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UM COPO VAZIO

  • Carlos A. Buckmann
  • 10 de jun.
  • 4 min de leitura

UM COPO VAZIO E UMA ALMA CHEIA (*) (**)

(Da série A FILOSOFIA NA MPB)

            Foi numa tarde qualquer, dessas que o Rio de Janeiro inventa para nos lembrar que o tempo é apenas um enfeite.

            Gilberto Gil tinha recebido um pedido de Chico Buarque, que estava enfrentando forte censura na época e decidiu gravar um disco (Sinal Fechado) apenas com músicas de outros compositores. Gil escreveu esta canção em 1974.

            Violão no colo e os olhos preguiçosos fixos na mesa de vidro, viu um copo vazio. Nada mais comum. Mas Gil nunca foi de deixar as coisas em paz. Ele pegou o copo, girou entre os dedos e, em vez de servi-lo com vinho, serviu-lhe uma canção.

            Assim nasce a filosofia brasileira: não nos livros empoeirados, mas na poeira da mesa de bar, no gesto mínimo de quem percebe que o vazio também é uma forma de plenitude.

            “É sempre bom lembrar / Que um copo vazio / Está cheio de ar”

            Quem diria! O senso comum chama de vazio aquilo que os olhos apressados não veem. Mas o ar está ali, ocupando cada molécula da ausência.

            Sócrates, na ágora, dizia que só sabia que nada sabia e, esse “nada” era justamente o ar que preenchia seu copo interior. Saber que não se sabe é o primeiro sopro da sabedoria.

            Gil, sem togas nem pórticos, repete a lição: o vazio aparente é sempre uma presença disfarçada. Basta ter paciência para respirar fundo e sentir o peso do invisível.

            “O ar sombrio de um rosto / Está cheio de um ar vazio / Vazio daquilo que no ar do copo / Ocupa um lugar”

            O copo se torna espelho. O rosto sombrio que atravessa a rua, o olhar perdido no ônibus, a testa franzida no escritório; todos eles respiram um ar que não contém o vinho da alegria. Não é que estejam vazios de alma. Estão cheios de um ar vazio, daquilo que falta.

            Angústia, o sentimento de que algo não está ali, embora não saibamos nomear o quê. Gil traduz: o rosto sombrio é um copo que espera seu líquido. E o líquido, meu caro, chama-se sentido.

            “O ar no copo ocupa o lugar do vinho / Que o vinho busca ocupar o lugar da dor”

            A roda gira. O ar está no lugar do vinho. O vinho, quando chega, não vem para ficar, vem para tentar ocupar o lugar da dor. Mas a dor é teimosa, tem geografia própria. Nietzsche, em O nascimento da tragédia, falava do equilíbrio entre o apolíneo e o dionisíaco: o vinho é o delírio que por um instante faz sombra à ferida. Só que a ferida não some; ela se comprime, espera o próximo gole.

            Gil não nega a tragédia. Ele apenas a observa com a mansidão de quem sabe que a cura não está no líquido, mas na transparência do copo.

            “Que a dor ocupa metade da verdade / A verdadeira natureza interior / Uma metade cheia, uma metade vazia / Uma metade tristeza, uma metade alegria”

            A MPB encontra Espinosa. A substância única de Deus, ou da Natureza, não tem medo de contradições. A verdade interior é um copo meio cheio, meio vazio. Não no sentido rasteiro do otimismo ou pessimismo, mas na aceitação radical de que a vida é feita dessa alternância.

            O sábio não tapa o buraco da tristeza com rolha de ilusão. Ele admite que a tristeza ocupa sua metade legítima, assim como a alegria. A sabedoria não é eliminar o vazio, mas aprender a decantar o ar que nele habita.

            “A magia da verdade inteira, todo-poderoso amor”

            Então, quando já estávamos quase nos afogando em metades, Gil sopra a saída de emergência. A verdade inteira não é a soma da metade cheia com a metade vazia. É a magia de que o copo, em si mesmo, é uno.

            O amor, esse todo-poderoso, é a força que não escolhe entre ar e vinho, entre dor e alegria. Ele é o gesto de levantar o copo e brindar, mesmo quando ele está vazio.

            Brindar ao ar que respiramos. Brindar ao rosto sombrio que amanhã talvez sorria. Brindar à própria vidraça da existência, que só é transparente porque não tem medo de mostrar o que falta.

            Na tarde em que Gil viu o copo, poderia ter chamado o garçom para enchê-lo. Em vez disso, encheu o mundo de uma lição: o vazio não é falta, é possibilidade.

            O ar é o primeiro dos líquidos, a respiração é a primeira das bebidas. Eu, cronista de copos e almas, nunca me esqueço disso. Ao olhar um rosto sombrio, que eu veja o ar que o preenche e que esse ar me ensine a paciência de esperar o vinho, ou a coragem de brindar com o que já tenho.

             Afinal, como diria o poeta baiano, guardando de cor: Um copo vazio está cheio de ar.

            E o ar, no fim das contas, é o único gole que nunca acaba.

            Até o último suspiro, que um dia virá.

(*) Assista o clipe no YouTube:

(**) A crônica sobre essa música, foi sugestão de meu amigo José Abud Neto.

 
 
 

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