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UM ENCONTRO FILOSÓFICO/PSICANALÍTICO.

  • Carlos A. Buckmann
  • 25 de jul. de 2025
  • 4 min de leitura

UM ENCONTRO FILOSÓFICO/PSICANALÍTICO.

            Na quietude pensativa do Entre Fluxos, onde o aroma de café recém-coado se entrelaça com o pólen de ideias antigas, a vida pulsa em um ritmo diferente. Não é apenas uma cafeteria; é um santuário de encontros, um éter onde o acaso se curva à inevitabilidade do diálogo. As paredes, revestidas de madeira escura e livros que parecem respirar histórias silenciadas, absorvem os sussurros e as risadas, transformando-os em parte da própria tapeçaria do lugar. A luz, filtrada pelas grandes janelas que dão para a rua movimentada, lança sombras longas sobre as mesas de madeira maciça, criando um jogo de claro-escuro que convida à introspecção. Eu, o cronista-bartender, observo tudo de trás do balcão, misturando não apenas bebidas, mas também destinos.

            Hoje o Café parece respirar com mais densidade. Há fumaça suave de tabaco francês misturada ao aroma ancestral de café torrado. As mesas são de madeira antiga, marcada por cicatrizes de conversas passadas. Os lustres pendem como perguntas não respondidas, e os livros dispostos nas prateleiras não esperam leitores, esperam adversários.

            Neste clima quase conspiratório, três vultos se aproximam como peças de xadrez que, embora de tabuleiros distintos, reconhecem-se pela forma com que desafiam o rei da conformidade. Robert L. Leahy, com seu ar clínico e olhos atentos; Michel Foucault, com seu silêncio cortante e barba que esconde revoluções; Jacques Lacan, com seu olhar oblíquo e sorriso que não responde, apenas provoca.

            Um aceno de cabeça, um reconhecimento tácito da grandeza um do outro, e eles estavam sentados. Servi-lhes os cafés que pareciam mais adequados às suas personas: um expresso forte para Leahy, um americano sem açúcar para Foucault, e um café turco, denso e misterioso, para Lacan.

"Interessante", começou Leahy, sorvendo seu expresso com precisão. "Parece que o acaso nos reuniu neste vórtice de significantes."

Lacan traça com o dedo o círculo invisível de um copo inexistente:

            “A verdade tem estrutura de ficção. O inconsciente é discurso do Outro. Minha obra, ‘Escritos’, fala disso, da fala como forma de estruturação do sujeito. O mundo leu minha teoria como um enigma, e é justo. Porque cada sujeito é uma cifra, e a sociedade não é o decodificador... é o próprio código.”

A atmosfera do café parecia vibrar com a intensidade da discussão. Notei que Leahy ouvia com atenção, embora sua postura indicasse uma firmeza em suas convicções.

           

 

Foucault ajeita o cachecol imaginário e responde sem olhar:

            “E ainda assim, Jacques, o poder inscreve o sujeito antes que ele fale. ‘Vigiar e Punir’ mostrou isso. O corpo como superfície de inscrição do controle, a instituição como maquinaria de subjetivação. Não há o Outro... há norma. E a norma precede a palavra. A sociedade não lê o sujeito, ela o arquiva.”

Leahy sorri como quem aceita o embate:

            “Vocês veem estruturas onde eu vejo padrões emocionais. A Terapia Cognitiva, e mais recentemente minha ‘Terapia do Declínio da Ansiedade’, tenta justamente dissolver essa armadura discursiva para tocar o indivíduo onde dói: na emoção vivida. O sofrimento psíquico não está na norma, nem no desejo... está na crença disfuncional sobre o próprio valor.”

Lacan inclina a cabeça:

            “Mas quem define o valor, senão o Outro? E o que é crença senão uma narrativa, um significante organizado na cadeia?”

Leahy interveio e explicou:

"Minha abordagem, como exposta em 'Terapia Cognitiva da Depressão e da Ansiedade', buscou desvendar as distorções cognitivas que aprisionam o indivíduo",. "A repercussão foi imensa; vi pessoas libertarem-se de amarras invisíveis, reestruturando seus pensamentos disfuncionais. A sociedade do meu tempo estava sedenta por ferramentas que permitissem uma maior autonomia sobre a mente."

Foucault interrompe:

            “Talvez não devêssemos tratar o sofrimento, mas compreendê-lo como sintoma da máquina de normalização. Os manuais de cura são, frequentemente, os compêndios da docilização.”

Leahy rebate com firmeza gentil:

            “Mas aliviar a dor não é também resistência? Dar ao sujeito a possibilidade de escolha é devolver-lhe a agência. Não há revolução maior que o autocontrole.”

            "Compreendo suas ressalvas", disse Leahy. "Mas a terapia cognitiva não nega a complexidade do sujeito. Ela oferece um caminho para que o indivíduo reconheça suas próprias narrativas disfuncionais e as questione. Não é uma imposição, mas um convite à reflexão e à ação. A liberdade não está apenas na desconstrução, mas também na capacidade de construir novas perspectivas."

            O café silencia. Os lustres parecem ter descido alguns centímetros, pesados pelas palavras que agora pairam. Os copos não estão cheios, mas os pensamentos estão. O ENTRE FLUXOS pulsa, porque aqui o tempo dobra para ouvir o que já foi dito, e o que ainda será.

            No final da noite, enquanto Lacan traçava uma equação impossível com a colher, Foucault tomava notas invisíveis num caderno que só ele via, e Leahy observava tudo com olhos clínicos e quase ternos, escrevi discretamente no meu caderno feito de guardanapos de bordo filosófico:

            “Quando pensadores se encontram, o Café não serve ideias, destila dilemas. Porque filosofar é ver o mundo como ele nunca ousaria se mostrar.”

 

 
 
 

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