsionando o indivíduo ou a organização para um novo patamar. A ousadia de alcançar esse ponto reside na promessa de transformação, mesmo que envolva a renúncia ao conforto da familiaridade e a exposição à incerteza do desconhecido.

            Mas por que buscar esse ponto? Porque é ali que mora o genuíno. Ali se desfazem as máscaras, se rasgam os planos de contingência, e se encara a vida com a crueza de quem não tem mais escapatória. O filósofo Søren Kierkegaard já dizia que “a angústia é a vertigem da liberdade”. O ponto de Kafka é, por excelência, o salto no abismo da escolha. Simone de Beauvoir também nos lembraria que só na escolha plena — sem garantias — reside a autenticidade do ser.

            Manter o equilíbrio, porém, é uma arte de acrobatas existenciais. Nem todo ponto de não-retorno é virtuoso. Há o abismo, sim, mas também uma ponte. É preciso discernimento — algo entre a prudência aristotélica e o ímpeto nietzschiano. O segredo talvez esteja em não temer o irreversível, mas também não o buscar por vaidade ou desespero. Um empresário que decide reinventar seu negócio precisa antes sondar se há solo firme do outro lado da ponte — mesmo que nunca tenha certeza plena.

            No fundo, viver é isso: aproximar-se continuamente daquele ponto onde tudo muda. O ponto onde não se pode mais recuar. E, ao tocá-lo, sorrir com o gosto agridoce do inevitável.

            Porque, convenhamos, o que seria da vida se tudo fosse reversível? Provavelmente, seríamos como aquele sujeito que voltou atrás no pedido de demissão e descobriu, tarde demais, que o crachá já havia sido passado adiante. Em algum momento, a gente olha para trás e percebe que foi longe demais para pedir o reembolso.

 

 
 
 

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