UM ENCONTRO LITERÁRIO
- Carlos A. Buckmann
- 25 de jul. de 2025
- 4 min de leitura

UM ENCONTRO LITERÁRIO
Há tardes em que o tempo parece descalço, caminhando com leveza sobre o chão de madeira envelhecida do Café Entre Fluxos. As lâmpadas âmbar pendem como pensamentos prestes a se revelar, e o aroma de café moído mistura-se com o perfume de livros antigos que repousam sobre as prateleiras, como confidentes silenciosos. É nesse cenário que o inexplicável se manifesta, onde o acaso veste sua melhor roupa e transforma encontros impossíveis em diálogos eternos.
Hoje, sob a suave sinfonia da máquina de expresso e o vaivém dos pensamentos que escorrem entre mesas, algo raro aconteceu. Três figuras se reconheceram, ou talvez tenham sido reconhecidas pela própria existência. Hesse, Kafka e Dostoiévski. Não sei que força teceu esse momento, mas quando vi aqueles olhos calejados pela transcendência, compreendi que o universo havia virado uma página inédita.
Hesse serviu-se de chá, como quem busca sabedoria no vapor. Ele iniciou:
“O homem precisa atravessar seus próprios labirintos interiores. ‘Sidarta’ é minha oferenda ao espírito que busca algo além do intelecto. Com ela, tentei mostrar que o caminho da iluminação é uma ponte entre o mundo e o silêncio.”
Kafka, com um olhar de angústia lírica, quase metamorfósica respondeu:
“E se essa ponte for um julgamento constante? ‘O Processo’ surgiu de minha incapacidade de compreender a lógica que me cercava. O homem está preso num tribunal invisível, onde a culpa precede o crime. Minha literatura é o reflexo do desamparo moderno.”
Dostoiévski, em sua profundidade quase mística, inclinou-se, tocando levemente a borda da xícara:
“E eu lhes digo: é na queda que se revela o humano. Em ‘Crime e Castigo’, quis que Raskólnikov fosse mais que um assassino; ele é o retrato de uma alma dividida entre razão e compaixão, entre ideologia e misericórdia. A sociedade tenta sufocar o espírito — mas a alma, mesmo ferida, grita.”
Hesse, numa postura germânica, entre um gole e outro,refletiu:
“A liberdade está na compreensão profunda de si. O sofrimento pode ser caminho, não prisão.”
Kafka, com seu olhar que denota um semblante sombrio, acrescentou:
“Mas o sofrimento muitas vezes é imposto. Não escolhemos os corredores pelos quais corremos. Há absurdos que devoram o sentido.”
Dostoiévski, sereno em sua postura russa, quase militar, prosseguiu:
“Talvez o sentido esteja no absurdo. A fé, mesmo quando irracional, é uma centelha contra a escuridão. Deus permanece mesmo quando não responde.”
De repente, não mais que de repente, como se ouvisse Vinícius, Hesse tomou a palavra sem pedir licença.
Hesse, categórico, setenciou:
“A liberdade não é escolha externa, mas conquista interior. 'Sidarta' encontrou a verdade não ao se rebelar, mas ao silenciar o desejo de saber... há uma paz que nasce da aceitação profunda.”
Kafka, tenso como um fio antes do rompimento:
“Mas e quando não há escolha? Quando o indivíduo é esmagado por engrenagens invisíveis? Em 'O Processo', Josef K não teve sequer o direito de saber o motivo de sua condenação. Isso também é destino — cruel, mas verossímil.”
Dostoiévski, com voz grave e compassiva:
“O livre-arbítrio é um fardo divino. Em 'Os Irmãos Karamázov', Ivan se debate contra um Deus que permite o sofrimento infantil. Mas negar a liberdade seria negar a capacidade do homem de amar... até mesmo a Deus.
Kafka se levantou lentamente:
“Somos fragmentos. Gregor se transforma num inseto, mas a metamorfose maior está dentro. Perdeu sua linguagem, sua dignidade, e ninguém mais o viu como humano. O eu, é um grito abafado.”
Hesse, sorriu triste:
“E no ‘Lobo da Estepe’, Harry vê-se como muitos. O homem é plural. Tentamos simplificar o que somos porque temos medo da profundidade... mas é nela que mora o real.”
Dostoiévski interrompeu:
“Raskólnikov divide-se entre a razão utilitária e a emoção arrependida. O eu, é campo de batalha. Mas é na batalha que surgem as escolhas que nos fazem humanos.”
Dostoiévski, olhar cravado no além:
“O silêncio de Deus é o maior mistério. Em 'Os Demônios', o niilismo cresce onde não há fé. Mas eu insisto: o sentido está em resistir à desesperança.”
Kafka, quase sussurrando:
“Deus está ausente. Ou é como um castelo inalcançável... distante, indiferente. Não clamo por resposta. Só por compreensão do absurdo.”
Hesse respondeu com suavidade:
“E se Deus for o silêncio entre os pensamentos? ‘Sidarta’ encontrou paz quando parou de buscar sentido. O sentido não é uma resposta. É um estado.”
Kafka olhou pela janela:
“A culpa é anterior ao ato. É estrutural. Em 'Na Colônia Penal', o castigo é escrito na carne antes da explicação. Não há redenção, só repetição.”
Dostoiévski, com lágrima contida:
“Mas há redenção. Raskólnikov, ao se ajoelhar, descobre que o sofrimento é caminho e não castigo. A alma que confessa, está mais perto do céu.”
Hesse concluiu:
“A culpa nos ensina. E não há evolução sem dor. O espírito humano caminha não para escapar dela, mas para transformá-la.”
Kafka ergueu o copo:
“A sociedade isola os que pensam. É um teatro onde todos atuam sem saber o roteiro.”
Dostoiévski rebateu:
“Mas é na sociedade que o homem se revela. A alienação é um sintoma, sim mas também é uma chance para reconstruir valores.”
Hesse, serenamente:
“E talvez o espírito precise afastar-se da massa para ouvir a si mesmo. A cultura nos forma, mas também nos limita.”
A conversa cessou não por esgotamento, mas por reverência. O silêncio que restou foi mais eloquente do que qualquer palavra dita.
Como por encanto, como tudo que acontece no CAFÉ ENTRE FLUXOS, cada um a seu tempo, voltou a seu tempo. Sobre a mesa alguém deixou escrito em um guardanapo: “A filosofia não é resposta ao mundo, é o eco que permanece depois que tudo foi dito.”
Antes de fechar o Café, foi minha vez de escrever em um guardanapo sobre o balcão:
“Na sinfonia silenciosa entre almas errantes, o Café Entre Fluxos existe como interlúdio da eternidade, onde cada palavra dita é um degrau entre o caos e o despertar.”




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