UM ENCONTRO POÉTICO
- Carlos A. Buckmann
- 2 de ago. de 2025
- 4 min de leitura

UM ENCONTRO POÉTICO.
Eu, o cronista-barista do CAFÉ ENTRE FLUXOS, observo. Não apenas preparo o café que aquece corpos e almas, mas também sirvo de testemunha aos encontros que, misteriosamente, se desenrolam sob as luzes âmbar do meu santuário. O ar, denso com o aroma de grãos moídos e livros antigos, era hoje permeado por uma melodia suave, um jazz instrumental que pontuava a quietude com notas de reflexão, talvez um Miles Davis mais introspectivo, preparando o palco para o que viria.
A mão do destino, tão imprevisível quanto a borra de café no fundo da xícara, teceu um reencontro improvável. Carlos Drummond de Andrade, com a sua melancolia poética pairando como uma névoa sobre seus óculos, adentrou o café. Seus passos ecoavam um certo peso, a gravidade de quem carregou o mundo em versos. Quase simultaneamente, Maya Angelou, com a sua presença solar e um sorriso que desarmava qualquer pretensão, surgiu, irradiando a força de quem soube transformar a dor em arte. E, como um contraponto sereno, Ralph Waldo Emerson, com a quietude de um carvalho centenário e a profundidade de um rio antigo, encontrou seu caminho até uma mesa circular no centro do salão. Sem que uma palavra fosse trocada, um reconhecimento mútuo, quase ancestral, uniu esses três faróis da palavra. Senti a energia no ambiente mudar, uma expectativa palpável preenchendo cada canto do Entre Fluxos.
Discretamente aproximei-me, simulando limpar uma mesa próxima, enquanto o burburinho de suas vozes, inicialmente hesitante, crescia em volume e substância.
"Estranho, não é?", começou Drummond, a voz grave e pensativa. "Este silêncio que nos une, este café que nos convida à pausa. Em minha obra, como em 'A Rosa do Povo', sempre busquei a pausa reflexiva diante do caos, a busca pela essência humana em meio às contradições sociais. Sinto que meus versos foram um espelho para as inquietudes de uma época, um lamento e um questionamento sobre o 'e agora?' do homem moderno. A repercussão... ah, a repercussão é um enigma. Por vezes, sinto que fui compreendido, outras vezes, que meus versos se perderam no turbilhão da pressa."
Maya Angelou, com um aceno de cabeça compreensivo, replicou:
"Compreendo profundamente essa busca pelo cerne. Para mim, a palavra sempre foi um ato de revelação e resistência. Em 'Eu Sei Por Que o Pássaro Canta na Gaiola', minha narrativa buscou romper o silêncio imposto, dar voz àquilo que foi silenciado pela dor e pelo preconceito. A repercussão... foi um bálsamo para muitos, um convite à superação, à resiliência. Mas também houve quem preferisse o véu, a negação da ferida. Creio que a verdade, por mais dolorosa que seja, sempre encontra seus ouvintes, eventualmente."
Emerson, com um sorriso sereno, interveio, sua voz calma como a de um riacho:
"Ambos tocam na essência da existência. Minha busca, presente em ensaios como 'Natureza' e 'Autoconfiança', sempre foi pela transcendência do eu, pela conexão com o Espírito Universal. Acredito na divindade inerente ao indivíduo, na intuição como guia primordial. Meus escritos, imagino, ressoaram com aqueles que buscavam uma libertação das convenções, uma redescoberta do próprio poder interior. Houve quem os abraçasse como uma revelação, e quem os visse como uma afronta à ortodoxia. Mas a verdade, como a natureza, persiste, independentemente de como a percebemos."
Drummond, mexendo o café com a colher, ponderou:
"Essa ideia da 'autoconfiança' ressoa com a minha crença na necessidade de o homem se reinventar, mesmo diante da pedra no caminho. Contudo, em 'Alguma Poesia', eu me debrucei sobre a dúvida, a angústia da existência, a fragilidade humana. Onde, então, reside a força inabalável que o senhor propõe, Emerson?"
Emerson, com a serenidade de quem já navegou por muitas tormentas filosóficas, respondeu:
"A força não reside na ausência da dúvida, caro Drummond, mas na coragem de confrontá-la, de mergulhar na própria essência e reconhecer a chispa divina que ali habita. A dúvida é apenas uma névoa que obscurece a visão, não a aniquila. A autoconfiança é a bússola que nos guia através dessa névoa."
Maya Angelou interveio, no esplendor de sua beleza negra e seu olhar fixo em Drummond:
"E a fragilidade, Carlos, é também uma fonte de força. Em 'A Canção que Ascende', explorei a vulnerabilidade como porta para a empatia, para a conexão com o outro. Não é na negação da dor que nos tornamos fortes, mas na capacidade de abraçá-la e transformá-la em sabedoria. Concordo com Ralph que a verdade persiste, mas ela é multifacetada, tecida nas experiências individuais e coletivas."
Drummond indagou, deixando transparecer sua inquietação social.
"Mas e a sociedade?" Minha poesia, em 'Sentimento do Mundo', tentou despertar a consciência para as mazelas sociais, para a injustiça. É possível a transcendência individual sem a transformação do coletivo?"
Emerson assentiu lentamente.
"A transformação do coletivo, meu caro, emana da transformação individual. Uma sociedade justa e compassiva é a soma de indivíduos que encontraram a si mesmos e a sua própria divindade. A responsabilidade social surge da autorrealização, não antes."
Maya Angelou, com a sabedoria que a vida lhe imprimiu, adicionou:
"E essa autorrealização, Ralph, é impossível para muitos sem que as estruturas opressoras sejam desmanteladas. Meu ativismo, minha voz, sempre foram direcionados a quebrar essas barreiras. A liberdade individual e a liberdade coletiva são intrinsecamente ligadas. Um pássaro não pode cantar plenamente na gaiola, por mais que sua alma anseie."
O diálogo fluiu como a melodia de Miles Davis, cada nota um pensamento, cada pausa uma reflexão. Drummond expressava a angústia da existência e o compromisso social, Angelou a resiliência e a voz dos silenciados, e Emerson a transcendência individual e a conexão com o universal. As concordâncias surgiam na busca pela verdade e pela autenticidade, as contradições na prioridade entre o eu e o mundo, entre a introspecção e a ação. Mas, de alguma forma, esses fios distintos teciam um tapete mais rico, uma tapeçaria que revelava a complexidade e a beleza do pensamento humano.
Enquanto observava os últimos sorvos de café e as últimas palavras se dissiparem no ar do Entre Fluxos, percebi que a verdadeira alquimia não está apenas nos grãos torrados ou na água fervente, mas na faísca que salta quando mentes brilhantes colidem, se entrelaçam e se iluminam mutuamente.
“No Café Entre Fluxos, a verdade não se encontra, ela se manifesta na dança perene entre o silêncio e a palavra, onde a dissonância é apenas uma melodia ainda não compreendida”. – Anotei no meu livro feito de guardanapos.




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