UM ESTOICO E UM CÉTICO NO CAFÉ ENTRE FLUXOS
- Carlos A. Buckmann
- 23 de dez. de 2025
- 2 min de leitura

UM ESTOICO E UM CÉTICO ENTRE FLUXOS
Sou o cronista-barista do Café Entre Fluxos, onde o tempo se dobra como guardanapo e os encontros acontecem por capricho do destino, ou por ironia dele.
Hoje, o ambiente está mais sóbrio: o cheiro de café colombiano paira como uma lembrança ancestral, e ao fundo, um cravo toca uma suíte de Couperin, criando um clima entre o estoico e o melancólico. As paredes, sempre cúmplices, parecem ouvir mais do que os clientes falam.
Na mesa central, sentam-se dois homens que jamais se encontraram em vida, mas que hoje compartilham uma xícara e um sarcasmo: Epicteto, o escravo que ensinou liberdade, e Montaigne, o nobre que duvidava até da própria certeza. O universo, por alguma razão que só ele entende, decidiu que era hora de colocá-los frente a frente.
Epicteto - (com voz firme e olhar sereno):
“Escrevi para ensinar que o homem só é livre quando domina o que sente. O mundo pode nos açoitar, mas não pode nos possuir. Meu Manual não é um livro, é uma chave.”
Montaigne (sorrindo com ironia): “E eu escrevi para confessar que não sei nada. Meus Ensaios são espelhos quebrados: cada fragmento reflete uma dúvida. A certeza é arrogância disfarçada de sabedoria.”
Epicteto: “Mas há coisas que não se discutem, Montaigne. A virtude, por exemplo. Ela é o único bem que não depende do acaso.”
Montaigne: “Virtude? Talvez. Mas até ela muda de roupa conforme o clima. O que é virtude em Atenas pode ser vício em Paris.”
Enquanto sirvo mais café, não resisto e me atrevo a intervir enquanto sirvo duas xícaras, com café forte como merece o encontro: - “Senhores, se me permitem... Hoje, a liberdade virou produto e a dúvida, algoritmo. O mundo não quer mais pensar, quer confirmar. E a virtude? Está em promoção, com frete grátis.”
Epicteto (erguendo a sobrancelha): “Então é preciso ensinar que o essencial não se compra. A alma não tem código de barras.”
Montaigne (rindo): “E que pensar é um ato subversivo. Quem duvida, incomoda. Quem pergunta, atrapalha.”
Epicteto: “O sofrimento é inevitável. Mas sofrer por aquilo que não depende de nós é escolha.”
Montaigne: “E eu digo: sofrer é humano. Mas fingir que não se sofre é desonesto.”
Epicteto: “Então sejamos honestos e livres.”
Montaigne: “Ou livres por sermos honestos.”
As luzes tremulam como se piscassem em concordância. Um cliente ao fundo fecha um livro e suspira. O cravo toca uma nota dissonante, como quem quer participar da conversa.
Na mesa central restam apenas duas xícaras ainda fumegantes.
No meu livro de guardanapos, anotei com minha caneta de tinta invisível:
“Entre o estoico que ensina a resistir e o cético que ensina a duvidar, talvez o verdadeiro sábio seja aquele que aprende a rir, sem perder a profundidade.”




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